Eu não sei o nome dela, não sei quem é, só sei que a mulher de cabelos e vestido vermelho apareceu na frente da minha cabana, entre a vida e a morte. E por mais que eu quisesse fingir que isso não estava acontecendo, eu não consegui.
Tocado, intrigado, agora eu assisto dormindo tranquilamente na minha cama.
Tirei seu vestido, expondo o corpo franzino, e pude avaliar melhor o estado. Eu tenho uma caixa de primeiros socorros aqui e usei para limpar e cuidar dos ferimentos. Para o mais grave, o buraco de faca, eu precisei dar pontos. Infelizmente, não tenho habilidade suficiente para evitar uma cicatriz.
Passei um pano úmido em todo o corpo dela, como um banho improvisado e depois coloquei uma camisa minha nela. A mulher ainda dorme, dois dias depois.
Molho seus lábios com água, deixando algumas gotas escorrer para dentro deles, tentando hidrata-la. E foi necessário improvisar para colocar soro em sua veia, já que ela não está se alimentando.
Espero que ela acorde.
A deixo sozinha de novo e volto a cozinha, preparando o meu café da manhã. Ovos mexidos, bacon, frutas, iogurte e pães frescos com uma bela xícara de café. Eu tenho bastante músculos para dar energia e preciso me alimentar bem.
Estou terminando de cuidar da louça quando o som de passos me faz erguer a cabeça. Faz anos que eu não tenho esse tipo de contato com ninguém, e a antecipação faz minha boca secar, meu corpo todo enrijecer, e eu não consigo me mexer nem para olhar para trás.
— Quem é você? Onde eu estou? Como eu vim parar aqui e porque estou usando isso? Meu Deus... — Para uma pessoa que ficou desacordada por dias e a beira da morte, ela está bem lúcida. Tinha que ser uma mulher sem nenhum autocontrole para a fala que veio parar aqui?
Minha cabeça dói, droga!
Isso é castigo?
— É você quem deveria me responder essas perguntas, já que foi você que veio parar na minha cabana. Eu não sei quem você é, nem o porque estava aqui, e gostaria muito de saber também. — Explico, me concentrando na louça e evitando a todo custo olhar para ela.
— Você... Você... — Percebo a fraqueza na voz, a dificuldade de completar, e sou obrigado a virar até ela.
Eu a vejo de pé pela primeira vez. Os olhos grandes, a respiração apressada, o corpo trêmulo e pequeno. É impossível não sentir algo como instinto dentro de mim, uma vontade intensa de proteger alguém mais frágil. Ela leva a mão a cabeça.
É claro que a pele dela já é bem branca normalmente, mas é perceptível também que a coloração pálida não é normal. Ela fecha os olhos, respira fundo, e coloca uma mão sobre o ferimento da faca.
Eu só tive tempo de correr até ela antes que ela desmaiasse, caindo em meus braços. Intercepto seu corpo antes que caísse no chão.
— Você parece tão inocente e boa dormindo assim... — Penso alto, olhando para ela, a expressão serena e tranquila no rosto, como se ela soubesse que está em segurança.
Não foi uma boa ideia arrancar o soro da veia e levantar depois de tanto tempo desacordada, mas não acho que ela está pensando muito bem.
Coloco-a de volta na cama, ajeitando seus cabelos para fora do rosto. Ela é um exemplo típico, a aparência angelical, perfeita para fazer você esquecer a natureza que está dentro dela, na composição do DNA humano.
Volto a ajeitar o soro em sua veia com cuidado, e depois ergo a camisa para olhar o ferimento. O curativo já está sujo de sangue e eu renovo com cuidado, ouvindo um gemido baixinho quando a parte da cola sai de sua pele.
A ferida precisa de cuidados para não infeccionar, não está bonita. A pele machucada ainda vaza sangue através dos pontos. Começo a limpar a ferida o mais delicadamente que consigo, eu nunca fiz isso em outra pessoa além de mim.
Depois de limpa, cubro novamente com um novo curativo e coloco a roupa dela para baixo novamente. Olho atentamente para ela, a mulher misteriosa que apareceu frente a minha cabana, machucada.
Já olhei ao redor, procurei algum sinal, mas nem mesmo um documento perdido que mostra seu nome, uma mala, nem uma migalha que pudesse me dar alguma informação dela.
— O que você realmente quer? — Me pergunto.
Eu aprendi da maneira mais difícil a não confiar mais nas pessoas, nem as que eram mais próximas de mim, e por isso, não é em uma desconhecida que vou confiar. Tudo bem, ela está realmente machucada. Mas depois de ver até onde o ser humano poder ir, não duvido que uma fosse capaz de se machucar para chegar a um objetivo.
Toco a pele de sua testa com o dorso da mão, ela está quente. Seus olhos ainda estão rodeados de olheiras e a boca sem cor. Ela não parece bem...
Po.rra!
Volto para a cozinha, pego algumas folhas verdes que vão dar forças a ela e jogo no liquidificador junto com um pouco de água e mel. Bato tudo.
Por que diabos eu estou fazendo isso?
Eu deveria ter deixado o corpo dela congelar lá fora, com certeza deveria.
Passo a mistura pela peneira e para copo de vidro, trazendo comigo para o quarto. Pego uma seringa dentro da maleta de primeiros socorros e depois de pegar uma quantidade, toco os lábios bela com meu polegar, separando-os.
Engulo seco. Além da cor, tem a pele macia como porcelana, e os lábios não é diferente.
Acaricio gentilmente o lábio inferior, assistindo-a se remexer na cama. Por que ela tinha que ser tão bonita?
Começo a colocar gotas na direção da sua língua, esperando-a engolir, para continuar.
Lentamente, vou dando toda a quantidade que fiz.
Depois, limpo qualquer resquício da bebida da sua boca e a deixo dormir.
Preciso passar na farmácia, comprar mais curativos e soro para veia já que ela está usando a minha última. Também preciso passar no mercadinho e comprar mais umas coisas que acabaram.
Pego minha caminhonete atrás da cabana e faço tudo o mais rápido possível, agonizando cada segundo que passo fora de casa. Demora um pouco por causa do percurso longo que tenho que fazer para sair e me afastar da floresta, mas não menos no trânsito eu sofro menos que já lá no vilarejo.
•••
Eu carrego minhas compras para dentro, mas assim que coloco o pé, preciso usar meus reflexos para abaixar antes de ser atingido por um copo de vidro.
— QUEM É VOCÊ? — A voz dela não é tão baixa como antes, nem um pouco baixa na verdade. Seus olhos estão assustados e ao mesmo tempo furiosos.
Dois lindos olhos azuis.
— Lá vamos nós de novo. — Reviro os olhos, colocando as sacolas no chão. — Essa maldita cabana é minha, você veio até mim, então é você que tem que me dizer quem é.
— Do que está falando? Eu... — Seu corpo treme, e ela olha ao redor, encontrando um pedaço de lenha próxima a lareira e ameaçando jogar contra mim. Isso realmente vai doer.
— Olha só, abaixe isso e vamos conversar, com calma. — Vou me aproximando, com as mãos erguidas em sinal de paz. — Meu nome é Daemon. Eu moro aqui há cinco anos, e eu encontrei você machucada do lado de fora. Eu te coloquei para dentro e cuidei de você esses dias, você dormiu por dois dias.
— Eu não... Eu não entendo... — Lamenta, os olhos se enchendo de lágrimas e a expressão assustada aumentando em seu rosto. Ela treme cada vez mais enquanto eu chego perto. Nem eu entendo bem o que está acontecendo aqui, suas perguntas parar mim.— Como eu vim parar aqui? Você está falando a verdade? Por favor, não minta para mim.
Franzo o cenho.
Nem ela mesma sabe como veio parar aqui?
Ela poderia ser uma atriz tão boa a ponto de me fazer acreditar nela?
Desde que tudo aconteceu, eu desenvolvi a habilidade de duvidar de qualquer um. Ninguém, até mesmo os que talvez falem a verdade, pode me fazer sequer balançar a acreditar neles.
Então porque eu sinto tanta verdade, inocência e desespero nela?
Como ela pode me fazer acreditar?
Não consigo pensar em muita coisa além desses olhos azuis brilhando, das lágrimas molhando o rosto pálido, da força que o corpo pequeno treme. Ela está aterrorizada.
Seguro seu braço com firmeza, e ela solta a madeira no chão. Então, a puxo para dentro dos meus braços e envolvo seu corpo com o meu.
— Está tudo bem, você está segura, você vai ficar bem. — Prometo, rodeando-a inteira com meus braços, sentindo-a amenizar os tremores e suas lágrimas molhando minha camisa. Ela se aninha em mim como uma criancinha buscando a salvação.