Cap 2

1011 Palavras
O castelo sempre pareceu imenso e frio para Eva. Embora tenha crescido cercada de riquezas e conforto, sentia um vazio que nem os afagos amorosos da mãe preenchiam. Evelyn era a única que a compreendia, que sempre lhe oferecia carinho e compreensão, mas mesmo assim, não era o suficiente. O pai, Vlad, era um homem poderoso e imponente, mas distante. Passava a maior parte do tempo com seus filhos bastardos, Sebastian e Nathaniel, e Eva nunca entendeu o porquê. No início, Eva achava que, talvez, pudesse chamar a atenção do pai de outra forma, ser a filha perfeita que ele pudesse se orgulhar. Mas o ressentimento foi crescendo, transformando-se em inveja dos meios-irmãos, até que passou a desprezá-los. Afinal, eram eles que tinham o que ela mais desejava: a presença e o orgulho do pai. Com o tempo, Eva desenvolveu uma raiva surda, uma frustração com sua própria condição de mulher. Sabia que, por ser mulher, o destino que a aguardava seria, como o de sua mãe, um casamento de conveniência, talvez com um estranho que jamais lhe ofereceria amor. Determinada a fugir desse destino, Eva passava boa parte do seu tempo treinando, buscando sua própria força. Queria ser vista como algo além de uma peça decorativa no castelo, como alguém capaz de lutar e proteger a si mesma. Não queria ser a dama delicada e frágil que esperavam, mas uma guerreira que impunha respeito. Mesmo assim, o sentimento de inadequação era uma sombra constante em seu coração, algo que nem mesmo as horas de treino intenso conseguiam dissipar. E então, chegou seu décimo quinto aniversário, uma idade de transição, especialmente para as vampiras. Era o momento em que, segundo as tradições, ela se tornaria uma mulher. Eva odiava a ideia, odiava a expectativa de que, a partir de agora, todos começariam a vê-la apenas como uma futura esposa. A perspectiva de perder a liberdade lhe causava um peso quase físico no peito, uma angústia profunda e silenciosa. Após uma tentativa frustrada de descanso, uma dor forte e inesperada a atingiu na barriga. Ao perceber o sangue que escorria, entendeu o que aquilo significava: sua menarca, a prova de sua fertilidade. Embora isso fosse visto como um presente para as vampiras, Eva sentiu apenas irritação. Agora seu destino de esposa fértil e submissa parecia mais próximo e inevitável. Sua mãe, Evelyn, veio ao seu quarto com um sorriso orgulhoso, mas Eva se sentiu incomodada com as palavras dela. “Parabéns, você é fértil. Vai ser uma boa notícia para seu pai.” Eva franziu o rosto, respondendo com irritação. “Claro que vai. Ele deve estar ansioso para me casar com algum sangue puro que só quer uma esposa fértil.” Evelyn suspirou, tentando acalmar a filha, mas Eva não queria ser consolada. Aquele momento, que era visto como uma celebração para todas as vampiras, para ela só simbolizava uma prisão ainda mais próxima. Mais tarde, desceu para o jantar de aniversário. A sala estava cheia, mas o clima pesado. Tentou ignorar os olhares, até ouvir a voz ríspida de Nathaniel. “Finalmente vai poder casar e ir embora daqui.” O sorriso sarcástico dele só aumentou a raiva que Eva já sentia, como se cada palavra fosse uma faísca alimentando o fogo dentro dela. Sebastian, por outro lado, mantinha uma postura mais reservada, mas Eva sabia que ele era o mais próximo do pai, aquele que receberia toda a responsabilidade e honra da família. Talvez, por isso, ela sentisse menos desprezo por ele do que por Nathaniel, mas, ainda assim, não conseguia gostar verdadeiramente dele. Durante o jantar, a conversa desviou para o tema do casamento, e Eva sentiu o peito apertar de ansiedade e raiva. Tamar, a mãe dos irmãos, opinou que Eva já estava pronta para casar. “Quanto mais cedo ela casar, mais rápido vai aprender a respeitar o marido.” A frieza e desdém nas palavras de Tamar acenderam algo em Eva. Ela não aguentou se segurar. “Tenho certeza de que a opinião de uma prostituta não devia valer mais que a minha!” As palavras escaparam num sussurro raivoso, mas carregado de uma fúria que havia sido contida por tempo demais. Nathaniel reagiu prontamente, defendendo a mãe com fúria. Eva se levantou, sentindo o peso de todas as expectativas, da injustiça e do ódio que havia crescido dentro dela por anos. Não queria ser reduzida a uma peça no jogo do pai, a um troféu para ser entregue a algum estranho. Tentou respirar, conter a raiva enquanto subia as escadas, sabendo que aquela explosão traria consequências. De volta ao quarto, não conseguiu descansar. Uma revolta borbulhava em seu peito, um misto de frustração, decepção e uma vontade feroz de lutar contra o que parecia inevitável. Pensou em fugir quando completasse dezesseis anos, se agarrando à esperança de que pudesse finalmente ser livre, se afastar de uma família que nunca a valorizou. Então, uma batida à porta. Eva esperava que fosse uma empregada trazendo sangue, mas era Sebastian. Ele entrou com o copo de sangue, e a encarou com um olhar sério. A conversa que se seguiu só aumentou a ira de Eva, quando ele insinuou que a falta de um primogênito legítimo era um fracasso de sua mãe. Sem pensar, Eva reagiu, chutando-o com força e derrubando o copo de sangue no chão. Sabia que aquilo traria ainda mais problemas, mas a sensação de soltar sua raiva, de não ser submissa a ninguém, nem mesmo à família, lhe deu um prazer momentâneo. Ela sabia que seria castigada, que possivelmente o pai a forçaria a casar o mais cedo possível. Mesmo assim, naquele instante, sentiu-se livre, mesmo que fosse uma liberdade frágil e passageira. Enquanto se deitava na cama, já exausta da tensão daquele dia, Eva olhou para o teto e decidiu que, a partir daquele momento, faria tudo ao seu alcance para escapar desse destino. Talvez ninguém ali a respeitasse, mas ela jurou a si mesma que um dia, custasse o que custasse, não precisaria de ninguém para ser a mulher que sempre quis.
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