Zahara Haruno
— Senhor Ruiz, a senhorita More está lhe esperando em seu escritório — avisei assim que meu chefe passou direto pela minha mesa.
Ele nem sequer olhou para mim.
— Ela disse por que está aqui? — Ele parou de repente.Senti um aperto amargo no peito. Só mesmo mencionando o nome daquela mulher para conseguir a atenção dele. Miguel olhou fixamente para a porta do escritório, e notei sua ansiedade instantânea. Ele sentia tanta falta dela.
— Não, senhor. Ela apenas disse que ia esperar pelo senhor, não adiantou o assunto — respondi com toda a naturalidade que consegui fingir, mas por dentro minha raiva quase explodia.
Ver a mudança drástica no comportamento dele por causa dela me causava repulsa. Ele só parou ali para saber dela. Do contrário, teria passado direto, sem um "bom dia", um "oi" ou qualquer outra palavra. Era sempre assim. Ele não me enxergava, e isso me irritava profundamente.
Miguel não disse mais nada. Seguiu até a porta, entrou e a fechou. Nem um agradecimento, nem um desejo de bom trabalho, nem um olhar no meu rosto. Soltei um suspiro profundo. Meu coração doeu só de imaginar o que os dois fariam lá dentro.
Alguns minutos depois, os dois saíram.
— Estou saindo e não quero ser incomodado! — Miguel ordenou, passando por mim enquanto segurava carinhosamente a mão dela. Mais uma vez, ignorou minha existência.
— Sim, senhor — respondi, mantendo minha máscara profissional.
Assisti aos dois saindo e senti meu coração se despedaçar. Vi que ele não soltou a mão de Celine por um segundo sequer. Apertou o botão do elevador e a ajudou a arrumar a mecha solta do cabelo, acariciando o rosto dela em seguida.
Prendi os punhos com força, cravando as unhas na palma da mão. Minha vontade real era ir até lá e arrancar aquela mulher dos braços dele com socos e pontapés. Ela não merecia o amor do Miguel. Ela nem livre era! Celine More era casada com o maior rival dele, Joseph Sanz, e mesmo assim o Miguel continuava acreditando cegamente nela. Isso não era justo.Tentei afastar esses pensamentos e focar no que importava: o trabalho. Pouco tempo depois, recebi na empresa o magnata do petróleo, Paul Lang. Esse negócio renderia milhões, e Miguel tinha se esforçado muito para conseguir essa reunião.
— Olá, senhor Lang! — Sorri, assumindo o controle. — Bem-vindo à nossa empresa.
— Olá, bela jovem — o homem sorriu, olhando-me de cima a baixo. — Estou lisonjeado em ser recebido por uma beleza tão exótica.
Seus olhos se demoraram nos meus traços j*******s, no meu cabelo longo e na minha postura.
— Muito obrigada, senhor Lang — agradeci, firme e profissional. — O senhor Ruiz está em uma reunião externa de negócios, mas eu mesma posso atendê-lo, se o senhor não se importar.
— Eu me importar por ser atendido por uma bela mulher? Jamais! Ao contrário disso, estou muito bem acompanhado — ele falou animado, checando o relógio de diamantes no pulso. — Então, podemos sair para um almoço de negócios, o que me diz?
— Tudo bem. Aguarde só um minuto que vou buscar os relatórios.
Eu estava sorrindo, fingindo simpatia e postura enquanto fazia meu trabalho — muito bem por sinal — mas só de pensar que o Miguel deveria estar ali, mas preferiu correr o risco de perder um negócio de milhões só para sair com a Celine, me irritava profundamente.
Fomos ao La Petit, o famoso restaurante real. Sentei-me ao lado de Paul em uma mesa reservada, mantendo minha postura estritamente profissional, apesar de todas as investidas e elogios dele.
— Aqui, senhor Lang. Esta é a proposta da empresa para o Resort que o senhor quer investir — mostrei os gráficos, os custos e os modelos arquitetônicos.
— Que belo trabalho, senhorita Zahara — ele avaliou, impressionado. — Estou encantado com a originalidade do desenho.
— Obrigada, senhor. O senhor Ruiz ficará feliz com o reconhecimento. Ele trabalha com muito empenho — respondi com orgulho.
O almoço foi produtivo e fechei todos os acordos preliminares, como sempre fazia nas ausências dele. No entanto, o destino pode ser c***l. Miguel também estava no mesmo restaurante. Após o encontro deles, ele havia levado Celine para almoçar ali. Na saída, ele avistou Paul Lang de longe e se aproximou.
— Que surpresa encontrá-los aqui — a voz de Miguel ecoou, fria e cortante, assim que ele parou ao lado da nossa mesa.
— Senhor Ruiz — o homem o cumprimenta com um sorriso — que coincidência! — Paul Lang fala alegremente.
— Senhor Lang — Miguel se senta à mesa — eu quero me desculpar por não recebê-lo pessoalmente hoje. — Miguel olha para o homem.
— Miguel, vamos nos tratar amigavelmente, sem formalidades. Além do mais, não precisa se desculpar de maneira alguma — ele desvia o olhar para mim — eu tive uma companhia muito agradável para o almoço — sorri satisfeito — agradável e extremamente bonita.
Paul Lang não esconde o interesse em mim. E isso me incomodou muito, mas eu apenas sorri e mantive minha expressão simpática e profissional.
— É mesmo! — Miguel estreita os olhos — Eu fico feliz que minha secretária o atendeu tão bem.
Só pela resposta, percebi que que Miguel já notou o interesse do homem, mas ele não mostrou nada, nenhum incômodo. É como se eu não fosse nada além da secretária da empresa, como um móvel qualquer.
— Muito bem — Paul responde com convicção — ela é muito competente. É claro que eu gostaria que ela fosse um pouco menos formal, ela trata tudo com muita seriedade — ri.
— É, ela trata o trabalho com muita seriedade — Miguel responde, olhando para mim enquanto permaneço calada — por isso eu deixo reuniões assim para ela tratar na minha ausência. — Miguel olha de volta para Paul, que continua a me encarar.
— Bom, eu ficaria muito feliz se a senhorita Haruno aceitasse jantar comigo qualquer dia — o homem cruza as mãos sobre a mesa e olha para o meu chefe — Você não se importaria, não é mesmo, Miguel?
Sentada à esquerda, olho para Miguel esperando uma resposta negativa. Ele deveria se importar, não é? Mas a resposta que ouço faz meu coração doer. Ele realmente não está nem aí para mim. Não se importa se esse homem quiser me levar para a cama, afinal, ele notou as segundas intenções de Paul e mesmo assim continuou sorrindo.
— É claro que não, Paul. O que minha secretária faz em suas horas de folga não é problema meu. — Miguel nem sequer me olhou.
Sei que ele está interessado apenas nos lucros que esse negócio vai trazer para a empresa. Se Paul Lang vai investir milhões no acordo, usar o interesse dele em mim para convencê-lo não é um problema para Miguel. Paul me olha novamente, e eu forço um sorriso gentil.
— Então, senhorita Haruno, podemos sair para jantar um dia? Eu garanto que não vai se arrepender! — Paul falou com a voz carregada de segundas intenções.
— Nós podemos sim, senhor Lang — respondi.
Depois de ver a intenção de Miguel em lucrar com o interesse do homem, decidi não recusar. Já que ele não está nem aí, por que eu deveria me importar? Além do mais, Paul Lang é um homem bonito, elegante e muito, muito rico. Deve ser divertido ser mimada por alguém assim. Logo após dar minha resposta, pedi licença e me afastei da mesa.
Quando retornei, percebi que a atenção de Paul se voltou imediatamente para mim. Olhei para Miguel e vi que ele parecia muito confortável ao me ver retribuindo o sorriso cheio de interesse do outro homem. Isso doeu. Doeu muito mesmo.