Os Ecos do Nome dela

1094 Palavras
A porta do auditório principal do Centro de Negócios Lucchesi se abriu com um estalo seco. Lis Vasconcellos entrou. O salto firme, o vestido preto de alfaiataria marcando a silhueta, os olhos contornados por uma maquiagem precisa. Nenhum traço de fragilidade, nenhum sinal da dor que a consumia por dentro. Ela era, ali, um nome — e nomes, quando pronunciados com a entonação certa, tornam-se armas. — Senhorita Vasconcellos — cumprimentou o cerimonialista, tentando esconder a surpresa. Lis apenas assentiu com um sorriso polido. O evento era um lançamento corporativo promovido pela Lucchesi Holdings. Dante não a convidara, claro. Mas ele também não a proibia de existir — ainda. Lis sabia disso. Estava aprendendo a explorar as frestas. E aquele era o primeiro passo. O salão estava cheio de figuras importantes do mercado, jornalistas, empresários, líderes de opinião. Quando o nome dela foi discretamente anunciado na entrada, muitos ergueram os olhos. Alguns em reconhecimento. Outros, em curiosidade. E havia aqueles que franziram a testa — confusos entre o que sabiam e o que já não podiam controlar. A presença dela era uma afronta não verbal. Um lembrete. Um eco. Lis caminhou em direção ao buffet, ignorando os olhares, até sentir a primeira fisgada de tensão no ar. Ela sabia que ele havia chegado. — Você não devia estar aqui. — A voz de Dante chegou por trás, baixa, controlada, perigosa. Lis virou-se devagar, como quem saboreia o momento. — E ainda assim, estou. Livre, bem vestida e — segundo me disseram — bastante comentada. Dante a observou com os olhos semicerrados. Ele vestia um terno escuro impecável, a gravata de seda italiana e aquele olhar glacial que sempre usava quando queria intimidar. Mas havia algo mais ali. Um desconforto que ele tentava ocultar e falhava. — Isso aqui não é uma arena para suas exibições. — Claro que não. — Ela sorriu. — É um templo para o seu ego. A diferença é que hoje o altar está rachado. Ele deu um passo mais próximo. Os olhos varreram o rosto dela com aquela intensidade que a fazia arfar sem querer. Lis, no entanto, não recuou. Os dois estavam tão próximos que bastava um deslize para que o conflito se tornasse carícia. — Por que está aqui, Lis? — Porque o mundo lá fora começa a se lembrar do meu nome. E quanto mais ele for dito, menos controle você terá sobre a narrativa. Dante apertou o maxilar. — O nome dela não te pertence. — murmurou, referindo-se à filha. — Mas o meu sim. E ele está começando a causar calafrios nas suas paredes geladas. Não é? Antes que ele pudesse responder, uma figura elegante se aproximou: Arthur Montelo, CEO da Montelo Group, um dos poucos empresários que nunca se curvou aos Lucchesi. — Senhorita Vasconcellos — cumprimentou com um sorriso genuíno — é uma honra finalmente conhecê-la pessoalmente. Dante endureceu. — Arthur — disse Lis, estendendo a mão com naturalidade — a honra é minha. — Li seu artigo no Jornal Econômico Nacional sobre ética empresarial. Brilhante. Corajoso. — Fico feliz que tenha gostado — respondeu Lis, consciente da tensão ao lado dela. — Tenho uma proposta em mente. Podemos conversar depois do evento? Lis assentiu, e Dante permaneceu em silêncio. Seus olhos cravados nela eram uma mistura de fúria e... algo mais. Algo que ele não sabia nomear, mas que ardia como ácido: medo. Horas depois, Lis atravessava o estacionamento com passos firmes. A noite estava fria, mas ela sentia o corpo aquecido pela adrenalina. O nome dela havia sido citado mais de uma vez durante o evento. Uma jornalista pedira uma declaração. Um investidor perguntara sobre seus projetos. Um advogado veterano elogiara sua coragem. Cada menção era uma rachadura a mais no vidro blindado do império Lucchesi. — Ainda não entendeu a extensão do risco que está correndo — disse uma voz atrás dela. Lis virou-se. Dante. De novo. — Ainda está com medo de um nome, Dante? — Estou com raiva. — A franqueza cortante dele a fez prender a respiração. — Raiva por não conseguir tirá-la da cabeça. Raiva por ver a minha filha sorrir quando você aparece na televisão. Raiva por descobrir que a imagem que construí está tremendo... por sua causa. Ela encarou-o sem desviar. O peito apertado, mas o orgulho intacto. — Isso é seu problema, não meu. — Eu podia destruir você. De novo. — Mas não pode. Não mais. — A voz dela tremia, mas não por medo. Por verdade. — Porque agora eu também tenho aliados. E porque seu nome não assusta mais como antes. Sabe por quê, Dante? Ele não respondeu. — Porque o meu nome está ecoando. Do outro lado da cidade, Marta terminava de revisar um dossiê. Uma sequência de documentos organizados com cuidado: registros da clínica, e-mails interceptados, contratos forjados. Ela sabia que Lis ainda não estava pronta para a guerra aberta, mas a movimentação silenciosa já começara. E ela era uma das peças mais importantes. — Ele vai cair... — murmurou Marta para si mesma. — Nem que seja pela própria filha. Na manhã seguinte, os principais sites de negócios noticiaram: "Lis Vasconcellos reaparece em evento da Lucchesi Holdings e rouba a atenção da noite." Dante atirou o celular contra a parede. Lis, por sua vez, estava sentada em um café discreto com Arthur Montelo. A conversa era objetiva: uma proposta para ela liderar um novo núcleo de responsabilidade social empresarial. — Você tem ideias, Lis. Tem voz. E agora tem atenção. Eu quero ajudar você a ampliar isso. Ela respirou fundo. A sensação de ser ouvida depois de tanto tempo em silêncio era quase insuportável. Mas ela precisava ser racional. — Se eu aceitar... serei declaradamente sua inimiga, aos olhos dos Lucchesi. — Você já é — disse Arthur com naturalidade. — A diferença é que agora tem quem lute com você. Na mesma tarde, Dante recebeu uma notificação oficial: Lis estava reativando a petição pela guarda compartilhada da filha. O sangue dele ferveu. Mas não foi o medo jurídico que o desestabilizou. Foi a pergunta que surgiu quando ele viu a assinatura dela ao final do documento: Lis Vasconcellos Montez. — Maldita — sussurrou ele. — Ela não quer só a filha. Ela quer o nome de volta. E, de fato, queria. Não porque desejasse carregar o sobrenome de quem a humilhara. Mas porque sabia o que esse sobrenome significava para o mundo. E ao uní-lo ao dela, estava fazendo o impossível: virar o jogo dentro das próprias regras de Dante. Os ecos estavam só começando.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR