Morgana se aproximava tão cheia de determinação, parecia que a mulher caminhava nas nuvens, desfilando no centro de todos, suas roupas simples pareciam destacar ainda mais seu corpo, o sorriso da mesma era lindo de se ver, fazia o coração de qualquer um derreter de amores.
— Woah, Kayle, não imaginava lhe encontrar tão cedo. - A mulher disse de forma calma, sua voz era como a de um timbre de um passarinho que canta todos os dias para o sol. - Como você está? - Morgana pergunta com um sorriso sereno em seu rosto.
— Olá, Morgana. - Kayle a cumprimenta com um sorriso gentil. - É um prazer vê-la novamente, obrigada pelo seu esforço e da sua equipe. - Ditou em um tom calmo enquanto observava algumas pessoas que trabalhavam olhar para as duas enquanto sussurravam algo.
— Não precisa agradecer por isso. - A mulher diz sorrindo em seguida se vira para Liliam. - Olá senhora, é um prazer tê-la aqui conosco. Você só passou o nome da música para nossa equipe, precisamos fazer o roteiro fotográfico antes de iniciarmos as gravações. - Morgana explicou com a voz monótona olhando para a mais velha que franziu o rosto ao ouvir a fala da fotógrafa.
— Eu não consegui entrar em contato por conta do imprevisto que tive, acabei por lhe falar. - Liliam começou a explicar enquanto gesticulava com as mãos. - A KL acabou desmaiando hoje em meio a um dos treinos, e bem, eu tive que tomar conta dela. - A mais velha explicou com a voz terrivelmente doce.
— Oh, você desmaiou senhorita? - Morgana pergunta preocupada para confirmar com Kayle que assente de forma apática. - Então venha se sente, você não pode ficar em pé assim, poupe sua energia, vou pedir para trazerem algo para você beber. - A fotógrafa falou depressa enquanto puxava Kayle até uma cadeira, a cantora não teve chance de negar, pois, a mulher já havia saído atrás de alguns funcionários.
Morgana correu até algum dos sttafs e avisou para tomarem conta de Kayle por conta do m*l estar da cantora, eles assentiram para a diretora geral e começaram a caminhar em busca de seus afazeres para cumprir o que lhes foi pedido.
Morgana volta até a Kayle perguntando se ela estava bem e se precisava de algo, Kayle não estava acostumada em receber esse tipo de pergunta. Muitas pessoas se quer dirigiam com ela, sempre falavam primeiro com Liliam ou qualquer outro funcionário, nunca perguntando o que ela queria.
E ela realmente não sabia do que precisava.
Kayle olhava para Morgana sem expressão, ela não conseguia entender o misto de sentimentos que a fotógrafa conseguia sentir em menos de segundos, seus sentimentos são transpassados pelas suas expressões que são mais claras que águas cristalinas.
— Você poderia me mostrar sua música, por favor? - Morgana pediu após algum tempo. - Eu e o restante da equipe precisamos fazer o roteiro técnico o mais rápido possível. - Ela explicou, Kayle assentiu e pegou seu celular o desbloqueando, em seguida entrou no bloco de notas e entregou o celular na mão da fotógrafa.
— O nome do documento é "My love, My Honey." - Kayle comenta de forma doce, ela não queria soar como alguém rude ou indulgente, a fotógrafa sorriu assento do e foi até o restante da equipe que estava reunida.
A equipe começou a dar algumas ideias de como poderia seguir a gravação, muitos comentavam como seria interessante um plano sequência para música e ao invés de um vídeo clipe com muitas cenas em diferentes locações, apenas na locação já pronta, a câmera seguiria todos os passos da cantora.
Enquanto a equipe continuava discutindo até mesmo qual câmera seria melhor usar no momento, Morgana tentava encontrar o documento que Kayle havia mencionado, mas ela se viu perdida em muitas anotações, era mais de cem anotações. Seus olhos ardiam por tentar ficar lendo aquelas letras quase minúsculas, ela solta um suspiro aliviado quando encontra o arquivo "My Love, My..." Ela abre o arquivo e franze o cenho, lendo a letra parecia um poema, mas não era algo comum que KL escreveria, a maioria de suas músicas eram músicas novas falando sobre o amor, sobre o que diabos era o amor, e como ela amava o amor. Mas no momento o poema trazia algo melancólico para Morgana.
"Há um apodrecimento dentro de mim
Eu posso sentir isso perto do meu coração e enrolado em meus pulmões
O apodrecimento causado pelo estresse e tristeza
Aquele que sussurra "não seria mais fácil, apenas desistir?"
e você realmente considera isso, oh, você faz
até você se lembrar do sorriso dela, e suas palavras: "Você é meu melhor amigo, para ser honesto" "Eu não sei o que eu faria sem você" "Você é tão legal" "Você é tão fofo" e você se sente culpado por considerar isso
(O apodrecido não gosta dela, porque ela é a única que te mantém longe disso)
(Tudo o que o purulento quer é sua morte e queda e tudo para terminar em preto e branco, de luto)
(Não dê ouvidos ao apodrecido, ela sussurra.)
Você acha que talvez ela tenha um pouco de um ponto podre também
Vocês dois estão ferrados, do mesmo jeito de vidro quebrado e desgastado
Como um prato, quebrado e colado de volta.
Há um rangido toda vez que você ouve o apodrecimento
Na sua cabeça, é vidro quebrado e ossos, e é dor
O rangido ricocheteia nos ossos, dor e vidro e os desgasta ainda mais
Até agora há alguns que foram usados para nubs
E seu calor, seu fogo, foi reduzido a uma mera vela
Uma brasa, mesmo.
(o purulento quer derramar lodo sobre seu fogo da vida e apagá-lo completamente)
O apodrecido apodreceu um buraco em seu coração e você não pode preenchê-lo nem com os toques mais suaves e as garantias mais silenciosas
Você quer saber se você vai ficar assim para sempre
Como um botão, deprimido
Você é um botão, com quatro buraquinhos que te prendem
Por enquanto você está costurado, mas quem sabe o que o futuro trará?
(Ela enfia uma agulha e se prepara para fortalecê-lo.)"
Morgana levanta seu olhar para procurar Kayle, ela vê a mulher parado sentando de forma perfeita, enquanto outros fotógrafos tiram foto dela discretamente e a mesma parecia não se importar. A fotógrafa suspira e volta a atenção para sua equipe, eles continuavam discutindo coisas que sinceramente entendiava a fotógrafa, ela pode estar anos estudando fotografia e coisas do tipo, mas ela odiava ter que discutir sobre qual câmera ou filmadora usar, já que ela achava que isso sempre foi pessoal de cada fotógrafo ou artista, até mesmo tipos de planos ela não era muito fã de discutir, mas sempre como diretora ou líder, ela sempre teve que tomar as rédeas de algumas situações que começavam a correr fora de seu controle e sinceramente não era como se ela se importasse muito.
Antes que qualquer outra pessoa possa perceber, Kayle está lentamente fechando os olhos, seu corpo parecendo no momento leve de mais, assim como sua cabeça, a cantora solta um suspiro de alívio quando as conversas paralelas ao redor dela não vire nada além de um zumbido ao longe como se ela estivesse de baixo d'água. Seus olhos pareciam mais pesados que chumbo no momento, mas ela não parecia realmente se importa, seu corpo estava cansado de mais para sequer pensar em qualquer outra coisa além de tirar um cochilo.
Antes que ela possa pestanejar contra isso, ela se deixa levar pela maré dos seus sono. Acabando se escorando contra a mesa cansada, sua respiração calma e ninguém ali atormentando sua pobre cabeça.
Quando Kayle abre os olhos novamente ela está hiper consciente que está em um sonho, de certa forma acaba sendo assustador. Quando ela olha ao redor percebe que as árvores são brancas e nuas. Despojados de sua casca, eles se elevam no céu como pilares lisos, expondo suas entranhas pálidas ao mundo. Eles são muito altos, e quando Kayle olha para cima ela fica com medo, pois não consegue ver onde eles terminam no céu escuro que não tem sol e nem lua.
Às vezes, ela pensa, é melhor não olhar para cima, há coisas que é melhor não serem vistas, então ela abaixa a cabeça e olha para baixo, sempre mantendo a cabeça baixa. Mas ela percebe então que o chão sob seus pés descalços é estranhamente acinzentado, parece diferente sob as solas dos pés, não é tão inflexível quanto deveria ser e também não parece haver grama ou outra vegetação, exceto as árvores pálidas nesta floresta grotesca. A terra cede a cada passo seu, se move sob seu peso quase como se quisesse sugá-la. Faz um som fraco e estalado sempre que ela levanta os pés do chão, o único som que pode ser ouvido. Também é estranhamente distorcido, meio abafado, mas ao mesmo tempo também muito distinto, afiado. Isso a lembra da maneira como o mundo soa quando ela mergulha a cabeça na água da banheira, Ao pensar em banheiras, Kayle sente um calor fugaz em sua barriga. Há uma boa memória lá em algum lugar, ela sabe disso, embora agora não consiga se lembrar do que é e apenas se lembre vagamente do peso de um corpo quente atrás dela, segurando-o nos braços.
Mas as árvores estão impacientes, ela pode sentir seus olhares pálidos picando sua pele. Este não é um lugar para relembrar , eles avisam enquanto se aproximam dela, todos eles tortos, ligeiramente inclinados para a frente no mesmo ângulo.
E é então que Kayle percebe, horror escorrendo gelado pela espinha, e por alguns segundos ela está com tanto medo que não consegue respirar.
Porque você vê, ela não está em uma floresta. Não é solo real em que ele está, há areia entre os dedos dos pés e é água sem ar que ela respira.
E não são árvores, não, seus ossos, altos e pálidos, elevando-se sobre Kayle, enjaulando-a. Ela está dentro de um esqueleto de baleia gigante, sua caixa torácica uma segunda vastidão dentro da vastidão do mar, uma catedral vazia de ossos. O que o torna ainda mais estranho e muito mais horrível é que há muitas costelas, centenas e centenas delas espetadas na areia cinzenta, as lacunas entre elas são largas o suficiente para ela atravessar. Ela acha que pode ver o colossal crânio de baleia em algum lugar à distância, embora esteja principalmente obstruído pelas inúmeras costelas e pareça a quilômetros de distância. A baleia deve ter sido anormalmente grande, Kayle nem consegue ver onde todas as costelas se conectam à coluna, está muito para cima, perdida na escuridão do céu. Bem, não é um céu, é, é o mar, profundo e escuro.
Kayle começa a andar, só porque não sabe mais o que fazer, move suas pernas trêmulas pela água grossa, pela areia que avidamente tenta puxá-la para baixo até que seus músculos estejam queimando de tanto esforço. Mas ainda assim, ela coloca um pé após o outro, e depois de um tempo ela pensa que pode ver os buracos que devem ser os olhos vazios da baleia, olhando para o nada. Ela caminha sem parar, através da floresta morta de ossos que parece não ter fim. Ela nem sabe se está realmente se aproximando do crânio; tudo parece igual, só há ossos brancos, areia cinzenta e água preta.
A baleia está morta há muito tempo, e ainda assim Kayle pode sentir o eco de sua solidão esmagadora pressionando-a, tão pesado em seus ombros que ela acha que sua espinha dorsal vai se partir sob o peso. Kayle se pergunta há quanto tempo a baleia está deitada aqui. Ela deve ter se sentido tão solitário aqui, no fundo do mar, onde é escuro, calmo e frio.
Antes que ela tivesse chance de continuar caminhando pelo sonho, ela acaba acordando em um solavanco, sua respiração mais acelerada, e sua testa com certo acúmulo de suor. Ela demora certo tempo para voltar para realidade, seus sonhos sempre foram estranhos, mas sempre a assustaram de certa forma, Kayle sente uma mão em seu ombro e olha para o dono dela.
— Kayle, você está bem? - O dono da voz soou preocupado com a saúde da cantora no momento.