DALILA NARRANDO
Meu caderno nunca mente. Tá ali o nome dele, grifado de vermelho, circulado duas vezes. Leo do Sete. Três semanas de atraso, três cargas sumidas, dois repasses pela metade. E o mais grave: nariz sempre sujo. Cheiro de ** até no canto da alma.
Aqui no meu morro tem regra. Não é muita. Mas tem. E quem não segue, sangra.
Eu tava na laje, tomando um café forte, olhando o movimento. O sol rachando o chão, o baile da noite anterior ainda grudado nas paredes. Um pivete veio correndo, gaguejando que o Leo tava “escondido” na casa da amante. Tentando fugir da cobrança, feito rato de bueiro.
— Prepara o carro — disse — Hoje eu cobro na porta.
Entrei no Voyage, vidro fechado, silêncio de velório. Pitbull dirigia, Clarice do meu lado, mascando chiclete como se fosse dinamite. O ar tava tenso. Do jeito que eu gosto. Olhei pra pistola no meu colo. Fria. Leal. Muda. Muito mais confiável que qualquer homem.
A rua da amante era apertada, sem saída. Perfeita pra encurralar covarde. Quando a gente chegou, ele tentou sair pelos fundos. Tava de cueca, camisa suada, rosto branco de medo e de **.
Leo — Dalila.. eu vou pagar. Tô só esperando uma parada cair.. — Desci do carro devagar, sem levantar a voz. Meu salto batia no chão como martelo em madeira. Cada passo, um aviso. Ele tremia.
— Três semanas, Leo. Três. E tu vem me dizer que tá esperando cair? — Ele engoliu seco. Olhou pra Clarice , como se fosse pedir clemência.
— Tu vende ou tu cheira? — perguntei, encarando fundo nos olhos dele.
Leo — Eu vendo… mas às vezes..
— Quem vende não usa, Leo. Aqui não é playground de viciado. Aqui é meu império — Ele tentou argumentar. Falar de dívida, de tempo difícil, de pressão. Mas eu só levantei a mão. Mandei ele calar.
— Tira a camisa — eu ordenei.
Ele hesitou.
— TIRA A CAMISA — Ele tirou. A barriga trêmula, as marcas no braço, os olhos vermelhos. Um quadro perfeito do fracasso — Tá vendo isso aqui? — eu puxei o caderninho, mostrei o nome dele rabiscado, o valor pendente, os riscos vermelhos — Isso aqui é sentença. E hoje, tua sentença é exemplo.
Clarice sacou a coronha e deu uma só. Certeira, no queixo. Ele caiu como saco de batata, gemendo.
— Não mata — eu disse — Mas marca. Que todo vapor veja.
Clarice fez. Um corte no rosto. Um Z de zero. Zero valor. Zero respeito. Zero chance de voltar pro corre.
— Tu tá fora, Leo. E se eu te pegar vendendo ou cheirando de novo, eu mesma cavo teu buraco.
Ele chorava. Eu virei as costas. A fraqueza dele não me comove. Meu morro é blindado de emoção.
No caminho de volta, Clarice comentou
Clarice — Vai dar trabalho substituir ele.
— Melhor trabalho do que traição — respondi.
Aqui, quem vive, respeita. Quem respira, obedece. Porque no topo desse morro, a coroa é pesada. E eu carrego ela sem fraquejar.
Clarice — Dalila ? — me virei a encarando — e o Negrete ? Tá com o Leo até o talo. Tava ajudando ele a esconder carga. Ouvi uns papos ontem no baile.
Respirei fundo. Olhei pra Clarice. Aqueles olhos dela não piscavam. Fria igual eu.
— Onde ele tá?
Clarice — Tava na praça mais cedo. No boteco do Flavinho. Mas deve ter voltado pro barraco da irmã, lá na Baixada.
— Passa lá.
Pitbull deu a seta e fez a volta. O Voyage subiu a ladeira com raiva. A favela corria ao redor como filme acelerado: barracos apertados, roupa no varal, rádio estourado, criança descalça. Tudo isso sob minha sombra. Porque cada esquina, cada beco, cada vida ali dentro… me pertencia.
Chegamos na Baixada. A casa da irmã do Negrete era de laje crua, com uma antena torta e um portão velho. Clarice bateu uma vez. Ninguém respondeu. Eu desci do carro e fui direto pro portão. Arrombei com um chute seco. A tranca voou.
A irmã dele apareceu na porta, assustada, com uma toalha nos ombros.
Vanessa — Ele não tá aqui, Dalila. Juro por Deus…
— Deus não manda aqui — respondi. — Cadê teu irmão?
Vanessa — Eu não sei… ele saiu ontem e não voltou mais…
Clarice entrou e começou a vasculhar o lugar. Eu fui até o quarto dos fundos. Camisa do Negrete pendurada na cadeira. Celular descarregado em cima da cômoda. Cama bagunçada. Ele tinha passado por ali. E com pressa.
Clarice — Achamos — disse, erguendo uma mochila debaixo da cama. Abriu. Dentro, cinco tijolos ainda embalados. E um pacote menor, com meio tijolo aberto.
— Ele cortou carga — eu disse, entre os dentes. — Cortou e usou. Igual o Leo.
Vanessa — Vocês vão pegar ele? — a irmã perguntou, tremendo.
— Já pegamos — eu disse, virando as costas.
Vinte minutos depois, Negrete tava de joelhos no galpão da oficina abandonada, onde a gente fazia as correções discretas. Pitbull o pegou tentando fugir pela viela da rua de trás, com uma mochila e uma faca de cozinha.
Eu entrei no galpão devagar. O chão cheirava a óleo e a ferro. A luz entrava pelas frestas do telhado, recortando sombras.
Negrete tava de camisa rasgada, o rosto suado, os olhos arregalados. Quando me viu, tentou falar.
Negrete — Dalila… foi um erro, eu tava doido, eu tava precisando…
— Precisando ? — repeti. — De quê? **? Dinheiro? Moral?
Ele baixou a cabeça. Clarice encostou na parede, braços cruzados. Pitbull trancou a porta com uma barra de ferro.
Negrete — Olha, eu devolvo tudo, juro. Não usei nem metade. É só me dar uma chance, Dalila. Uma só.
— Tu sabe o que acontece com quem corta carga? — Ele chorou. Um choro f**o, desesperado. Parecia um rato na ratoeira. Eu olhei pra ele como quem observa um inseto prestes a ser esmagado.
(…)
Voltei pro QG perto da meia-noite. O morro estava em paz. Paz feita de medo. Paz firmada no sangue.
Me sentei na laje de novo. Outro café. Outro cigarro.
Clarice chegou logo depois.
Clarice — Tá tudo certo na baixada. Fininho foi dispensado. Já era. Novo vapor assumiu a carga.
— Boa. E os olheiros?
Clarice — Espalhados. Se Leo ou Negrete aparecerem, a gente avisa.
Olhei pro morro. As luzes da favela pareciam vagalumes. Cada um ali sabia meu nome. Cada um ali devia respeito. E medo.
— Esse lugar é meu — falei, em voz baixa. — E eu não vou perder pra vacilão, nem pra viciado. A coroa é pesada, Clarice
Ela assentiu.
Clarice — Mas combina contigo.
Eu sorri. Um sorriso frio. Sincero.
Porque aqui em cima, não tem amor. Não tem perdão. Só tem lei.
E eu sou a lei
Na favela, ninguém fala meu nome de boca cheia. Me chamam só de um jeito:
Rainha Vermelha
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