Isadora Narrando
Acordei cedo, antes mesmo do despertador tocar, com aquela ansiedade boa batendo no peito. O tipo de ansiedade que não paralisa, empurra. Levantei devagar pra não acordar o Miguel e fui direto pra cozinha. Preparei o café, coloquei água pra ferver, separei tudo com calma. Fiz a mamadeira dele, deixei no ponto certo, nem quente nem fria demais. Enquanto isso, já fui organizando a bolsa do meu pequeno, conferindo fralda, lenço, uma roupinha extra.
Quando ficou tudo pronto, fui acordar o Miguel.
— Bom dia, meu amor.
Ele abriu os olhinhos ainda sonolento e logo esticou os bracinhos pra mim. Miguel tem um ano e um mês, mas é esperto demais. Já corre pela casa, vive tropeçando nas próprias pernas. Tem só quatro dentinhos, dois em cima e dois embaixo, mas come como gente grande. Adora comer. Come tudo e ainda pede mais.
Dei a mamadeira pra ele ainda na cama, observando aquele rostinho tranquilo, enquanto ele segurava a mamadeira com as duas mãos. Depois deixei ele assistindo um vídeo no celular, sentado na cama. Ele ama. Eu não sou dessas mulheres que dizem que criança não pode ver tela. Desde que ele fique quietinho pra eu conseguir fazer minhas coisas, dou até a televisão na mão se for preciso.
Fui tomar banho. Demorado, mas não demais. Lavei o corpo, respirei fundo, tentei organizar os pensamentos. Voltei, arrumei o Miguel com carinho, roupinha limpa, cheiroso. Deixei ele entretido enquanto me arrumava. Vesti uma camiseta simples, calça jeans e tênis. Fiz um coque nas minhas tranças, passei desodorante, um creme nos braços e um perfume fraquinho, só pra me sentir mais eu.
Tomei café em pé mesmo. Ou pelo menos tentei. Miguel roubou meu pão todinho. Ele ama pão. Ri sozinha vendo ele mastigar todo concentrado, como se tivesse feito a maior conquista do dia.
Peguei a bolsa, coloquei o celular no bolso da calça, peguei o Miguel no colo e subi até a creche. O caminho parecia mais curto daquela vez. Me despedi dele com um abraço apertado, um beijo estalado na bochechinha gordinha.
— A mamãe já volta, tá?
Desci direto pro bar. Meu expediente começava às oito, mas cheguei às sete e vinte. Seu Bil já estava lá. Me recebeu com um aceno e um sorriso tranquilo. Me apresentou às mulheres da cozinha, cinco no total. Todas simpáticas, mas ocupadas, cada uma no seu ritmo.
Ele me explicou tudo com calma. A comida saía por uma portinha, eles tocavam uma campainha e eu tinha que estar atenta. No horário de muito movimento, se eu não desse conta, alguma delas sairia pra ajudar.
Quando deu oito horas em ponto, ele falou:
— Pode começar limpando as mesas e as cadeiras.
Comecei pelas mesas empilhadas. Passei bucha com detergente, pano, esfregando de leve, com cuidado. Arrumei as cadeiras, coloquei as toalhas de plástico, ajeitei tudo direitinho. Em cada mesa, coloquei o jarrinho como ele pediu. Depois fui limpar o banheiro, deixei tudo bem organizado, cheiroso, pronto pros clientes.
O cheiro de comida vindo da cozinha era absurdo de bom. Dava até fome de novo. Seu Bil colocou a placa do lado de fora com o cardápio do dia e me chamou pra explicar mais uma vez.
— Presta atenção pra não anotar nada errado. Cada mesa tem número. Memoriza onde tá cada uma. Na hora de servir, não troca pedido.
Assenti, concentrada.
Às onze horas, os primeiros clientes começaram a chegar. Movimento tranquilo. Mas o caos começou mesmo meio-dia. Quando deu doze e meia, tinha gente esperando mesa. Tudo lotado. A cozinha fervendo. Uma das mulheres saiu pra me ajudar e riu.
— Todo dia é assim.
Até ali, eu não tinha errado nada. Nenhuma mesa trocada, nenhum pedido anotado errado. Tudo fluindo. Meu corpo cansado, mas minha cabeça focada.
Até que uma mesa me chamou.
Olhei de longe e reconheci o Memeu. Respirei fundo, ajeitei o bloquinho no bolso e fui até lá atender. A mesa tinha mais gente, mas meu foco travou quando cheguei perto. Tirei o bloquinho do bolso, levantei os olhos pra perguntar o pedido…
E foi aí.
Meu olhar se encontrou com o dele.
O Cão.
O dono do morro. O homem que salvou a minha vida.
Meu coração falhou uma batida. Ele estava ali, sentado, imponente, silencioso. Aqueles olhos azuis penetrante, forte. A presença dele ocupava o espaço inteiro. Por um segundo, tudo ao redor pareceu sumir. Barulho, vozes, pratos, nada existia além daquele olhar pesado e atento sobre mim.
Engoli em seco, forcei a voz a sair firme.
— O… o que vai ser hoje?
E naquele instante eu soube.
Aquele encontro não era acaso.
Anotei o pedido dos três homens que estavam ali. Memeu, Carioca e ele. Minhas mãos tremiam um pouco, mas a letra saiu firme. Não podia errar logo naquela mesa. Confirmei tudo em voz baixa, do jeito profissional que seu Bil tinha me orientado, e me afastei devagar.
Fui até a portinha da cozinha, pendurei o papel no prendedor certinho, conferindo o número da mesa mais uma vez. A campainha ainda não tinha tocado, então aproveitei pra ir até a cervejeira. Peguei as bebidas que eles pediram, senti o frio das garrafas na mão e respirei fundo tentando me recompor.
Quando voltei à mesa, abri as garrafas com cuidado, uma por uma. Fui colocando os copos, servindo as bebidas com atenção. Eu sentia. Não precisava olhar. Os olhos do Cão não saíam de mim. Não era olhar sujo, não era cantada. Era intenso. Pesado. Como se ele estivesse me analisando por dentro.
— Qualquer coisa é só chamar — falei educada, mantendo a voz firme.
E saí logo, antes que minhas pernas resolvessem me trair.
O bar tava cheio. A maioria dos clientes era homem. Mulher ali era exceção. Eu devia representar menos de dez por cento daquele ambiente. Ouvi muita gracinha. Uns perguntavam se eu era novata. Outros elogiavam demais, daquele jeito desconfortável.
— Linda desse jeito trabalhando aqui sozinha?
— Morena, tenho chance com você?
— Essa aí dava um caldo.
Teve até um que soltou uma piada nojenta envolvendo cama.
Não respondi. Não sorri. Mantive postura. Bom dia, boa tarde, anotei pedido, entreguei bebida. Só isso. Eu tô aqui pra trabalhar, não pra agradar ego de homem nenhum.
Quando a campainha tocou de novo, já sabia. Eram os pratos da mesa do Memeu. Peguei a bandeja, pesada, equilibrada no braço. Meu coração acelerou, mas minha cabeça tava focada. Eu tinha memorizado cada pedido.
Cheguei na mesa e fui servindo.
Coloquei cada prato exatamente na frente de quem pediu. Sem hesitar. Sem perguntar de novo. Entreguei os talheres.
— Qualquer coisa é só me chamar.
Memeu levantou os olhos e falou:
— Valeu, Isa.
Assenti com a cabeça e saí de perto. Minhas pernas tremiam, mas eu continuei andando. Continuei trabalhando. Limpando mesa, anotando pedido, trazendo bebida. O tempo todo com a sensação de estar sendo observada.
Vi quando o Carioca foi até o caixa com a comanda na mão. Depois eles foram saindo aos poucos. Um por um. Quando percebi, o movimento tinha caído bastante. Já passava das três da tarde quando o último cliente foi embora.
Era hora da limpeza.
Lavei o salão com calma, empurrei a água, passei o pano nas mesas, alinhei as cadeiras. Voltei no banheiro, deixei tudo limpo de novo. Tirei o avental sentindo o corpo cansado, mas a cabeça estranhamente leve. Dona Lindalva, a esposa do seu meu que é a cozinheira chefe. Me mandou almoçar, ela disse que eu tenho que almoçar antes de limpar. Pensava que vazio não para em pé, almocei e estava uma delícia. Quando terminei de comer. Fui falar com seu Bil.
Ele sorriu. Um sorriso diferente.
— Isadora, no seu primeiro dia você ganhou mais gorjeta do que qualquer pessoa que já passou por aqui.
Ele me entregou o dinheiro. Três notas dobradas e mais algumas menores. Olhei confusa.
— Isso aqui é?
— Trezentos e vinte reais — ele disse tranquilo. — Vinte foi das mesas no geral. E trezentos…
Ele fez uma pausa.
— Foi o chefe que deixou.
Meu coração disparou.
— O chefe?
— Sim. O chefe de todo mundo. Cão de raça. Ele gostou do seu atendimento. Continue assim.
Fiquei olhando para aquele dinheiro na minha mão. Um sorriso escapou sem eu perceber. Aquilo significava comida, fralda, tranquilidade por alguns dias. Significava que eu tinha feito certo.
Guardei o dinheiro com cuidado, agradeci seu Bil e saí.
Enquanto caminhava de volta pro barraco, uma pergunta martelava na minha cabeça, misturada com esperança e medo ao mesmo tempo.
— Será que ele foi generoso assim, para depois pedir algo em troca?