Betina Ferrarini
A festa estava simplesmente mágica, melhor do que eu imaginava. O calor do Rio de Janeiro à noite era compensado pela animação contagiante das ruas. Pessoas fantasiadas de super-heróis, animais, e até personagens de novela dançavam ao lado de quem estava de roupas casuais. Parecia que ninguém queria perder a energia do carnaval. A música alta e vibrante fazia o chão tremer, e as luzes coloridas dos camarotes iluminavam a multidão.
Mal havíamos chegado quando Carol puxou meu braço, já cheia de animação.
— Vamos tirar uma foto antes de fazer qualquer coisa! — disse ela, e logo pediu a uma moça sorridente para registrar o momento.
Aproveitei para postar rapidamente no i********::
“Carnaval com a melhor companhia 💕”
Bloqueei o celular e guardei na bolsa.
Hoje, eu só queria me desconectar do mundo e me jogar na energia dessa festa única.
— Bora pegar uma bebida e dançar até o chão? — Carol gritou para mim, já começando a balançar o corpo no ritmo do samba que tocava.
— Vamos! — respondi, quase sendo arrastada por ela até uma das inúmeras barracas de bebidas espalhadas pela rua.
Enquanto ela pedia uma bebida rosa chamativa, eu observava o movimento ao nosso redor. Pessoas rindo, abraçando desconhecidos, formando pequenos blocos improvisados no meio da rua. Era o caos organizado do carnaval, e eu amava cada segundo.
Carol me entregou um copo.
— Experimenta, prima! É doce, mas muito boa.
Tomei um gole e senti o sabor açucarado invadir minha boca. Era leve e refrescante, mas com aquele toque que avisava que poderia ser traiçoeiro.
— É bom mesmo — admiti, rindo.
— Só cuidado, hein! Essas bebidas doces são as mais perigosas — ela disse piscando, já balançando os ombros no ritmo da música.
Bebíamos e dançávamos com o grupo ao nosso redor, que incluía desde turistas até cariocas animados. A atmosfera era surreal. Ali, todo mundo era amigo. Não importava de onde você vinha ou quem você era, bastava dançar e sorrir.
Carol inclinou a cabeça para o lado, prestando atenção em algo, e de repente cutucou meu braço.
— Olha aquele boy ali, Betina! — apontou para um rapaz alto, de cabelos pretos, com um físico de dar inveja. Ele estava sem camisa, apenas de bermuda, e usava um óculos de armação grossa que dava um charme meio nerd.
— Não parece seu tipo — comentei, rindo.
— Talvez não, mas tem tanquinho! — deu de ombros e caiu na risada.
Continuamos dançando até que Carol anunciou sua missão:
— Vou lá falar com ele!
— Vai lá, prima. Boa sorte! — respondi, divertida.
Ela olhou para mim com um sorriso cúmplice.
— Só não se esqueça: olho no copo e no celular, hein!
Acenei com a mão, rindo da sua preocupação, e ela desapareceu no meio da multidão. Sozinha, decidi voltar à barraca para pegar mais uma daquelas bebidas rosas. Já estava gostando demais do sabor.
Chegando lá, pedi minha bebida e esperei enquanto o rapaz da barraca preparava. Ao meu lado, um homem estava encostado no balcão, segurando uma cerveja e observando a festa com um sorriso discreto.
Quando minha bebida chegou, tomei um gole generoso, sentindo novamente aquele sabor doce e gelado.
— Devia ir devagar com isso, loirinha — ouvi o homem ao meu lado dizer, com um sorriso de canto.
Olhei para ele e revirei os olhos.
— Obrigada pelo aviso, papai.
Ele deu uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Só estou tentando ser gentil. Essas coisas doces te derrubam antes que você perceba.
— Ok, superinformado, obrigada pela dica.
— Você é sempre assim, irônica? — ele perguntou, curioso.
— Só quando alguém tenta estragar minha diversão — retruquei, bebendo mais um gole.
Ele riu de novo, e eu saí dali antes que a conversa se estendesse. Voltei para o lugar onde Carol havia me deixado, dançando sozinha e aproveitando a música, fechando os olhos para sentir o ritmo. Era libertador.
Quando abri os olhos, lá estava ele, o mesmo cara da barraca, agora bem na minha frente.
— Tá me seguindo? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.
— Prefiro o termo “fazendo companhia” — respondeu ele, sorrindo e levantando as mãos como se fosse inocente. — E, sobre o que falei antes, foi m*l. Só queria ajudar.
— Ah, tá. Bem, desculpa minha resposta grossa. Carnaval, sabe como é.
Ele estendeu a mão.
— Rafael.
— Betina — respondi, apertando sua mão rapidamente.
— Você não é daqui, né?
— Como sabe?
— Pelo sotaque. Mineirinha?
— Acertou.
Ele sorriu, balançando a cabeça.
— E veio sozinha?
— Não, vim com minha prima. Mas ela está grudada em um boy que encontrou.
— E deixou você aqui sozinha? — perguntou, com um tom implicante.
— Eu dou conta de mim.
— Sei que sim. Mas achei que poderia fazer companhia. Posso?
— Se você dançar e não atrapalhar, pode.
Ele deu uma gargalhada e logo começou a dançar comigo. Rafael era alto, engraçado e tinha aquele jeito despretensioso que me fazia relaxar. Enquanto dançávamos, ele soltava piadinhas que me arrancavam sorrisos, e por um momento, eu me senti livre.
— E então, mineirinha, acha que o carnaval é tudo isso que dizem?
— Acho que é ainda melhor do que eu imaginava.
Ele sorriu e, por um instante, o som ao nosso redor parecia diminuir. Rafael parecia um daqueles momentos que a vida te oferece quando você menos espera, e eu estava disposta a aproveitar cada segundo.
•••
Carolina só apareceu por volta da uma da manhã, com os cabelos desalinhados e o sorriso de quem teve uma noite divertida. Rafael já tinha ido embora pouco antes, mas sua companhia tinha sido suficiente para me deixar mais leve.
— E aí, como foi sua noite? — ela perguntou, com os olhos brilhando de diversão.
— Foi ótima. E os pegas? — retruquei, já sabendo que viria exagero pela frente.
— Maravilhosos! Ele é um gato, beija bem, tem pegada e… olha, só vou dizer que a anatomia dele não decepcionou. — Ela riu alto, enquanto eu cobria o rosto, incrédula.
— Certo, Carolina. Não precisava de tantos detalhes. — Respondi, rindo junto.
— Ué, tô só compartilhando a experiência! Mas e aí, quer ficar mais ou vamos pra casa?
— Acho que já deu de festa. Bora pra casa antes que eu ouça mais do que deveria.
Pedimos um Uber para voltar, já que tínhamos vindo preparadas para beber. O trajeto foi rápido, e quando chegamos, a casa estava silenciosa. Minha tia já dormia. Carolina sugeriu que dormíssemos juntas, como fazíamos quando éramos mais novas. Concordei, e cada uma foi para o seu quarto tomar banho.
Depois do banho, coloquei meu pijama e me deitei, esperando por ela. Não demorou para que aparecesse carregando duas barras de chocolate e garrafinhas de água.
— Sobremesa antes de dormir! — anunciou, se jogando ao meu lado na cama.
— Desculpa por ter te deixado sozinha lá no rolê — disse com um toque de culpa na voz.
— Eu não fiquei sozinha — respondi casualmente.
Ela parou de abrir o chocolate e me olhou com curiosidade.
— Como assim?
— Conheci um rapaz na barraca de bebidas. Ele era divertido.
— E vocês não ficaram? — perguntou, já com uma expressão quase indignada.
— Claro que… — deixei um suspense, só para provocar. Ela sorriu, esperançosa. — Que não!
— Betina! — revirou os olhos, frustrada. — Não é porque o seu ex era um lixo que todo mundo é. Devia ter aproveitado! Qual a chance de você ver esse cara de novo?
Nem tive tempo de responder antes que meu celular vibrasse ao meu lado. Olhei para a tela e não pude evitar revirar os olhos ao ver quem era.
— Falando em lixo… Olha quem decidiu aparecer.
Mostrei a mensagem para ela, e Carolina leu em voz alta, debochando do tom hipócrita do Kaio:
Mensagem no direct 📩
@kaio_m: “Você tá tão mudada, postando foto com pouca roupa, saindo em festa quase pelada. Tá vulgar. Deveria voltar a Sabriny, que tá m*l por sua causa. E eu tô sem entender essa atitude sua. Depois de três anos, termina comigo pra ir pra farra?”
Ela caiu na gargalhada.
— Meu Deus, o cúmulo da audácia! Posso responder?
— Fica à vontade — entreguei o celular para ela, sem a menor vontade de lidar com aquilo.
Carolina não perdeu tempo e digitou com rapidez, o tom afiado e certeiro:
Resposta no direct 📩
@b_ferrarini: “Ah, que dó. Pena que a Sabriny não estava sofrendo quando estava em cima de você de lingerie no NOSSO aniversário de namoro. Me poupe do falso moralismo, Kaio. Você sempre odiou carnaval e hoje tava lá amando. Sim, eu mudei. Tô vivendo a melhor versão de mim: livre de você. Boa noite.”
Ela me devolveu o celular com um sorriso satisfeito.
— Pronto. Duvido ele ter coragem de mandar mais alguma coisa depois dessa.
Li a mensagem e, pela primeira vez em muito tempo, me senti aliviada.
— Você arrasou, Carol. Se você não estivesse aqui, eu provavelmente teria tentado me explicar e chorado até dormir.
— E pra quê, Tina? Esse cara não merece uma lágrima sua. Ele foi um babaca e ponto final. E quer saber? Você não tá errada, nunca esteve. Ele é o errado nessa história toda, e você tem que acreditar nisso.
Assenti, respirando fundo.
— Hoje eu finalmente percebi isso. Chega dele.
Ela sorriu, se esticando para apagar a luz.
— Isso aí. Agora dorme e tenta não pensar mais nisso. O Kaio é passado, e ele não tem o direito de estragar seu primeiro carnaval.
— Ele não vai. Não vou deixar.
Virei para o lado, cansada. Pela primeira vez em meses, não fiquei revivendo cada detalhe doloroso do que aconteceu. Não pensei nele, nem na traição, nem na dor que me consumiu por tanto tempo. Eu simplesmente dormi. E foi libertador.