Isadora Narrando
Acordei antes do sol aparecer direito. Miguel ainda tava meio sonolento quando comecei nossa rotina. Dei de mamar com calma, sentada na beira da cama, observando cada detalhe do rostinho dele. Depois preparei o banho, água morninha, falando baixinho pra ele não estranhar. Ele riu quando joguei água na barriguinha, aquele riso com poucos dentinhos que desarma qualquer medo. Sequei, passei pomada, vesti a roupinha limpa e arrumei ele com todo cuidado, como se o mundo lá fora fosse frágil demais pra tocar no meu filho.
Depois fui eu. Banho rápido, cabelo preso, roupa simples. Tomei um café preto com biscoito cream cracker, mais por obrigação do que por fome. Arrumei a bolsa do Miguel com tudo que precisava: fralda, roupa extra, a lata de leite, o Mucilon, tudo anotado certinho com medida e horário. Respirei fundo e segui pra creche, como a dona Ofélia tinha orientado.
Quando cheguei, fui recebida pela diretora, uma mulher de voz calma e olhar atento. Ela me chamou pra sentar, perguntou meu nome, o nome do Miguel, nossa história. Contei tudo, sem enfeitar. Disse que era mãe solo, que não tinha família por perto, que só conhecia a dona Ofélia no mundo. Expliquei que ela me ajudava como podia, mas tinha problemas de saúde e não dava pra ficar com o Miguel todo dia.
Ela me ouviu sem pressa, anotando tudo. Depois falou que tinha vaga, que ia fazer a matrícula ali mesmo. Meu coração quase saiu pela boca quando ela perguntou:
— Você já quer deixar ele hoje pra um período de adaptação?
Olhei pro Miguel no meu colo. Ele segurava meu dedo com força.
— Quero. — respondi, com a voz tremendo.
A tia que ficaria com ele se aproximou. Fiquei na frente dela e expliquei a rotina do Miguel, horário, as medidas do leite, do Mucilon, falei que tava tudo na bolsa, tudo anotado. Beijei a testa dele, abracei forte. O coração apertou de um jeito que doeu fisicamente. Deixei ele no chão com os brinquedos, fiquei ali um tempo observando. Aos poucos ele começou a brincar com outra criança, curioso, distraído.
Quando vi que ele tava bem, saí. Meus olhos arderam, um nó enorme travou minha garganta, mas segurei. Não podia chorar ali.
Perguntei ao vigia da creche onde tinha uma lan house. Ele explicou direitinho. Fui até lá, imprimi uns currículos simples que eu mesma tinha feito e comecei a entregar. Loja, mercadinho, padaria. Quase na hora do almoço vi o Memeu do outro lado da rua. Ele só acenou com a cabeça. Retribuí o aceno e segui.
Voltei pra casa, fiz um arroz rápido com linguiça, comi em pé mesmo. Lavei a louça, dei uma ajeitada por cima no barraco e saí de novo. Precisava aproveitar cada minuto.
Quando eu já tava chegando perto do supermercado grande da baixada, ouvi alguém me chamar.
— Isadora!
Virei e era o Memeu. Ele veio andando na minha direção.
— Consegui um trampo pra você.
Meu coração acelerou.
— Sério? Onde é?
— No bar do Bil. Dá pra ir agora se apresentar.
Engoli seco.
— É, trabalho noturno?
Ele balançou a cabeça.
— Não. Fica tranquila. Conversa com o Bil que ele explica tudo.
Respirei aliviada. Olhei pro céu por um segundo e agradeci em silêncio. Depois ajeitei a bolsa no ombro.
— Tá bom. Eu vou.
Enquanto caminhava, só pedia uma coisa: que desse certo. Por mim. Pelo Miguel.
Cheguei no bar com o coração batendo acelerado, mas tentando não demonstrar. Era simples, daqueles de esquina, mesas de plástico, chão gasto e cheiro de café misturado com comida. Um senhor veio me atender. Cabelo grisalho, postura tranquila, olhar atento. Nada invasivo, nada desconfiado demais. Só educado.
— Pois não, moça?
Respirei fundo e expliquei que estava procurando trabalho. E Memeu me mandou vir aqui. Ele me escutou com calma, sem me interromper. Depois me contou que estava precisando de alguém pra servir, limpar as mesas e lavar o salão quando o expediente acabasse. Disse tudo de forma direta, sem promessa falsa, sem conversa atravessada.
Aquilo já me deu um alívio.
Contei pra ele da minha situação, que eu tenho um filho pequeno e perguntei se teria problema em, de vez em quando, eu trazer o Miguel, já que a creche funcionava só durante a semana.
Ele pensou por alguns segundos e respondeu com naturalidade:
— Tudo bem. Desde que não atrapalhe o serviço.
Quase sorri ali mesmo.
Ele explicou o horário. De segunda a sábado, das oito da manhã às quatro da tarde. Domingo seria minha folga. Pagaria um salário mínimo e faríamos um período de experiência. Nada além disso, nada escondido.
— Aceita?
— Aceito, sim.
Ele apertou minha mão, firme, respeitoso.
— Então começa amanhã.
Saí dali leve. Fazia tempo que eu não sentia isso. Voltei pro barraco sorrindo sozinha, com uma esperança que eu já tinha esquecido como era sentir. Assim que cheguei, larguei a bolsa, tomei um banho demorado, lavei o corpo e a alma. Troquei de roupa e decidi fazer uma comida melhor. Coloquei o feijão no fogo, tirei a carne do congelador, deixei descongelando em cima da pia.
Enquanto a panela fazia seu barulho tranquilo, fui ver a dona Ofélia. Contei a novidade. Ela abriu um sorriso daqueles sinceros, mas logo ficou séria.
— Fico feliz por você, minha filha. Mas toma cuidado. Esse bar é frequentado por todo tipo de gente. No horário do almoço fica cheio.
— Eu sei, dona Ofélia — respondi. — Mas eu só quero trabalhar. Só isso.
Ela assentiu, ainda me olhando com aquele jeito de quem se preocupa de verdade. Antes de eu sair, pegou uns bolinhos, daqueles de saquinho e colocou numa sacola.
— Leva pro Miguel.
Agradeci com o coração apertado de gratidão.
Fui buscar meu filho. Quando cheguei, dei banho nele com calma, conversando baixinho, sentindo aquele cheirinho de sabonete que só ele tem. Ainda bem que o Miguel não deu trabalho. Parecia até entender que a mamãe tava cansada, mas feliz.
Terminei a janta, dei a comidinha dele enquanto ele assistia desenho, com aqueles olhinhos atentos e a boca suja de comida. Depois jantei, lavei a louça e deixei tudo organizado. Fiz uma mamadeira, dei pra ele, coloquei na cama e fiquei ali alguns minutos observando meu filho dormir.
O peito apertou, mas dessa vez foi diferente. Era ansiedade boa. Esperança.
— Vai dar tudo certo — sussurrei pra mim mesma.
Eu preciso passar nessa experiência. Preciso desse trabalho. Não por luxo, não por sonho grande. Só pra garantir dignidade, comida e um futuro melhor pro meu filho.
Deitei cansada, mas com o coração acordado, esperando o amanhã chegar.