Betina Ferrarini
Uma semana havia se passado desde o carnaval. Desde aquela última mensagem ridícula do Kaio, ele não disse mais nada. E quer saber? Melhor assim. Ele sabia que estava errado e só reforçou o quão i****a era em achar que tinha algum tipo de posse sobre mim. Aquele episódio foi a gota d’água que eu precisava para finalmente seguir em frente.
Acordei animada. Hoje era o dia: meu primeiro dia de aula no curso que eu tanto sonhei! Tomei um banho demorado, mas sem precisar lavar o cabelo, já que tinha feito isso na noite anterior. Abri o guarda-roupa, indecisa por alguns segundos, mas acabei escolhendo um look simples: camiseta branca lisa, calça jeans dobrada na barra, meu All Star branco já um pouco desgastado e uma maquiagem bem leve, só para dar aquele ar de saúde.
Descendo para a cozinha, encontrei Carol e minha tia conversando animadamente à mesa. Carol parecia a personificação da ansiedade, gesticulando enquanto falava sobre todos os planos que tinha para a faculdade.
— Vejo que não sou só eu que está animada hoje — comentei, me sentando.
— Animada? Eu m*l dormi de tanta ansiedade! — Carol disse, enquanto tomava um gole do suco, os olhos brilhando.
— E vocês têm todo o direito de estarem animadas, meninas. É o futuro de vocês, o curso que sempre quiseram! — minha tia incentivou, com aquele sorriso acolhedor de mãe.
— Mas eu tô com frio na barriga, mãe — Carol choramingou, abraçando o copo com as duas mãos.
— Isso é normal, meu bem. Mas não tem motivo para isso. Vocês são inteligentes. Estudem bastante e, claro, aproveitem as festas também! — brincou, fazendo com que nós duas ríssemos.
Depois de um café reforçado, seguimos juntas para a faculdade. A sensação de passar pelos portões pela primeira vez era surreal. Sério, eu quase não acreditava que estava mesmo ali.
— Ai, meu Deus… — Carol parou abruptamente, segurando meu braço.
— O que foi, criatura? — perguntei, surpresa com sua reação, enquanto olhava em volta tentando entender.
Ela apontou discretamente para um grupo de garotos próximos, que conversavam animados.
— O carinha do carnaval tá bem ali.
Segui o olhar dela e reconheci o rapaz. Ele parecia relaxado, rindo de algo que um dos amigos dizia.
— Tá, e daí? Ele estuda aqui. Qual o problema? — perguntei, sem entender o drama.
— É estranho, sei lá. Você beija alguém numa festa de carnaval e depois encontra essa pessoa no dia a dia. — Ela fez uma careta, como se fosse o fim do mundo.
— Não tem nada de estranho nisso. Mas já que você tá assim, vamos para a sala rápido, antes que ele te veja.
Puxei Carol pelo braço e seguimos para nossa sala. Como tínhamos saído de casa mais cedo por conta da ansiedade, o lugar ainda estava praticamente vazio. Escolhemos duas carteiras no meio, um lugar estratégico para observar a sala sem parecer muito na frente ou no fundo.
— Carol, pode respirar, tá? Ele nem vai aparecer aqui. — Ri, me divertindo com o nervosismo dela. — Mas me diz, ele mexeu com você, não mexeu? Por isso você tá fugindo.
Ela me lançou um olhar de “sério?” e respondeu com desdém:
— O beijo foi bom, a pegada também. Só isso.
— Sei… — debochei, rindo. — Não sou só eu a medrosa aqui.
— Medrosa nada! — Ela revirou os olhos e mostrou a língua, enquanto eu ria.
Aos poucos, a sala começou a encher. O burburinho das conversas aumentava à medida que mais pessoas chegavam, mas Carol parecia determinada a não voltar ao assunto do rapaz do carnaval, então não insisti.
Quando o professor de anatomia entrou, foi impossível não sentir uma onda de animação tomar conta da sala. O curso estava finalmente começando, e só de pensar nas aulas práticas que viriam, eu já me sentia empolgada.
Entre risos e expectativas, aquele primeiro dia prometia ser inesquecível. E pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que estava exatamente onde deveria estar.
•••
A manhã tinha sido incrível. As primeiras aulas superaram todas as expectativas. Os professores eram ótimos, o conteúdo instigante, e eu sentia que tinha escolhido o curso certo. Anatomia era a minha matéria favorita até agora; a forma como o professor explicava tornava tudo fascinante, e eu m*l podia esperar pelas aulas práticas. Entre uma aula e outra, eu e Carol já tínhamos trocado algumas impressões sobre os professores e comentado como a estrutura da faculdade era ainda melhor do que imaginávamos.
Quando finalmente chegou a hora do almoço, fomos direto para o refeitório. Enquanto Carol foi buscar algo para beber, eu já estava sentada, esperando por ela, mexendo no celular e distraída com o cheiro da comida que estava esfriando.
Foi então que senti alguém se sentando à minha frente.
— Você? — perguntei, surpresa, ao reconhecer Rafael, o rapaz que conheci no carnaval.
— Surpresa! — ele disse com aquele sorriso brincalhão que eu lembrava bem.
— Uma surpresa e tanto — respondi, irônica, sem esconder meu desconforto. — E, só para constar, eu tô acompanhada.
— Eu sei. — Ele olhou para a bandeja ao meu lado, completamente despreocupado. — Tenho certeza de que sua companhia não vai se importar.
Antes que eu pudesse retrucar, avistei Carol se aproximando, rindo e conversando com… Miguel? O carinha do carnaval! O que era isso, uma reunião de folia fora de época?
— Ué, quem é esse garoto, Tina? — Carol perguntou, franzindo o cenho ao ver Rafael na mesa.
— Esse é o Rafael, do carnaval — expliquei com um suspiro, já sentindo onde aquilo ia dar. — E esse aí é o seu peguete do carnaval, né?
— Sou Miguel — ele se apresentou simpaticamente. — E sou amigo do Rafael. E, só pra avisar, não liga pra ele, o Rafa é folgado assim mesmo.
— Parece que todo mundo se conhece aqui — Carol comentou, revirando os olhos. — Mas, já que estamos todos aqui, vamos sentar e comer, porque eu tô morta de fome.
Depois que todos estavam devidamente acomodados, Rafael, sempre curioso, começou:
— Então, vocês duas são amigas?
— Primas — corrigi, dando de ombros. — Vim passar esse ano no Rio. Tô morando com ela e minha tia.
— Bacana. Eu e o Rafael somos amigos de infância e moramos juntos — Miguel explicou. — Nossos pais são sócios.
— Legal. Vocês fazem qual curso? — Carol perguntou, enquanto já começava a comer.
— Engenharia — Rafael respondeu, casual.
— Arquitetura — completou Miguel. — Nossos pais são donos da C&L, uma empresa de arquitetura e engenharia. Estamos seguindo os passos deles.
— E vocês realmente gostam ou só escolheram pra seguir os passos dos seus pais? — perguntei, curiosa.
— Gostamos — Rafael respondeu, sincero. — E também é uma questão de responsabilidade. Vamos assumir o lugar deles no futuro. E vocês?
— Nós duas fazemos enfermagem — Carol disse. — E, ao contrário de vocês, não fomos pro lado dos negócios da família. — Ela riu.
— Nossas mães são donas das Móveis Ferrarini — expliquei. — Minha mãe administra a unidade de Uberlândia, e a tia Verônica, a daqui do Rio.
— Interessante. — Miguel parecia genuinamente interessado. — Bom, pelo menos agora vocês conhecem a gente aqui. Aposto que vai ser divertido.
— Vai ser divertido se ninguém pegar ninguém, porque se der errado, acabou o quarteto — brinquei, rindo.
— Tarde demais. Esses dois já estavam se pegando no carnaval! — Rafael apontou para Carol e Miguel, arrancando risos de todos.
— É, e agora só falta vocês dois se pegarem também pra equilibrar as coisas — Miguel soltou, malicioso.
Eu quase cuspi o suco que estava bebendo.
— m*l chegou e já tá cheio de graça, hein, senhor Miguel Avelar? — Carol brincou, dando um beliscão leve no braço dele, que fingiu sentir uma dor dramática.
— Não é porque ele é meu amigo, mas eu achei uma ótima ideia. — Rafael piscou para mim, enquanto eu apenas revirei os olhos, fingindo impaciência.
— Gente, por favor, vamos comer, né? Melhor mudar de assunto! — ri, tentando encerrar o tema.
Depois do almoço, nos despedimos dos meninos e seguimos para nossas respectivas salas. A tarde prometia ser intensa, com aulas sem intervalos. Mas, sinceramente? Eu não estava nem um pouco cansada. Ainda estava cheia de energia depois daquela manhã incrível.
E, apesar do almoço inesperado e de todas as provocações, algo me dizia que esse ano seria muito mais interessante do que eu esperava.