Lis encarou o espelho do banheiro do fórum como se pudesse prever o desfecho daquela manhã. O batom rubi marcava seus lábios com precisão, o cabelo preso em um coque firme, os olhos delineados sem tremores. Por fora, uma mulher inabalável. Por dentro, o caos de uma mãe prestes a encarar o homem que havia tomado tudo dela — inclusive o direito de ser chamada de mãe.
— Respira — murmurou para si mesma, ajeitando o paletó preto de alfaiataria.
A audiência que se seguiria seria a primeira após o início do processo formal de guarda compartilhada que ela tentava obter, mesmo sabendo que Dante Lucchesi jogava com regras que não pertenciam a mortais comuns. Ele era um império. Um império que destruía por silêncios, documentos e olhares calculados. Mas Lis aprendera a não temer as sombras.
Quando adentrou a sala de audiências, todos os olhares se voltaram para ela. Marta, a advogada firme que agora a representava, fez um leve gesto com a cabeça, reconhecendo sua chegada. Do outro lado, sentado com as pernas cruzadas e o olhar de pedra, Dante Lucchesi. Impecável em seu terno cinza escuro, braços esticados sobre a mesa, ele nem sequer se deu ao trabalho de desviar o olhar quando ela entrou. Como se fosse ele quem estivesse ali por escolha, e não por obrigação.
O juiz ainda não havia chegado. O murmúrio tenso dos presentes preenchia o ambiente, até que Dante, sem mover um músculo, disse:
— Achei que desistiria de me enfrentar. Como sempre.
Lis manteve o olhar firme.
— E eu achei que você já tivesse esgotado sua cota de crueldade. Me enganei.
Ele arqueou uma sobrancelha, os olhos finalmente encontrando os dela com uma frieza que rasgava.
— Eu protejo minha filha. Não brinco de maternidade de final de semana.
— Você não a protege. Você a isola. Você a molda como se ela fosse uma propriedade. — Lis se aproximou, sem medo — E ela não é. Ela é uma criança. Ela é... minha filha.
Dante manteve o rosto impassível, mas o maxilar se contraiu por um breve segundo. Pequenas rachaduras. Lis percebia. Sentia. Ele estava cada vez menos à prova de sentimentos.
A entrada do juiz interrompeu o embate silencioso. Todos se sentaram, e a audiência começou.
Durante as quase três horas que se seguiram, Lis manteve a postura firme enquanto ouvia Marta defender sua capacidade de exercer a maternidade, apresentar laudos psicológicos, provas de estabilidade, testemunhos de antigos colegas. Tudo planejado para desconstruir a imagem de uma mulher emocionalmente instável, que Dante havia alimentado na mídia e nos tribunais.
O próprio Dante m*l falou. Deixou que seus advogados — três, alinhados e impassíveis — cuidassem de tudo. Mas seus olhos não deixaram Lis em nenhum momento. Havia algo nele que fugia ao controle. Uma inquietação. Uma tensão que nem o mais caro dos ternos conseguia esconder.
Quando a audiência terminou, o juiz adiou a decisão para a próxima fase do processo. Nada definido. Nenhuma vitória, mas também nenhuma derrota. Lis sentiu o gosto amargo da espera, mas também o sopro de esperança.
— Isso foi um avanço, Lis — disse Marta, enquanto guardavam os documentos. — Ele está perdendo terreno. Você conseguiu tocar em algo hoje. Ele não é tão intocável quanto parece.
Lis não respondeu. Seus olhos estavam cravados em Dante, que agora falava ao celular, afastado dos demais. Mas algo no semblante dele mudou ao desligar. Seus olhos cruzaram novamente com os dela. E, por um segundo, o mundo pareceu parar.
Horas depois, já em casa, Lis se jogou no sofá. O cheiro de café ainda pairava no ar. Ela não conseguia desligar a mente. A imagem da filha, a expressão gelada de Dante, o olhar de fúria disfarçada. Estava tudo misturado.
Um som no celular chamou sua atenção. Uma mensagem. Número desconhecido.
“Você não está sozinha nisso. Continue firme. Ele tem mais inimigos do que imagina.”
Lis franziu o cenho. Era uma ameaça? Um aviso? Um apoio?
Respondeu:
“Quem é você?”
Nenhuma resposta. Ela tentou rastrear o número, mas nada apareceu.
Nos dias que se seguiram, Lis começou a perceber sutis movimentos ao seu redor. Dois jornalistas — um deles que ela conhecia desde a faculdade — começaram a investigar as relações da clínica de fertilidade com os advogados de Dante. Um barista do café que frequentava disse que "tudo o que está no escuro uma hora aparece". E uma funcionária da própria Lucchesi Group — que se apresentou apenas como Fabiana — deixou um envelope sob a porta de Marta, contendo provas de documentos
adulterados no processo de guarda.
Aliados silenciosos. Ecos de justiça. Sinais de que Dante, por mais poderoso que fosse, não era invencível.
Mas também vieram as ameaças.
Naquela semana, Lis percebeu um carro estacionado durante horas em frente ao prédio onde morava. Câmeras de segurança haviam sido vandalizadas. E um envelope com uma foto dela segurando um presente infantil — o mesmo que tentou mandar para a filha e foi devolvido — apareceu em sua caixa de correio com uma única palavra escrita em tinta vermelha:
“Desista.”
Ela levou o envelope até Marta. A advogada franziu o cenho ao analisar.
— Isso é claro: tentativa de intimidação. E muito provavelmente vinda do time dele. Mas vamos usar a nosso favor.
— Ele não vai parar, vai?
— Não enquanto achar que pode vencer no grito. Mas você não é a mesma de meses atrás. E ele... — Marta hesitou — ele está começando a errar. E isso, vinda de Dante Lucchesi, é raro.
No final daquela semana, Lis recebeu um convite inesperado: um evento beneficente promovido por uma das empresas parceiras da Lucchesi Group. Ela não tinha sido convidada diretamente. Alguém havia colocado seu nome na lista. E ela sabia exatamente quem esperava vê-la lá.
Ela hesitou. Medo. Raiva. Dor. Mas também a certeza de que não podia se esconder. Que aquele jogo se jogava com coragem.
Quando entrou no salão iluminado de tons dourados e luz baixa, Dante a viu. Estava ao lado de uma mulher alta, de vestido vermelho sangue, que tocava o braço dele com i********e. Lis manteve o queixo erguido. Passou entre os convidados sem desviar o olhar.
Ele a acompanhou com os olhos até que ela parou diante dele.
— Você não cansa de se enfiar onde não é chamada?
— Ah, Dante — ela sorriu, amarga — você acha mesmo que pode me excluir do mundo como excluiu minha filha de mim?
A mulher ao lado dele, visivelmente desconfortável, murmurou algo e se afastou. Dante se aproximou.
— Isso aqui não muda nada, Lis. Você não vai ganhar. Essa obsessão está destruindo você.
Ela se inclinou ligeiramente, os olhos nos dele.
— A diferença entre nós é que eu luto por amor. Você, por controle. E sabe o que é curioso? Amor não se controla.
Ela se afastou, deixando-o ali, no centro do salão, cercado de poder — mas mais sozinho do que nunca.
Naquela noite, sozinha em seu apartamento, Lis chorou em silêncio. Pela filha que não via, pelo coração que sangrava, pelo futuro que não conseguia enxergar com nitidez. Mas mesmo no choro havia força.
Ela havia plantado uma semente naquela audiência. Uma rachadura no mármore. E por menor que fosse, rachaduras se expandem. Sempre.