CAPÍTULO 03 — DAEMON

1584 Palavras
Não é que eu tenho algum distúrbio mental, achando que eu sou algum tipo de animal e não humano para julga-los. Eu não sou alheio a minha própria natureza. Foi por causa desse horror genético que eu quase deixei uma pessoa morrer na porta da minha cabana. Mas diferente do que eu presenciei e ainda vejo a distância os humanos fazerem, eu sei que eu não sou como eles. Eu nunca seria capaz de machucar um inocente. A decepção com a minha própria raça me faz amaldiçoar até minha própria existência. Eu prefiro morar sozinho comigo mesmo, longe de tudo, assim o que eu passei nunca irá se repetir, eu nunca mais deixarei algo como aquilo acontecer – e para isso, eu preciso ficar longe de todos. — Então você não se lembra de nada... Não sabe como veio parar aqui? Não sabe como ou quem te machucou? Você é uma página em branco? — Não totalmente em branco, eu me lembro do meu nome. Marian. — Marian... Marian de que? — Quantas Marians há em Washington? Eu preciso de mais. Porém, ela me olha com os olhos vazios. — Você não se lembra também, não é? — Você é Daemon de que? — Contesta. É possível notar o tom provocativo em sua voz. Então ela se lembra o que é ironia e como fazer isso? Eu a encaro insatisfeito e ela ignora, dando de ombros. — Como vou confiar em você se não me diz muita coisa, nem o seu sobrenome? Eu não digo porque não me lembro, não porque não quero. — Quem me garante que você não lembra? Você pode estar mentindo. — Retruco. Sim, ela pode estar fingindo tudo isso, eu não sei. Quem me garante? Humanos são muito bons em mentir, mais um motivo que prefiro lidar com os animais, eles são honestos. — Além disso, repetindo, caso você não se lembre, a cabana é minha. Eu faço e digo o que quiser aqui dentro. Se você não confiar em mim e não quiser ficar, a porta está bem ali. — Aponto a saída. — Eu não estou nem vou te prender aqui. Marian fica parada alguns segundos, encarando a porta. Essa mulher é um verdadeiro mistério, sobre tudo. Sobre o que aconteceu com ela, quem é, de onde veio. Eu não tenho nenhuma resposta sobre ela e isso me deixa com o pé atrás. É como se a habilidade que desenvolvi de ler as pessoas, desaparecesse com ela. Eu não sei o que está passando nessa cabeça vazia dela, o que ela está planejando, pensando sobre mim. Apenas fico em silêncio, a assistindo pensar, tentando decifra-la, e falhando miseravelmente. — Para onde mais eu iria? — Ela diz mais para si, mas respondendo também minha pergunta. Sinto a melancolia em sua voz, a dor de não saber quem é, de se sentir sozinha nesse mundo. Eu conheço a sensação, de uma maneira diferente, mas conheço. É a pior sensação do mundo. Gostar de ficar sozinho e ter seus momentos de paz é uma coisa, mas sentir que todos estão encaixados em algum lugar, menos você, é fo.da. Sentir que todos tem uma família, alguém para voltar, e você não tem absolutamente nada, é como estar morto por dentro. A ideia era mantê-la viva até que ela acordasse, depois mandá-la embora imediatamente. Mas agora que acordou, as coisas estão ainda mais complicadas. Como posso mandar embora uma mulher sozinha, sem memória, que acabou de passar por algum tipo de trauma e pelo ferimento de faca, uma tentativa de assassinato? Droga! Olho para os olhos azuis e grandes, assustados, e cheios de tristeza. Eu me pergunto se a tristeza neles é apenas por estar tão confusa, preocupada, ou se ela já carrega isso da vida que levava antes do incidente – seja lá qual for. — Não se preocupe, pode ficar até estar cem por cento recuperada. — Tento tranquiliza-la um pouco. — Até lá, sua memória pode ter voltado. E como eu disse, você está segura aqui. Eu garanto que esse é o lugar mais seguro que poderia estar, ninguém nem mesmo sabe da existência dele. E mesmo que descubram, não vou deixar ninguém machucar você enquanto estiver comigo. — Obrigada, Daemon. Eu realmente não tenho outra opção, para onde ir, com quem falar, minha cabeça... está uma bagunça. — Ela leva uma mão aos cabelos, os dedos trêmulos. — Venha, descanse um pouco. — Estendo a mão para ela, seus olhos param na mão estendida. Vejo seu suspiro, e novamente não consigo entende-la, não percebo se é cansaço, alívio, tensão. Mas Marian não recusa, ela coloca a mão minúscula na minha, e me acompanha. Eu caminho ao lado dela até o quarto novamente e a ajudo a deitar na cama, colocando o cobertor por cima. — Você me disse que me encontrou próxima a cabana, machucada. Eu estava usando apenas essa camisa e roupas íntimas masculina? — Não, você usava um vestido vermelho. Mas estava bem sujo, e rasgado. — Explico. — Então você me trocou? — O rosto dela fica vermelho imediatamente, antes mesmo da minha resposta. Acabo me divertindo. — Eu deveria deixar você cheia de terra, lama, e toda rasgada? Além disso, como cuidaria dos seus machucados por cima do tecido? Eu precisei. — Explico, e ela me encara com as bochechas coradas e buscando respostas, mas sem encontra-las. — Não se preocupe, não sou do tipo que se aproveita de mulheres, muito menos com elas inconscientes ou machucadas. Eu abomino qualquer tipo de injustiça, ab.uso, ou certos tipos de violência. — Certos tipos? — Eu sou a favor do olho por olho, alguns tipos de pessoas merecem sofrer. — Eu não entendo... — Franze o cenho. — Por isso você ainda tem esse olhar inocente no rosto. — Sorrio. É por isso que ela passa a inocência de uma criança, por isso eu vi nela a pureza que me fez querer salva-la. Ela não se lembra o quão m*l o mundo pode ser. — Mas é bom se preparar, o mundo costuma ser bem c***l. E talvez a verdade que seu cérebro esqueceu, possa ser dolorosa demais para você suportar. — Alguém fez isso comigo, não fez? — Ela não precisa de muito para entender. Seus olhos mudando de confusão para preocupação. — Eu imagino que você não tenha enfiado uma faca em si mesma. — Explico, ela permanece em silêncio e engole seco, apertando o lençol nos dedos. — Lembre-se, não podem te alcançar aqui, não enquanto estiver comigo. Está sob minha proteção enquanto estiver sobre esse teto. — Obrigada. — Vejo uma menção de sorriso nos lábios. — Eu juro que irei embora assim que estiver melhor, e vou tentar me lembrar. Assim que eu souber para onde ir, ou em quem confiar, eu vou deixar você em paz. Eu vou forçar e... — Não force, você teve uma concussão forte, não vai te fazer bem. — Eu a interrompo. Pobre moça, ela acha que existe alguém lá fora em que pode confiar... — Deixe que seu cérebro se recupere. Pode ficar o tempo que precisar. — Tudo bem, obrigada novamente. — Acena. — Não precisa agradecer. — Retribuo e vou até a saída do quarto. — Pode me chamar se precisar, descanse. — Certo. Obrigada. — Eu a encaro feio depois de mais um agradecimento. — Desculpe. É uma situação difícil. Não imagino que seja fácil, não se lembrar de nada, estar presa no meio do nada com um estranho, saber que há pessoas que tentaram mata-la e podem estar lá fora tentando terminar o serviço. Mas também não está sendo fácil para mim. É a primeira pessoa que tenho uma conversa real depois de cinco anos. É abrir a porta do meu refúgio para deixar uma desconhecida entrar. É ter que falar a cada segundo para minha mente que ela não é uma ameaça, então não preciso trata-la como inimiga. É uma luta interna. Eu a deixo sozinha e fecho a porta do quarto, voltando para a sala. Já está escurecendo e preciso preparar algo para comer, em especial tento uma hóspede que não come uma refeição de verdade faz três dias. Pego as sacolas que deixei na porta quando a encontrei tentando me atacar com um pedaço de madeira e vou para cozinha, desembalando tudo e higienizando o que precisa, antes de guardar. Coloco pão para torrar, já que decidi fazer uma sopa, cai bem no frio e é nutritiva. Começo os preparos, uso temperos frescos plantados e colhidos aqui mesmo, e o cheiro logo começa a subir. Enquanto a sopa cozinha e engrossa, volto para o quarto e a encontro dormindo. Preciso de um banho e o único banheiro da cabana está aqui, no quarto. Aproveito que ela está dormindo e vou para o banheiro, tomando um bom banho quente para tirar o cheiro de tempero. Dessa vez decido não lavar meus cabelos, por já ter feito pela manhã, e iria demorar para secar por completo antes de dormir, por isso deixo os fios loiros e compridos amarrados em um coque. Me seco por alto e enrolo a toalha na cintura, saindo do banheiro para procurar uma roupa. Marian continua dormindo então vou tranquilamente ao guarda roupa e abro, procurando uma camisa preta de manga longa. — Por.ra! — Ouço a exclamação feita num tom alto demais, droga. Marian está acordada, sentada na cama, com olhos enormes encarando meu abdômen assim que viro para ela.
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