Primeiros Dias e Conversas Promissoras

1039 Palavras
Betina Ferrarini As aulas da tarde foram tão intensas quanto as da manhã, mas igualmente fascinantes. Era impossível não me empolgar com o conteúdo, mesmo depois de horas de explicação. Sempre imaginei que o curso de Enfermagem seria desafiador, mas confesso que não esperava me sentir tão motivada logo no primeiro dia. Anatomia continuava sendo minha favorita; o professor tinha uma didática tão boa que deixava até as partes mais complicadas parecerem fáceis. Depois das últimas aulas, encontramos os meninos rapidamente no corredor. Rafael e Miguel estavam conversando, e Carol não perdeu a chance de cumprimentá-los com um sorriso que dizia “não esperavam nos ver tão cedo, né?”. Trocaram números de telefone, redes sociais e algumas piadinhas antes de cada um seguir seu caminho. Assim que entramos no carro, enviei uma mensagem para minha mãe, contando como foi o primeiro dia. Falei sobre as aulas, sobre os novos amigos — com direito a uma descrição breve de cada um — e até mandei algumas fotos que eu e Carol tiramos de jaleco. Minha mãe respondeu rápido, cheia de emojis, dizendo o quanto estava orgulhosa de mim e perguntando se Carol estava cuidando bem de mim no Rio. No caminho para casa, paramos no Bob’s e pedimos nossos milk-shakes de Ovomaltine, um ritual que, segundo Carol, tinha que ser cumprido toda vez que tivéssemos um dia cansativo. Rimos de coisas aleatórias, conversamos sobre as aulas e, finalmente, chegamos em casa. Assim que entramos, decidimos que precisávamos revisar a matéria antes de fazer qualquer outra coisa. Carol, claro, reclamou. — Você é muito certinha, Tina. Estudar logo no primeiro dia? Nem os professores vão corrigir nada por agora. — Por isso mesmo que eu quero começar com tudo — rebati, puxando meu caderno. — E não seja dramática, vamos revisar só um pouquinho. Carol bufou, mas acabou cedendo. Estudamos juntas na mesa da cozinha, e foi até divertido. Carol era mais desorganizada que eu, mas tinha boas ideias e uma memória incrível, o que tornava nossa parceria produtiva. Depois de um tempo, fechamos os cadernos e fomos para a sala assistir Gossip Girl. Tínhamos começado a série recentemente e, como duas boas viciadas, já estávamos obcecadas. — Você já imaginou como seria se tivesse alguém expondo nossos segredos igual na série? — Carol perguntou, enquanto Chuck Bass brilhava na tela. — Ah, por favor, não tenho nada de tão comprometedor assim. A coisa mais vergonhosa que já aconteceu comigo foi ser corna. — Ri alto, lembrando da história com Kaio. — Eu não tenho nada muito grave, mas já mandei uns nudes. Vai que a pessoa resolve soltar por aí. — Ela deu de ombros, casual. Eu gargalhei. — Nudes também já mandei, pro babaca do Kaio. Mas eram semi nudes, e sempre cortava o rosto. — Esperta. Deveria ter feito isso também. — Carol suspirou, e nós rimos juntas. Estávamos tão imersas na conversa e na série que quase não percebi meu celular vibrando na mesa. Quando olhei a tela, vi o nome de Rafael na notificação. — Já? — murmurei para mim mesma, surpresa e um pouco divertida. Conversa no w******p 📲 Rafael: Ei, mineirinha. O que está fazendo de bom? Betina: Vendo série com a Carol. E você? Rafael: Estava fazendo um trabalho da faculdade, mas já estou livre. Betina: Trabalho no primeiro dia? Rafael: Já é o terceiro período, os estágios estão chegando. Betina: Entendi. Mas agora vai fazer o quê? Rafael: Assistir algum filme, não sei ainda. Por quê, quer fazer algo? Betina: Até queria, mas tô morta e amanhã é cedo. Rafael: Esse foi o fora mais educado que já tomei. Betina: b***a kkk. Não foi um fora, só não curto tanto sair durante a semana. Rafael: Você tem razão. Mas o que me consola é que a gente se vê amanhã. Betina: Amanhã e todos os outros dias da semana. Não que eu ache r**m… Continuei trocando mensagens com ele, mas logo guardei o celular. Hora da série era sagrada, e Chuck Bass merecia minha atenção total. — Não adiantou fugir do Miguel, hein — provoquei, notando Carol digitando freneticamente no celular. — Ele é um insistente. Não me deixou em paz. — Carol suspirou, mas eu percebi o sorriso discreto no canto dos lábios dela. — Sei. E você não gostou nem um pouco disso, né? — Tá, eu gostei. Mas isso não significa nada. — Ela tentou parecer séria. — Sei, sei… E você com o Rafa? — devolveu ela, mudando o foco para mim. — O máximo que vamos ser é melhores amigos. — Melhores amigos também se apaixonam. Fora que o Rafa é super engraçado e fofo. — Já disse, chega de relacionamentos para mim. — Suspirei, me jogando contra o encosto do sofá. — Você não deveria pensar assim, prima. Foi seu primeiro relacionamento; não tem que ser o último só porque deu errado. Tudo é aprendizado. — Eu sei, mas, na prática, é complicado. Rafael é legal, mas eu me sinto quebrada. Se eu começar algo sem estar preparada, posso acabar machucando ele, e ele não tem nada a ver com isso. — Você está certa sobre isso — Carol disse, me olhando com carinho. — Mas não feche seu coração. Se permita sentir o que tiver que sentir. Viva todas as sensações. Antes que a conversa pudesse ir mais longe, minha tia nos chamou para jantar. Sentamos à mesa e aproveitamos o momento em família. Contamos para ela sobre o primeiro dia de aula, os meninos e as aulas. Claro que ela não perdeu a chance de dar uma bronca em Carol por conta dos energéticos e refrigerantes, dizendo que só deveriam ser consumidos nos fins de semana. Carol reclamou, mas eu sabia que ela entendia. Com a gastrite dela, minha tia só estava tentando cuidar. Depois do jantar, tomei um banho e coloquei meu pijama mais confortável. Quando me joguei na cama, estava exausta, mas ainda feliz com o dia. Antes de dormir, vi mais uma mensagem de Rafael. Rafael: Boa noite, mineirinha. Sorri ao ler, mas o cansaço me venceu antes que eu pudesse responder. Fechei os olhos e me deixei levar pelo sono, já ansiosa pelo que o amanhã poderia trazer.
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