Entre as Garras da Lei

1389 Palavras
O silêncio da sala do tribunal era quase sagrado, cortado apenas pelo tilintar dos saltos de Lis sobre o mármore frio. Seu rosto mantinha a neutralidade de quem sabia que qualquer reação poderia ser usada contra si. Estava de cabeça erguida, mas dentro do peito, o coração golpeava as costelas com a força de uma batalha invisível. Na frente dela, Dante Lucchesi — impecável em um terno cinza-escuro que parecia ter sido costurado com arrogância — folheava os papéis como se lesse um relatório trivial. Nenhuma emoção no olhar. Nenhuma curva nos lábios. Ele se erguia como um monumento da impunidade. — Estamos aqui reunidos para discutir a petição da senhora Lis Almeida no que diz respeito ao direito de convivência com sua filha, Aurora Lucchesi Almeida — disse a juíza, com voz firme. Lis sentiu o nome da filha ecoar como um soco no peito. Aurora. Tão distante quanto uma estrela. O advogado de Dante se adiantou com um dossiê grosso. — Meritíssima, gostaríamos de apresentar provas documentais que atestam a instabilidade emocional da requerente, além de sua conduta imprudente após o parto. Temos registros médicos, laudos psicológicos e mensagens que indicam perturbação comportamental. Lis engoliu em seco. Sabia que os registros estavam ali. Ela os tinha assinado — pressionada, humilhada, medicada em excesso. Tudo para que parecesse frágil, incapaz, doente. E tudo documentado. — Senhora Almeida, deseja comentar? — perguntou a juíza. Ela respirou fundo, buscando a voz firme que ensaiara com o advogado. — Sim, meritíssima. Os documentos apresentados foram colhidos durante um período em que eu estava sob vigilância médica, após um parto traumático, em uma clínica isolada, cujo controle estava sob o nome de Dante Lucchesi. Eu estava sedada, manipulada. E fui impedida de exercer qualquer decisão sobre minha filha. A juíza franziu o cenho. — A senhora afirma que houve coação? — Eu afirmo que houve cárcere emocional e psicológico. E estou disposta a provar. Um burburinho invadiu a sala. Dante permaneceu imóvel, mas os músculos do maxilar estavam tensos. Ele não esperava que ela fosse tão direta. Tão ousada. Na saída, ele se aproximou devagar, como uma sombra. — Está cavando sua própria sepultura, Lis. Ela se virou lentamente, os olhos reluzindo. — Não mais do que você já cavou tentando me enterrar viva. Naquela noite, Lis voltou para casa em silêncio. O cansaço era brutal, mas a mente permanecia em estado de alerta. Sua nova advogada — uma mulher mais jovem, ousada e sem medo do sobrenome Lucchesi — a aconselhara a ir com calma, mas firmeza. Lis passou a madrugada relendo documentos, preparando testemunhas, revendo datas. Cada detalhe era uma peça de resistência. Estava cansada de viver como refém. A filha era mais que uma lembrança — era agora seu propósito. Do outro lado da cidade, Dante também não dormia. Percorria o quarto em passos silenciosos enquanto a babá embalava a bebê. Observava a filha dormir, os traços delicados que tanto se pareciam com Lis. E isso o incomodava. A criança acordava chorando nas madrugadas. Não aceitava o colo de qualquer um. Às vezes, esticava os bracinhos como se quisesse alguém específico. E embora ainda não falasse, havia uma dor ali — silenciosa, ancestral. Dante odiava aquilo. Porque aquilo ele não podia controlar. Na semana seguinte, Lis foi chamada a depor em audiência fechada. Esperava um ambiente formal, impessoal. Mas o que encontrou foi uma juíza cansada, olhos avermelhados, como se estivesse decidida a não se envolver demais. — Senhora Almeida, por que deseja tanto o contato com sua filha, sendo que assinou um acordo de afastamento logo após o parto? Lis arregalou os olhos. Aquela pergunta era c***l. Ignorava tudo o que ela havia contado. Tudo o que sofrera. — Porque nenhuma mãe em sã consciência assina um documento para abrir mão de um filho — respondeu. — E quando assina, é porque foi levada ao limite. Porque foi ameaçada. Porque teve medo. A juíza anotou algo. — Tem provas das ameaças? Lis tirou da bolsa o pendrive com o vídeo da reunião secreta gravada sem seu consentimento. E junto dele, prints das mensagens anônimas, cópias dos dossiês montados, a cópia do laudo médico falsificado que só agora conseguira resgatar com ajuda da enfermeira Marta. — Se isso não for o suficiente, nada mais será. Dante recebeu o aviso do novo andamento processual em uma reunião de negócios. A notícia de que o juiz havia autorizado uma reavaliação do caso da guarda caiu como ácido em sua agenda. — Isso é um retrocesso! — gritou, jogando os papéis longe. Seu assessor jurídico, mais uma vez, tentou acalmá-lo. — Ainda temos controle. Mas ela está mais organizada. Alguém está ajudando. — Descubra quem. E elimine. A palavra “elimine” fez Hugo hesitar. Ele sabia que Dante não era homem de metáforas. Aquela era uma guerra real. E Lis, agora, deixava de ser um incômodo para se tornar uma ameaça ao trono Lucchesi. Lis passou a ser seguida por carros não identificados. Sua caixa de correio foi violada duas vezes. Marta recebeu mensagens intimidatórias. O advogado precisou blindar o número pessoal. A perseguição se tornava cada vez mais intensa. Mas, curiosamente, quanto mais Dante apertava as garras, mais Lis se fortalecia. A pressão a tornava de aço. E pela primeira vez, ela viu que poderia vencer. Durante uma das visitas permitidas pela justiça, Lis pôde ver a filha de longe. A criança estava no colo de uma babá, dentro de uma sala monitorada. Lis não pôde tocá-la. Mas Aurora a viu. E riu. Foi apenas um segundo, um gesto breve. Mas naquele instante, Lis entendeu: aquela criança a reconhecia. De algum modo, ela sabia. — Ela sabe quem eu sou — sussurrou, enquanto as lágrimas desciam. Dante observava tudo por uma tela ao lado, em outra sala. O riso da filha para Lis o fez ranger os dentes. Era um som que ele nunca conseguira provocar. E naquele instante, ele soube que estava perdendo. Na semana seguinte, ele tentou um novo movimento: chamou a imprensa. Um jornalista conhecido por matérias “patrocinadas” publicou uma nota discreta, falando sobre a “tentativa de uma ex-companheira instável de manchar a imagem de um empresário respeitável” e “reivindicar uma maternidade que abandonou voluntariamente.” Lis leu aquilo com as mãos tremendo, o sangue fervendo. — Ele quer me queimar publicamente — disse à advogada. — E vamos responder. Com provas. Com estratégia. Você não está mais sozinha, Lis. Ela sorriu. Pela primeira vez, sentiu que tinha um exército. Pequeno, mas leal. Enquanto isso, Dante se via diante de um novo dilema. Os médicos indicaram que a filha precisava de mais estímulos afetivos. Estava com sinais de atraso na fala, dificuldades de vínculo, episódios de choro intenso e noturno. — Bebês sentem falta de colo, senhor Lucchesi — disse uma das especialistas. — Ela precisa de contato, de aconchego, de afeto. — Ela tem o melhor berçário, a melhor alimentação, a melhor segurança. — Mas não tem amor. A frase ficou ecoando nos corredores da mente dele. Não porque se importasse com a avaliação médica, mas porque aquilo era uma falha. E Dante não admitia falhas. No tribunal, o caso tomava novas proporções. As provas apresentadas por Lis fizeram com que o juiz autorizasse a a******a de uma sindicância sobre os profissionais envolvidos na internação pós-parto. A clínica onde Lis fora mantida começou a ser investigada. Enfermeiras foram chamadas a depor. Registros foram cruzados. — Ele usou instituições para justificar um sequestro emocional — declarou a advogada de Lis. Dante ainda detinha a guarda. Mas pela primeira vez, seu império jurídico tremia. O que antes parecia invencível agora tinha brechas. E Lis, com a dor tatuada no olhar, sabia que estava mais perto da filha. Em casa, sozinha, ela olhava uma foto antiga: o ultrassom da gestação. Tocou o vidro com os dedos. — A mamãe está chegando, meu amor. Um dia por vez. Dante, do outro lado da cidade, observava Aurora tentando pronunciar uma palavra. Ela parecia repetir um som, insistentemente: — Li… Li… Li… A babá sorriu, animada. — Está tentando dizer Lis. Ele congelou. Era o nome da mulher que ele tentava apagar. Mas ali estava ele, saindo dos lábios da filha. Como se o destino zombasse do seu controle. E então, pela primeira vez… Dante sentiu medo.
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