Sangue nas Entrelinhas

1142 Palavras
A caneta tremia entre os dedos de Lis. Era a terceira vez que ela tentava escrever a mesma frase, mas as palavras pareciam fugir como sombras. A luz da tarde atravessava as persianas do pequeno apartamento alugado onde agora vivia, um espaço tão silencioso quanto o vácuo que Dante deixara dentro dela. Era como se cada parede respirasse culpa. No sofá, Marta observava em silêncio. Sabia que interromper Lis naquele momento seria como tocar numa ferida aberta sem anestesia. Desde o reencontro tenso semanas atrás, tinham voltado a se aproximar, uma trégua tênue que não apagava a história, mas permitia a esperança. — Você vai mesmo enviar essa petição? — Marta perguntou finalmente, baixando a voz. Lis não respondeu de imediato. Seus olhos estavam vidrados no papel, mas a mente via outra coisa: a filha. O rosto dela. A mãozinha que, por segundos, apertara seu dedo. — Eu preciso tentar, Marta. Não posso... não posso continuar fingindo que ela não existe. — Dante vai reagir com violência jurídica. — Que venha. A firmeza de Lis não era ensaiada. Era sobrevivência. Na torre Lucchesi, Dante observava os documentos empilhados sobre sua mesa de mogno. — Uma petição de reavaliação de guarda. Ela realmente ousou. O advogado, um homem grisalho de terno escuro, hesitou antes de responder. — Sim, senhor. Ela está alegando vínculo materno interrompido por coerção e violação de direitos básicos. Tem anexado documentos médicos, relatórios psicológicos e testemunhos, inclusive da enfermeira do parto. Dante não se abalou. — Quebre todos. Um por um. Quero parecerias médicas desmentindo os laudos. Quero psicólogos que atestem instabilidade. Quero uma contranarrativa. E publique discretamente uma matéria sobre Lis em sites de fofoca — "mãe desequilibrada tenta chantagear bilionário". — Senhor... isso pode gerar reação pública... — Eu tenho o dinheiro. Ela, não. O advogado apenas assentiu. Já tinha aprendido a não discutir com um homem como Dante. A ausência de limites era o único limite. Lis recebeu o primeiro golpe da retaliação dias depois. Ao abrir as redes sociais, viu seu nome estampado em uma manchete sensacionalista: “Mãe desequilibrada tenta arrancar herança de Lucchesi usando bebê”. Seu estômago revirou. A matéria era recheada de mentiras, distorções e uma foto antiga — tirada em uma festa de faculdade onde Lis, sorrindo, segurava uma taça de vinho. O texto fazia parecer que ela era uma oportunista decadente. As mãos dela tremiam ao segurar o celular. — Ele quer me destruir, Marta. — Você não pode parar agora. Isso é exatamente o que ele quer. Mas Lis sabia o que vinha a seguir. A avalanche. O desprezo. Os telefonemas de números desconhecidos. A perda de entrevistas de emprego. A solidão. Dante, por outro lado, sentia-se invulnerável. Ou quase. Certa noite, ele entrou no quarto da filha — aquele espaço minimalista, impecável e asséptico, onde a bebê dormia sob vigília constante de babás treinadas, câmeras e uma rotina milimetricamente controlada. Mas havia algo que ele não conseguia controlar. Ela chorava sempre que ele se aproximava. Não era um choro comum. Era um protesto. Uma recusa silenciosa. Como se o sangue dela reconhecesse que algo ali não era seguro. Ele a olhou, impassível. — Você é minha. Você carrega meu nome. E não vai ser como sua mãe. A bebê virou o rosto, lágrimas escorrendo, como se rejeitasse cada palavra. E ali, pela primeira vez, uma semente de dúvida se instalou. Lis, em contrapartida, preparava o próximo movimento. Com apoio de uma nova advogada — uma mulher combativa chamada Denise Prado — ela protocolava uma ação que pedia, no mínimo, o direito de visitas assistidas. — Você entende que é um passo perigoso, Lis? — Denise disse, enquanto revisavam os documentos. — Ele vai tentar desestabilar sua imagem, mexer com sua saúde mental. — Ele já mexe. Mas não vou permitir que minha filha cresça achando que foi rejeitada pela mãe. — Está preparada para ver Dante no tribunal? Lis ficou em silêncio. Não estava. Nunca estaria. Mas iria. A citação formal chegou ao império Lucchesi como uma afronta. Dante rasgou o envelope antes mesmo de ler. — Eles querem audiência preliminar. Ela quer me enfrentar em público. A conselheira jurídica suspirou. — Ignorar pode gerar parecer negativo. Dante não respondia mais com frases. Ele respondia com glacialidade. O dia da audiência chegou. Lis usava um tailleur simples, mas impecável. O rosto pálido, mas os olhos fixos. Denise ao lado dela como um escudo. Do outro lado, Dante, vestindo um terno sob medida, óculos escuros, e uma expressão que beirava o desprezo. Na sala, o juiz — um homem de meia-idade com olhar severo — pediu silêncio antes de começar. — Estamos aqui para avaliar o pedido de visitas assistidas. A senhora Lis afirma ter sido afastada da filha sem consentimento. O senhor Dante Lucchesi alega instabilidade da mãe e situação de risco para a menor. Lis respirou fundo. — Meritíssimo, fui induzida a assinar um acordo sob pressão, ainda em recuperação do parto. Desde então, nunca mais vi minha filha. Não tive sequer o direito de saber como ela está. Dante ergueu as sobrancelhas. — Está sendo bem cuidada. Melhor do que estaria com alguém instável emocionalmente. Lis mordeu o lábio para não reagir. Denise interveio: — Temos laudos que atestam o contrário, Excelência. E registros do histórico médico da senhora Lis, que demonstram que a suposta instabilidade é fruto do trauma pós-parto agravado pela separação forçada. O juiz pediu os documentos. Havia dúvida em seus olhos. Dante percebeu. — Excelência — disse, erguendo-se com a calma de um predador —, sou um homem público. Meu nome carrega responsabilidade. Não posso permitir que uma mulher que já tentou me constranger publicamente se aproxime da minha filha sem garantias. Lis ergueu o rosto. — Sua filha, senhor Lucchesi? Ela tem nome. Tem mãe. E tem sentimentos. A sala gelou. Dante não respondeu. Ao final da audiência, o juiz não deu parecer imediato. Pediu mais tempo para análise e novos relatórios. Mas no caminho para fora do fórum, Dante se virou para Lis, o olhar sem uma gota de humanidade. — Continue tentando. Vai cair sozinha. Ela o encarou, os olhos queimando. — Melhor cair tentando do que viver rastejando debaixo do seu império. Ele abriu um sorriso frio. — Você não sabe o que estou disposto a fazer para manter minha filha longe de você. — E você não sabe do que uma mãe é capaz quando sangra em silêncio . Naquela noite, Lis olhou para o céu pela janela do quarto. O mundo ainda era c***l. Ela ainda era uma mulher esmagada. Mas, agora, suas cicatrizes falavam. E em cada entrelinha daquele processo sujo, havia sangue. O dela. Mas também havia amor. E ele, Dante Lucchesi, estava começando a perceber: não existe império frio que dure para sempre diante de um coração que não desiste.
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