A brisa da tarde soprava carregada de umidade e lembranças. Lis apertou o casaco contra o corpo, não apenas para se proteger do frio, mas como se quisesse esconder a alma trêmula por dentro. Havia decidido caminhar até a cafeteria que costumava frequentar antes de tudo desmoronar. Era como invadir um território sagrado do passado, onde sua vida ainda era dela.
Ela empurrou a porta de vidro e foi recebida por um leve tilintar. O cheiro familiar de café recém-moído a envolveu como um abraço distante. Quase nada havia mudado: as mesas rústicas de madeira, o balcão com doces dispostos em fileiras e até a mesma música ambiente, baixa e melancólica. Por um instante, sentiu vontade de chorar.
Sentou-se à mesa do canto, a mesma onde escrevia cartas para uma filha que ainda não tinha visto crescer. Pegou o celular, mas não havia sinal. O mundo parecia suspenso.
— Lis?
A voz a atingiu como um soco seco. Não precisava levantar os olhos para saber quem era. A presença, o tom contido, o frio no ar — tudo denunciava.
— Dante — disse, sem se mover, sem olhar.
Ele parou ao lado da mesa, as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo. Nenhuma arrogância no gesto, apenas um silêncio perigoso.
— Não imaginei te ver aqui.
— Porque você acha que pode controlar até onde eu respiro? — ela levantou o olhar, fria, firme.
Dante puxou a cadeira diante dela. Não pediu permissão.
— Esse lugar tem cheiro de você — ele disse, olhando ao redor. — Suave. Inquietante.
Lis riu, sem humor.
— A ironia é deliciosa, não acha? Você sufocou tudo que me pertencia e agora diz sentir meu cheiro no ar.
— Você ainda se vitimiza com uma destreza que me espanta.
Ela se inclinou para frente.
— Você ainda ignora a dor alheia com uma frieza que me enoja.
O garçom apareceu, hesitante, sentindo a tensão entre os dois. Lis pediu um expresso. Dante apenas acenou com a cabeça, sem desviar os olhos dela.
— Está me seguindo? — ela perguntou, o tom afiado.
— Coincidência. Ou destino, dependendo do ponto de vista.
— Você não acredita em destino.
— E você não acreditava que eu seria pai. Vê como o mundo gosta de contrariar?
Lis sentiu o estômago revirar. Ele sempre sabia como atingir o nervo exposto. Mas algo estava diferente naquela tarde. Não era só provocação. Havia algo no olhar dele — um incômodo, uma dúvida, quase uma sombra.
— A sua noiva ainda está em Paris? — ela perguntou, afiada.
Ele não respondeu de imediato.
— As aparências te incomodam mais do que a verdade?
— A verdade? — ela soltou uma risada baixa. — Você fala dela como se soubesse o que é. Mas vive atrás de uma cortina de controle, contratos e... mentiras. Você é uma prisão com aparência de castelo, Dante.
Ele se calou. Pela primeira vez, olhou para a xícara vazia à sua frente como se precisasse se agarrar a algo.
— Ela... — ele começou, depois se interrompeu. — Minha filha não dorme sem que eu cante uma música i****a que ela ouviu de uma babá. Toda noite. Mesmo chorando, ela me olha como se soubesse que tem poder. Como se... como se você tivesse deixado isso dentro dela.
Lis engoliu em seco.
— Porque eu deixei. Eu não podia abraçá-la, mas eu cantava para ela dentro de mim. Ela ouviu minha voz por meses. Você pode arrancar ela de mim, Dante, mas não vai apagar isso.
Por um instante, ele pareceu menor. Como se não fosse o magnata invencível. Como se aquele homem, diante dela, fosse apenas um pai perdido.
Mas logo o olhar endureceu novamente.
— Isso não muda nada. Legalmente, ela está comigo.
Lis apoiou os braços na mesa, com calma.
— E emocionalmente? Você realmente acha que está vencendo? Acha que controlar um bebê vai torná-la leal a você?
Ele a encarou, mas não respondeu.
O garçom trouxe o café. Lis tomou um gole, tentando conter a enxurrada de sentimentos.
Foi quando uma figura se aproximou da mesa ao lado. Um homem alto, de aparência elegante, cabelos grisalhos e um ar de quem sabia ler almas com os olhos. Lis reconheceu de imediato.
— Dr. Adriano? — ela disse, surpresa.
Dante ergueu as sobrancelhas.
— O psicólogo da clínica? — ele murmurou, desconfiado.
— Exato — o homem respondeu, com um sorriso. — Não esperava encontrá-los aqui. Lis, você está bem?
— Dentro do possível.
Dante o observava com a atenção de um predador. Adriano sentou-se à mesa ao lado, virando levemente para os dois.
— Curioso que vocês estejam juntos. O tribunal anda cheio de ruídos sobre vocês dois — disse, sem rodeios.
— Ruídos? — Lis perguntou.
— A juíza que cuidará do processo de guarda é conhecida por valorizar o vínculo emocional mais do que o material. E, sinceramente, há muitas dúvidas sobre como Dante conduz essa... criação.
Dante cerrou os punhos sobre a mesa.
— Eu dou tudo o que ela precisa.
— Tudo menos amor — Lis sussurrou.
Adriano pigarreou.
— A criança está começando a apresentar sinais de rejeição silenciosa, segundo relatos. Pequenas coisas. Nada que você perceba se estiver ocupado com negócios e aparências.
— De onde você tirou isso? — Dante perguntou, a voz baixa e cortante.
— Não me peça fontes. Apenas ouça. E pense. O que você quer deixar para essa criança além de uma herança? Ela vai crescer. Vai fazer perguntas.
Lis sentiu o coração bater descompassado. Era como se alguém, finalmente, estivesse dizendo em voz alta o que ela gritava por dentro.
— Você me odeia, Dante — ela disse, encarando-o. — E está usando uma criança como campo de batalha.
— Eu te odeio porque você me desmonta. Porque você me olha como se me enxergasse. E eu passei a vida me escondendo até de mim mesmo.
O silêncio se fez. Adriano não interrompeu. Apenas observou.
Lis sentiu os olhos marejarem, mas não piscou.
— Pois eu não vou recuar. Nem desistir. Não vou mais gritar sozinha. Se essa guerra vai continuar, saiba que eu agora tenho aliados. Gente que não tem medo do seu nome
.
Dante se levantou devagar.
— E eu continuo sendo Dante Lucchesi — disse com amargura.
— E eu continuo sendo a mulher que você não conseguiu destruir — ela respondeu.
Ele saiu do café sem olhar para trás.
Adriano se aproximou da mesa de Lis, com calma.
— Você foi forte hoje.
— Estou cansada de ser forte — ela sussurrou.
— Eu posso te ajudar. Se quiser apoio psicológico, relatórios para o tribunal... Eu conheço o sistema. E, principalmente, conheço pessoas que Dante não consegue intimidar.
Lis o encarou com um misto de esperança e cautela.
— Por que está me oferecendo isso?
— Porque sei o que é lutar contra monstros e ser tratada como louca. E porque, talvez, você seja a primeira pessoa em anos a fazer Dante Lucchesi tremer.
Ela abaixou os olhos para o café quase frio.
— Eu não quero fazê-lo tremer. Só quero minha filha de volta.
Adriano sorriu, leve.
— Então vamos lutar por ela. Com inteligência. E com verdade.
Ela assentiu.
E pela primeira vez em muito tempo, saiu daquele café com a sensação de que havia mais alguém ao seu lado na escuridão.