Leva A Palavra

1181 Palavras
DIEGO NARRANDO Era uma noite quente. Daquelas que nem o vento se atreve a soprar. A igreja que me convidou era simples, mas cheia de vida. Muita gente na porta, outros no púlpito organizando o som. Eu e Gabriele chegamos cedo, como sempre. Ela com aquele vestido azul-marinho até o pé, maquiagem leve, Bíblia em mãos. Tinha um quê de santidade no rosto, mas também uma distância. Um silêncio que gritava. O culto foi forte. Louvor quebrantado, gente chorando, Deus se movendo. Preguei sobre obediência e renúncia. Quando terminei, o pastor me chamou no canto da igreja. Era o pastor Emilton, de meia idade, fala mansa e olhar cansado. Emilton — Pastor Diego, sua palavra foi um bálsamo. Eu tenho outra congregação ali no alto do Morro da Penha. Bem humilde, bem carente, mas cheia de sede. O senhor toparia pregar lá um dia? Na hora, minha alma hesitou. O morro? Com tudo que se ouve, com tudo que se sabe? Mas minha boca respondeu antes do medo ganhar força: — Claro, pastor. Me avisa o dia, e eu estarei lá. Emilton — Fechado. Eu combino direitinho com o senhor. Olhei pra Gabriele. O rosto dela virou de leve, como quem sente um cheiro r**m. Não disse nada ali. Mas eu já sabia o que viria. No carro, assim que fechei a porta e liguei o motor, ela começou: Gabriele — Amor… esse negócio de morro não é bom, não. Você sabe como é. Perigoso. Tem tráfico, tem bandido. A gente não precisa disso. — Mas eles precisam da Palavra — respondi, com firmeza. Gabriele — Tem tanta igreja pra você ir… pra que subir esse tipo de lugar? Vai que te reconhecem depois? Vai que alguém tira foto? Queimam tua imagem… você é um pastor conhecido. — Gabriele, Deus não olha aparência. Olha o coração. E a Palavra precisa chegar onde quase ninguém quer levar. Ela bufou. Cruzou os braços. Gabriele — Pois eu não vou. Já aviso logo. Vi a forma que ele falou… “uma igrejinha lá no morro”. m*l tem estrutura, e você ainda quer se meter nesse buraco? Respirei fundo. Apertei o volante. — Você é minha noiva ou não é? Gabriele — Sou. Mas isso não quer dizer que eu tenho que seguir você onde for. Isso aí não compensa, Diego. Vai estragar teu nome. Silêncio. Ela virou o rosto pra janela. Eu só dirigi. Quando chegamos na casa dela, ela me deu um beijo no rosto. Frio. Mecânico. Gabriele — Boa noite — sussurrou. — Boa noite. Voltei pra casa quieto. Entrei sem fazer barulho, subi pro quarto. Tomei um banho demorado, a água caindo sobre mim como se pudesse lavar o peso que eu sentia. No closet, escolhi uma roupa simples, joguei no corpo e sentei na cama. Abri a Bíblia. Salmos 27:1. “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?” Sorri. Deus sempre fala. Mesmo no silêncio. Na manhã seguinte, desci pra tomar café. Minha mãe, já estava sentada, passando manteiga no pão. Meu pai lia o jornal, óculos na ponta do nariz. Mariana — Dormiu bem? — ela perguntou. — Mais ou menos. Preciso conversar com vocês — Ambos me olharam — Fui chamado pra pregar numa igreja no Morro da Penha. Meu pai arqueou as sobrancelhas. Rafael — Morro? — É. Uma congregação pequena. Pastor Emilton me convidou — Minha mãe sorriu. Mariana — Muito bem. A Palavra precisa ser levada a todos os lugares. Rafael — Esses lugares são perigosos . Mas… você fez certo. A Palavra é maior do que o medo. Concordei com a cabeça. E ali eu soube: eu ia. (…) No dia do culto, o céu estava cinza. Tinha uma tensão no ar, como se o mundo inteiro prendesse a respiração. Eu dirigi até a base do morro, segui o caminho que o pastor tinha me indicado. Mas antes mesmo de pensar em subir, uma barreira humana apareceu. Homens armados, fuzis cruzados no peito. Um deles apontou direto pro meu carro. Xxx — PARA — Pisei no freio. O coração batia forte, mas o rosto não podia mostrar. O vidro abaixado lentamente. Um dos homens se aproximou. Xxx — Quem é tu? — Pastor Diego. Vim pregar na igreja do pastor Emilton. Ele estreitou os olhos. Pegou o rádio pendurado no ombro. RADIO ON Xxx — Chefe ? câmbio. Tem um pastor aqui dizendo que veio pregar na igreja lá de cima. Pode liberar? O rádio chiou. Depois, uma voz respondeu. Uma voz feminina. Fria. Firme. Melancólica. Xxx — Já estão avisados. Deixa subir. Ele é daquele bagulho de palavra. — A voz parou. E eu tremi. LIGAÇÃO OFF Os bandidos se entreolharam. Baixaram os fuzis. Um deles bateu no capô do carro. Xxx — Pode subir, pastor Engoli seco e segui. O caminho era estreito, as vielas emboladas. Crianças brincando, mulheres estendendo roupa. Alguns me olhavam com desconfiança. Outros, com esperança. Demorei, mas achei a igrejinha. Portinha pequena, parede descascada, mas uma cruz pintada na frente. Uma irmã me reconheceu. Xxx — O pastor Diego? Glória a Deus! Chegou! Fui entrando. Uns vinte, trinta membros. Todos simples. Todos atentos. O pastor Emilton me cumprimentou com sorriso aberto. Emilton — Que alegria tê-lo aqui, homem de Deus. O louvor começou. Sem instrumentos, só palmas e vozes. Mas era puro. Era forte. E ali, eu senti Deus. Quando subo no altar, sinto a presença do céu. Olho nos olhos deles. Vejo fome. Vejo sede. — Boa noite, igreja. — Minha voz ecoou. — Hoje Deus me trouxe aqui pra lembrar que nem todo lugar esquecido está fora do alcance d’Ele. O Senhor anda por vielas, entra em becos, sobe morros. E Ele me disse: “Vai e diz que Eu os vejo.” — Alguns começaram a chorar. Outros levantaram as mãos. E eu continuei — A religião pode virar o rosto. A sociedade pode abandonar. Mas o Deus que eu sirvo entra onde ninguém entra. Ele entra na tua casa. Ele entra na tua alma. E naquele instante, eu não era mais o pastor do templo grande. Eu era servo. Igual a eles. E Deus desceu ali. No fim do culto, o pastor Emilton me puxou de lado, discretamente colocou uma nota dobrada na minha mão. Emilton — É só pra ajudar com a gasolina, pastor. A gente sabe que é longe… Recusei com um sorriso. — A Palavra eu prego por amor. Deus vai suprir. Nos despedimos com abraço apertado. E eu desci o morro. Dessa vez, sem barreira. Sem fuzil. Só o eco da Palavra ficando pra trás. Entrei no carro, respirei fundo. Liguei o rádio no mudo. A voz daquela mulher ainda martelava minha mente. Fria. Firme. Quem seria ela? Autoridade… poder… mistério. Mas esse era uma outra coisa. Hoje, eu só agradecia a Deus por ter me usado. Mesmo quando tudo dizia pra não ir, Ele foi comigo. E isso… isso era tudo que eu precisava OBS: PARA MAIS CAPÍTULOS COMENTEM E DEIXEM BILHETES LUNARES , amores coloquem o livro na biblioteca..
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