CAPÍTULO 01 — DAEMON

1252 Palavras
O inverno vai começar. As noites estão mais frias e longas. Os animais estão assustados e buscando abrigo. O som do vento pode ser ouvido há longas distâncias. Termino de colocar a lenha que acabei de cortar na lareira, e terei fogo para mais uma noite e também pela manhã. Apesar do clima ameno, o sangue quente depois do exercício natural me faz não precisar nem de camisa. Vou para o banho, deixando a água cair pelo meus cabelos compridos, levando o suor, e relaxando os músculos. Minha vida é tranquila, sou apenas eu e a floresta. Nunca me arrependi da decisão que tomei há mais de cinco anos atrás, de viver em minha cabana, sozinho, com o menor contato possível – que se resume a atendentes de mercadinho, posto de gasolina ou farmácia. Encho minha xícara com o café cultivado aqui na floresta, por mim, um grão puro e forte, e vou até a poltrona em frente a lareira ler um pouco. Certo que eu não tenho nenhum interesse em me aproximar, mas isso não quer dizer que eu me tornei alheio ao que acontece no mundo deles lá fora. Isso só me dá a certeza de que eu fiz a escolha certa. Cada notícia, só me mostra o quanto os humanos são desprezíveis, se achando donos do mundo e da vida dos outros, com direito de rou.bar, m.atar, agr.edir, ab.usar. De onde eles tiram tanta soberba? Isso nunca entrou na minha cabeça. Mas depois do que aconteceu, depois de ver a face do próprio de.mônio dentro de alguém que se dizia ser humano, se escondendo atrás de uma falsa alma, tudo ficou claro para mim. O errado era eu. Eu era errado por confiar, por achar que as pessoas eram algo além de pod.res. Respiro fundo, fechando o tablet que uso para essa minha atualização e também pela necessidade de bancos ou coisa do tipo. Infelizmente, a época que vivemos atualmente não nos permite viver completamente longe da tecnologia – e eu até sou um pouco grato por tê-la, com ela fica mais fácil não precisar tanto de pessoas. Toda essa maldade também é o suficiente para me fazer não acreditar em um ser supremo, ou pelo menos duvidar. Se é que ele existe, então não é alguém muito bom também. Como poderia ser, se apenas assiste tudo acontecer de braços cruzados? Como pode compactuar com o modo que as pessoas se destroem? Talvez nós sejamos sua diversão, um bom filme para assistir. Antes mesmo de começar a pensar na janta, eu ouço barulhos vindo de fora. Eu conheço todos os sons, os do vento, das folhas, das árvores balançando. Parece que há algum animal lá fora pelo que escuto das folhas, então não me preocupo. Levanto e abro a geladeira, separando alguns tomates colhidos por mim, um pouco de alface, mas ainda continuo ouvindo o barulho. É ainda mais alto quando parece que algo caiu no chão, logo em seguida, as aves se afastam e reclamam. Algum animal ferido ou morto, talvez? Decido verificar o que é. Saio da minha pequena cabana de madeira e olho ao redor, sem conseguir ver nada de anormal. Franzo o centro, confuso, desço as escadas e vou me afastando devagar, olhando em direção as árvores? — Amiguinho? — Chamo, tentando ouvir um sinal. Nada. É quando eu vejo algo. Fios vermelhos brilhando entre as folhas no chão. Que dia.bos é isso? Me aproximo, está escuro, frio, e o vento fez folhas cobrirem o corpo do que quer que isso seja. Só quando chego perto o suficiente é que percebo. Não é um animal, é uma pessoa. Os cabelos vermelhos me atraíram para perto, brilhando como eu nunca vi antes, compridos e cheios. Eu não entendo como essa mulher veio parar aqui. Nesse momento eu lembro do que um ser humano é capaz de fazer, meu coração endurecido. Isso não é problema meu. Não importa se é uma mulher, ela ainda pertence a um mundo que eu não acredito nem confio. Um mundo onde alma alguma pode ser considerada inocente. Viro as costas, decidido a deixá-la aí. Que vá pelo mesmo caminho que veio e me deixe em paz. É quando eu ouço, uma espécie de grunhido. Não sei se é um gem.ido de dor, um pedido de ajudo, se é um choro, algo abafado demais para que eu pudesse identificar. Mas o som angustiado me faz parar no lugar. Fecho os olhos, apertando-os, sentindo meu coração bater assustado. Espero uns segundos, tentando me convencer a não fazer isso, a não ceder, a não tentar ver o que é. Isso não é problema meu, ela não é problema meu. Mas é mais forte do que eu. Retorno em passos lentos, tão assustado com uma pequena e frágil humana que um animal selvagem não teria tal poder. Me aproximo, retirando as folhas de cima dela, e vendo o motivo dela ter chegado até aqui. A mulher está machucada, muito machucada. Seu corpo está coberto de arranhões, cortes, san.gue. Há vários hematomas, além de fraturas internas que fica perceptível graças a forma que seu corpo está posicionado e o inchaço. Além de tudo, san.gue flui de uma ferimento de faca na direção no seu abdômen, pouco abaixo do umbigo. Meus olhos não acreditam no que vê. Ela ainda está viva? Mas é aí que eu cometo o erro de tocas os cabelos vermelhos dela, tirando-os da frente de seu rosto. Na mesma hora sou atingido por tantos flashes, memórias dolorosas do passado que luto durante todos os malditos dias para esquecer. Tudo volta a mim como marteladas. O corpo fraco, machucado, o sang.ue, olho para ela mas na verdade é como se eu visse outra pessoa, como se eu vivesse novamente o pior e mais doloroso momento da minha vida. Dói. É como se pancadas fortes acertassem meu cérebro e chego a ficar tonto, tentando expulsar as lembranças da minha cabeça. Pisco várias vezes, me amaldiçoando. Eu nunca deveria ter chegado perto, nunca. Demora alguns minutos até que eu me recupero, conseguindo olhar para a desconhecida e não ver outro rosto. Agora eu vejo, algo impressionante. Sua aparência poderia ser considerada perfeita. O contraste da pele pálida com o brilho dos cabelos avermelhados, o nariz pequeno e pontudo, a boca cheia, desenhada, maçãs bem definidas. Mesmo desacordada e com o rosto machucado talvez de uma queda, ela é de uma beleza que eu nunca vi igual. Penso em fingir que isso não aconteceu, em voltar para minha cabana e deixá-la morrer aqui sozinha. Mas em que isso me tornaria diferente deles? Ela não representaria perigo para mim nem que estivesse em bom estado, quanto mais assim. Além disso, há nela uma expressão que me deixa curioso. É como se em silêncio ela me implorasse ajuda, me implorasse que eu a fizesse sobreviver de alguma forma. É como se o coração dela chamasse o meu. Sem muita vontade, mas tomado por um sentimento que meu coração desconhece há muito tempo – humanidade – eu pego com cuidado o corpo pequeno do chão. Ela parece ser feita de porcelana, branca, frágil, delicada, magra. Eu a seguro tão facilmente que é como se segurasse uma folha. A diferença de tamanho fica evidente com ela em meus braços, em talvez pouco mais de 1,50 de altura. Dentro da cabana, eu a levo para o único quarto que tenho, o meu, e a coloco na cama, avaliando o estrago. — Eu definitivamente vou me arrepender disso.
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