DALILA NARRANDO
Acordei antes mesmo do sol tentar nascer. O céu estava cinza, pesado, carregado. O tipo de tempo que combina com o que eu sentia por dentro. Levantei devagar, sem pressa, sem vontade. A casa estava em silêncio, como sempre. Uma mansão no pico do morro, longe de qualquer barulho de moto, de rádio, de tiro. Longe, mas acima de tudo. De onde eu estava, via o morro inteiro.
Os lençóis de seda escorregaram pelo meu corpo enquanto eu me sentava na beira da cama. Me estiquei, resmungando baixo, e fui direto pra varanda, vestindo só a lingerie preta de renda. A neblina cortava a visão da cidade lá embaixo, mas mesmo assim… eu sabia que estava tudo ali. Meus soldados. Minhas bocas. Meu nome.
Meu vulgo não veio do nada. Rainha Vermelha. Um nome que se espalhou nos rádios como trovão, que gela a espinha de muito mais marmanjo do que eu consigo contar. Me chamam assim porque quando eu chego, o sangue vem atrás. Já derramei mais sangue do que qualquer homem que já passou por essa favela. E nunca precisei esconder. Pelo contrário: me orgulho. Cada corpo no chão foi um tijolo no meu trono. E meu trono é de ferro, mas sempre está molhado… com o vermelho quente que escorre das mãos que tentaram me parar.
Entrei de volta pro quarto. As paredes tinham quadros de arte original, espelhos venezianos, armários de grife e joias em exposição como se fosse vitrine de shopping. E mesmo com tudo isso, me faltava ar. Hoje… era o dia. Aniversário da morte da minha mãe. A única mulher que me fez sentir pequena. A única que me olhava com ternura. E que definhou na minha frente, sem eu poder fazer nada. Um câncer levou ela embora antes de ver tudo que eu construí. Antes de dormir num colchão de espuma viscoelástica, antes de calçar um Louboutin original. Antes de ver que a filha dela virou rainha.
Olhei pro espelho, ainda sem escovar os dentes. O cabelo liso, loiro, caía abaixo da alça do sutiã. Suspirei.
— Já tá passando da conta… — murmurei, pegando a tesoura de aço dourado em cima da penteadeira.
Sem cerimônia, cortei mecha por mecha até o cabelo parar ali, no ombro. Olhei pra mim mesma. Tatuagens cobriam meus braços, minhas costas, minhas coxas. Arte, cicatriz e história desenhada em pele. Corpo escultural, cintura fina, b***a empinada, peito firme. Mas o rosto… sério. Rígido. Uma mulher que assusta mais do que atrai. E mesmo assim, atrai. Eu nunca quis. Mas o mundo me olha como se quisesse decifrar. E não tem código que me leia por completo
— 25 anos… — falei pro espelho. — Mas carrego o peso de 30.
Desde a adolescência, minha aparência enganava. Um rosto mais velho, um olhar mais frio. Fui criança sendo tratada como mulher. Fui mulher antes de entender o que era ser uma. Aprendi cedo que quem amolece, morre. E eu endureci. Até virar pedra. Até virar lenda.
Hoje eu não ia pra boca. Hoje, não. Peguei o rádio dourado em cima da mesinha. Apertei o botão.
RADIO ON
— Sapo , copia? — chamo um vapor da contenção da boca
Sapo — Na escuta, rainha.
— Vê se acha o Peralta pra mim. Diz que é pra colar aqui.
Sapo — Agora?
— É. Agora. Tô sem cabeça. Preciso… aliviar a mente.
Sapo — Demorô. Tô indo caçar ele .
RADIO OFF
Soltei o rádio. Peralta. Meu gerente da boca central. Um cara eficiente, atento, ligeiro. Um pouco emocionado demais pro meu gosto, mas… ele tinha pegada. Era um dos poucos que sabia lidar comigo sem medo. Achava que podia ser mais que um caso. Besteira. Homem sempre acha que vai domar o furacão. Mas ninguém doma a tempestade que carrego no peito.
Deitei de novo, robe de seda vermelho no corpo, e fiquei olhando pro teto. O som da chuva batendo nos vidros era um acalanto estranho. Quase me deu vontade de chorar. Mas eu já chorei demais por ela. Minha mãe. Hoje não. Hoje eu ia calar o peito de outra forma.
Passou uns 40 minutos. O rádio apitou.
RADIO ON
Lacost — Rainha, o Peralta tá no portão Libera ? — Era o vapor da contenção da minha casa
— Libera.
RADIO OFF
Desliguei. Levantei da cama, andei até o hall, descalça, com passos firmes no mármore gelado. Quando a porta abriu, ele estava lá. Blusa preta colada no corpo, tatuagem no pescoço, olhar quente.
Peralta — Rainha — ele disse com um sorrisinho.
— Entra, Peralta — Ele entrou, olhando ao redor como sempre fazia.
Peralta — Cada vez que eu venho aqui, me impressiona mais.
— Impressiona e te lembra que você ainda é só funcionário, né?
Peralta — Depende… Às vezes me sinto mais que isso.
— Cuidado com esse “mais”, Peralta. Pode custar caro.
Ele riu, mas sem graça. Sabia que não era brincadeira. Eu não deixava margem pra esperança.
Peralta — Você me chamou… Tá tudo bem?
— Não tá. E nem vai tá. Só senta aí, cala a boca, e me faz esquecer que hoje existe.
Ele assentiu, sentando no sofá de veludo vinho. Eu fui até o bar, servi uma dose de whisky e voltei, me sentando ao lado dele.
Peralta — Tá bonito hoje. — ele arriscou.
— Cuidado com a língua. Bonito é adjetivo de homem que esquece quem tá na frente.
Ele calou. Bebeu a própria saliva e ficou quieto, como eu pedi. Ficamos em silêncio por uns minutos. O tipo de silêncio que grita.
— Você já perdeu alguém? — perguntei, de repente.
Peralta — Já… meu tio. Me criou.
— Então você entende.
Peralta — Entendo. Mas cada um sente de um jeito.
— Eu não sinto. Eu ardo. É como se tivesse um fogo queimando por dentro. E quanto mais passa o tempo… mais dói.
Peralta — Quer que eu fique?
— Não. Quero que me beije — Ele me olhou. Sabia que não era convite. Era ordem. Obedeceu.
O beijo foi urgente. Quente. Mas eu não fechei os olhos. Nunca fecho..
Peralta — Você é muito gostosa… — ele murmurou, tentando deslizar a mão pela minha cintura.
Segurei o pulso dele no ar, sem hesitar.
— Você já sabe das minhas regras. Ninguém me toca — Ele engoliu seco. Ficou quieto.
Continuei o que estava fazendo, do meu jeito, no meu tempo. Porque comigo é assim: ninguém toca, ninguém conduz.
E ele sempre soube disso
No trono não tem espaço pra dois
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