Lis não dormia havia duas noites. Os olhos ardiam, o coração pesava e a mente estava em estado de alerta constante. O bilhete anônimo deixado sob sua porta ainda tremia entre seus dedos. Não era uma ameaça direta. Era algo pior: uma insinuação.
“Você não está sozinha. Ele sabe tudo.” O bilhete não tinha assinatura, nem pista de quem o havia deixado, mas o frio que percorreu sua espinha bastou para saber: vinha de dentro do império Lucchesi.
Desde que dera entrada no processo para reaver a guarda da filha, Lis sabia que enfrentaria retaliações. Mas não esperava que as ameaças ganhassem esse formato invisível, sufocante. A presença do inimigo se insinuava por toda parte: nas ligações mudas durante a madrugada, nos passos atrás de si na calçada, na sensação constante de estar sendo observada.
Ela olhou em volta do pequeno apartamento. Estava sozinha, como sempre. Mas a solidão agora ganhava um novo contorno: o de silêncio forçado, imposto por um sistema e um homem que faziam questão de deixá-la sem voz.
Na manhã seguinte, Marta apareceu com os olhos apreensivos e os lábios crispados.
— Chegou uma intimação — disse, jogando o envelope pardo sobre a mesa. — Eles entraram com um pedido de medida cautelar para proibir você de postar qualquer coisa nas redes sociais.
— Eu nem uso redes sociais! — retrucou Lis, exausta.
— Justamente. Eles querem controlar até o que você não faz. O objetivo é sufocar. Te isolar. Impedir que você ganhe qualquer forma de apoio público. Estão se adiantando.
Lis sentou-se devagar, as mãos tremendo levemente. Era como se Dante estivesse tentando apagá-la do mundo. Não bastava tê-la separado da filha. Agora, queria que sua existência fosse invisível, irrelevante.
— E o juiz?
— O juiz deferiu. Provisoriamente. Estamos recorrendo, mas... — Marta respirou fundo. — Você está sendo vigiada, Lis. A qualquer momento, vão usar qualquer movimento seu contra você.
Lis apertou os olhos, tentando conter as lágrimas. Sua filha estava crescendo sem ela. Aprendendo a sorrir, a balbuciar palavras, a reconhecer vozes — e nenhuma daquelas memórias a incluiria. Tudo o que tinha era o vazio da espera. E agora, até mesmo sua liberdade de agir, de gritar por justiça, estava sendo podada.
Na mansão Lucchesi, Dante observava a filha dormindo pelo monitor do berçário. Ela parecia inquieta naquela noite. As mãozinhas se moviam nervosas, os olhos piscavam mesmo em sono profundo. Uma ruga surgiu em sua testa. Era só uma bebê. Por que ele se sentia... desconfortável?
Ele passou as mãos pelos cabelos e se recostou na cadeira de couro. Não conseguia ignorar a presença de Lis em seus pensamentos. Desde que ela abrira o processo de guarda, algo dentro dele parecia se mover. A imagem dela — os olhos firmes, a voz baixa, mas incisiva — voltava com frequência. Ela não era mais a mulher perdida, assustada, que ele vira após o parto. Ela estava mais forte. Mas era uma força silenciosa, perigosa. Como uma bomba-relógio.
Dante não gostava disso. E gostava ainda menos da sensação de que estava perdendo o controle. Ele havia construído sua vida em torno da previsibilidade, do domínio absoluto. O nome Lucchesi não era apenas uma marca. Era sinônimo de poder. E Lis estava tentando desafiar isso. Com argumentos, com advogados, com a própria dor como combustível.
Por isso mesmo, decidiu avançar.
Chamou Valentina, sua advogada pessoal, e ordenou:
— Quero um dossiê sobre tudo. Todos os lugares que Lis frequenta. Todas as pessoas com quem ela fala. Quero saber se ela está se aproximando da imprensa. E quero um pedido liminar para limitar os deslocamentos dela sem autorização judicial.
— Isso é legalmente frágil, Dante.
— Então faça parecer forte.
Valentina hesitou. Mas Dante era Dante. Ordens eram ordens.
Lis sentiu na pele o peso da nova investida. Dois dias depois, foi impedida de sair do próprio bairro. A justificativa? “Risco potencial de evasão com objetivo de exposição indevida da menor.”
— Eles estão transformando você numa criminosa sem crime — disse Marta, furiosa. — Mas isso não vai durar. Temos recursos. Temos provas. Só precisamos de tempo.
Mas tempo era o que Lis não tinha. Cada dia longe da filha era uma tortura. Cada minuto roubado era um suspiro que lhe era arrancado à força.
Ela se perguntava, em silêncio, até quando aguentaria.
Enquanto isso, Dante começava a perceber algo que jamais havia considerado: o choro da filha.
Era um som comum, esperado, para qualquer bebê. Mas com o passar dos dias, aquele choro ganhava outros tons. Era mais constante. Mais agudo. Mais... triste.
As babás diziam que era cólica. Que era normal. Mas Dante começava a duvidar. A menina parecia recusar o colo. Chorava com mais força quando ele se aproximava. Os olhos dela o fitavam como se o julgassem.
Ele passou a evitá-la. Delegava tudo. Evitava o contato, o afeto. Era mais fácil assim. Sentimentos tornavam tudo nebuloso — e Dante Lucchesi gostava de ver tudo com clareza.
Mas numa madrugada qualquer, ao ouvir o choro pela babá eletrônica, ele foi até o berço e se deparou com algo que não esperava: a filha gritava “mamã” entre os soluços.
Ele congelou.
Era impossível. Ela era pequena demais para articular palavras com clareza. Mas repetia “mamã” como se clamasse por algo que o instinto já reconhecia.
Dante ficou ali, parado, sem saber o que fazer. Pela primeira vez, sua presença não bastava.
Do outro lado da cidade, Lis sonhava com a filha. Acordou no meio da noite com um pressentimento sufocante, um aperto no peito que doía como se o coração estivesse sendo rasgado em silêncio.
Chorou abraçada ao travesseiro.
Mas no dia seguinte, decidiu não esperar mais.
Foi até a clínica onde tudo começou e exigiu os registros completos do erro médico. Marta a acompanhava, tentando conter o ímpeto, mas entendia: Lis estava farta de sofrer calada.
A diretora da clínica se recusou a entregar os documentos. Alegou confidencialidade. Mas Lis já não era mais aquela mulher apática do início. Encarou a mulher com firmeza e disse:
— Ou você me entrega o que é meu por direito ou terá que explicar à Justiça como esconde um erro médico que mudou duas vidas.
A ameaça surtiu efeito. Dias depois, os registros chegaram às mãos de Marta. E ali estava o que elas precisavam: a assinatura do médico, a troca de frascos documentada, o sumiço repentino de arquivos digitais... e o nome de Dante Lucchesi como doador original.
Agora, Lis tinha mais do que um processo de guarda. Tinha provas. Tinha o início de uma denúncia criminal.
E Dante, mesmo sem saber, começava a perder a blindagem que havia construído com tanto zelo.
À noite, Marta ligou para Lis com voz baixa, tensa:
— Cuidado com as sombras, Lis. Eles estão começando a sentir que estão perdendo o controle. E quando um império começa a ruir, ele primeiro tenta destruir quem o ameaça.
Lis desligou e ficou em silêncio.
As sombras se aproximavam, sim.
Mas ela já não era a mulher que se escondia delas.
Era a mulher que aprendia a enfrentá-las.