O Peso do Silêncio

1094 Palavras
Lis acordou com a sensação de estar sendo observada. Não era apenas paranoia — era instinto, um sexto sentido aguçado pelo medo e pela dor que carregava desde o dia em que deram sua filha nos braços de Dante Lucchesi como se ela fosse uma posse, um troféu de guerra. A luz filtrava-se pelas cortinas do pequeno apartamento alugado que agora era seu refúgio e prisão. Não havia mais flores frescas na janela, nem cores nas paredes. Apenas tons neutros, móveis básicos e a frieza de uma solidão imposta. Do outro lado da cidade, a filha que ela m*l conhecera crescia entre paredes de mármore e seguranças armados, com um pai que chamava amor de fraqueza. O telefone vibrou sobre a mesa. Uma notificação silenciosa de um e-mail. Quando Lis abriu a mensagem, o coração disparou: Assunto: Notificação Extrajudicial – Violação de Cláusulas Contratuais Remetente: Escritório Lucchesi & Associados Mais uma. Era a terceira carta em duas semanas. Cada uma com ameaças mais veladas, linguagem técnica e uma violência fria que doía mais que socos. A mais recente alegava que Lis “havia feito comentários públicos depreciativos ao nome Lucchesi” em uma conversa informal com a ex-colega de enfermagem que a havia visitado. — Eles estão me escutando — sussurrou para si mesma, com as mãos trêmulas. Desligou o wi-fi do celular. Foi até o banheiro e ligou o chuveiro, como se a água caindo pudesse proteger o que restava de sua privacidade. Ela havia lido sobre isso — métodos caseiros para evitar escutas. Mas será que adiantava algo contra um homem como Dante? Dante Lucchesi não jogava limpo. Ele criava as regras. Do outro lado da cidade, no topo da torre Lucchesi, Dante observava a cidade como um rei contemplando o próprio reino. As janelas panorâmicas não eram só design — eram símbolo de domínio. Nada o impedia de ver. Nada o impedia de controlar. — A movimentação em torno da senhorita Lis Almeida aumentou nos últimos dias — disse Hugo, seu assessor jurídico, entregando um relatório com imagens de câmeras de segurança, registros de visitas e transações bancárias. — Ela está se armando — constatou Dante, folheando as páginas como se folheasse um relatório de gastos, não a vida de uma mulher. — Descubra com quem ela fala. Corte os acessos. Se preciso, mande lembrá-la do acordo que assinou. — Isso pode provocar retaliação pública — ponderou o assessor. — A mídia… — Ela não tem a mídia. Ela só tem a dor. E disso, ela não consegue fazer notícia. Hugo engoliu seco e assentiu. Era assim que Dante operava: com frieza cirúrgica, precisão legal, e uma ausência de compaixão que tornava qualquer discussão moral irrelevante. Mas algo o incomodava. Um detalhe que Hugo não sabia. Um som. A risada da filha. Tão inesperada quanto irritante. Como se cada vez que a criança sorria, ela zombasse do controle que ele tentava impor. Como se aquela gargalhinha desafiadora dissesse: “Você não manda em mim.” E pior: era a mesma risada de Lis. Lis caminhava rápido pela calçada da Avenida Paulista, os ombros encolhidos, o capuz puxado sobre a cabeça. Sabia que estava sendo seguida. Já não era mais uma suspeita — era fato. O carro preto estacionado na esquina, os olhos que cruzavam os dela e desviavam rápido demais. Uma sombra que nunca desaparecia. Ela chegava à reunião clandestina marcada com Marta e um advogado indicado por um grupo de mulheres que atuavam com justiça reprodutiva. O homem era discreto, de fala lenta e olhos firmes. — O que você busca não é impossível — disse ele, após ouvir tudo em silêncio. — Mas será longo, caro… e perigoso. Lis segurou o choro. — Já perdi tudo. Só quero a minha filha. Ele inclinou o corpo para frente. — E o que está disposta a sacrificar por isso? Ela não respondeu. Mas dentro de si, sabia: a própria vida, se fosse necessário. No dia seguinte, um envelope pardo foi deixado sob sua porta. Sem remetente. Dentro, um pendrive. Quando Lis o conectou ao notebook, o vídeo começou a rodar sozinho. Imagens da reunião com o advogado. Áudio perfeito. Um zoom no rosto dela. E uma mensagem final sobreposta à tela: “Você está sendo observada. Escolha suas batalhas.” Lis sentiu o estômago virar. Era mais que vigilância. Era guerra psicológica. Dante não queria só vencê-la. Ele queria quebrá-la. E naquela madrugada, sozinha na cozinha, com o corpo encolhido e os joelhos abraçados, ela chorou baixinho, mas sem desmoronar. Não mais. Porque agora ela tinha algo que Dante subestimava: uma causa. E mães que lutam por seus filhos não param. Dante, naquela mesma madrugada, acordou com o choro da filha ecoando pelo monitor do quarto. A babá entrou antes que ele se levantasse, mas algo o fez segui-la. Parou na porta. Observou. A bebê chorava, mas não era fome. Era angústia. Os olhos dela vagavam pelo berço como se procurassem alguém que não estava ali. — Ela tem tido pesadelos — comentou a babá, cansada. — E parece… carente. Mesmo tão pequena. Dante virou as costas, silencioso. A palavra “carente” martelou sua mente por horas. Ele odiava fragilidade. Mas havia algo naquela filha que o inquietava. Que o lembrava que ela era metade dele… e metade de Lis. No fundo, sabia: o que ele tentava esmagar em Lis já começava a gritar dentro da própria filha. E isso o assustava. Lis compareceu à audiência de conciliação como exigido pelo contrato, sabendo que não havia espaço para conciliação. O advogado de Dante trouxe novas cláusulas, exigindo que ela assinasse um termo de confidencialidade vitalício, sob pena de prisão civil caso vazasse qualquer informação sobre o parto, a clínica ou a criança. — Isso é escravidão legal — rebateu o novo advogado de Lis, indignado. — Nenhuma corte pode validar isso. — Nenhuma corte que não esteja comprada — murmurou Lis. Mas o olhar de Dante do outro lado da sala era glacial. Ele nem piscava. Nem parecia humano. Parecia uma rocha. Uma rocha que agora começava a rachar — não porque alguém a golpeava com força, mas porque, por dentro, o vazio começava a expandir. Na saída do fórum, Lis recebeu uma ligação anônima: — Se continuar, vai perder mais que a filha. Ela desligou sem responder. E pela primeira vez, não tremia. Porque o medo já havia virado parte dela. E o que assusta, quando o pior já aconteceu? Ela sorriu. O silêncio que Dante impunha começava a pesar sobre ele. E a guerra, enfim, estava apenas começando.
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