Luz nеgrα

938 Palavras
Endi lembrou das brincadeiras infantis, escondiam mensagens um para o outro com canetas de tinta transparente, as mensagens só podiam ser lidas em luz nеgrα, as vezes escreviam nas roupas, outras nos móveis, mas a maioria das vezes, em papeis que deixavam escondidos em algum lugar para que o outro encontrasse. Já não tinha mais as canetas com luz nеgrα e tinta invisível, deixou para trás como tantas outras coisas da infância. Mel havia arrumado as coisas que a mãe levou para ele na primeira visita, lembrava de observar o cuidado com que cada coisa foi embalada, a última edição de One Piece que tinham lido juntos, foi no mesmo dia em que conheceu Clara, a vida deles tinha mudado radicalmente desde aquela tarde, ainda assim, era uma memória boa, leram juntos no quarto da garota, sentados no chão. Já não era mais um adolescente, tinha se tornado um advogado respeitado, tanto pela eficiência, quanto pela força de caráter, mas ainda se lembrava de Mel e de tudo o que faziam juntos. Endi se sentou com o durex e a caneta azul permanente, por sorte sabia como fazer luz nеgrα, a cada camada de durex, passava apressado a caneta marcador, achou que cinco camadas seriam o suficiente, apagou as luzes do quarto, fechou a cortina e direcionou o flash do celular para o papel. Conforme as palavras foram brilhando no papel, fragmentadas e apagadas como foram todos os dias desde a pior noite da vida de Endi, a saudade que tinha da menina ficava maior. “Oi, como você está? Eu não sei se é assim que a gente escreve uma carta e nem pode rir de mim porque seria mais fácil mandar um whats. Talvez eu mande também. Bom, vou começar de novo, eu não estou bem, sinto a sua falta, e nem começa a dizer que sabia, aliás acho que fez de propósito né? Precisava sumir? Eu sei, eu sei, fui uma mimadinha como me xingava, não devia ter falado que você é um crianção. Sabe, eu não gosto de ser adulta, podia voltar para gente ser tipo dois crianções para sempre. Desculpa, Endi, eu não devia ter te afastado por causa de um cara, você nunca fez isso comigo, mesmo quando estava namorando a minha irmã nunca me excluiu, fui mimada, vou aceitar você dizer isso e nunca mais vou puxar o seu cabelo quando falar que eu sou a princesinha mimada do condomínio. Aconteceu uma coisa, vai ficar bravo comigo, você estava certo, Endi, ele não é legal, é muito...muito mαl. Será que eu posso te visitar? Meu pai e minha mãe brigaram, está um saco aqui, tudo mudou, eu mudei. Ah, quer saber, deixa, você é bobo, nem vai lembrar dessa caneta, mas se um dia ler, se tiver tempo, se lembrar e descobrir, pode ignorar todo o resto, só queria dizer que sinto a sua falta, gosto de você igual o brilho das estrelas que mesmo quando morrem continuam a brilhar.” Mel - Também sinto sua falta, miminho. Pegou a chave do carro e saiu do orfanato, o telefone tocando insistentemente, ignorou algumas vezes até que virou o volante para o acostamento e atendeu. - Fala Vick, quem morreu? p***a! A italiana se sentiu ofendida, nunca tinha sido tratada daquela forma pelo noivo, apesar de tudo gostava de Endi, da companhia, do cuidado e principalmente do sеxο, a inexperiência do rapaz nunca foi um problema, aliás apesar dela, era melhor do que a maioria dos rapazes com quem já tinha saído, não ficou apenas por dinheiro, talvez no início, hoje gostava do que tinham construído e não pretendia perder. - Endi, por que está falando assim? O advogado respirou fundo, também não tinha aquela resposta. - Desculpa, baixinha, estou com pressa. Precisa de alguma coisa? - Bloqueei o seu cartão, desculpa, acho que digitei a senha errada. Endi sabia o porquê o cartão estava bloqueado, havia feito essa solicitação ao gerente. Valores acima de cem mil precisavam de uma confirmação que era enviada para o celular dele. - O que precisa? Não tenho tempo para resolver isso agora, mas posso transferir dinheiro para as despesas. Quanto? Vick ficou constrangida, não sabia como responder aquela pergunta, estava pagando uma dívida do pai que ultrapassava os duzentos e cinquenta mil. - Não, nada, eu tenho dinheiro. Realmente tinha, além do que recebia pelos plantões no hospital, Endi fazia depósitos na conta pessoal da noiva, ele não tinha gastos, o pai ainda arcava com praticamente tudo. Vick tinha o dinheiro que os pais precisavam, só não queria usar. - Tá, depois eu ligo no banco. Tchau - Hei? Não está com saudade? Tentou fugir da resposta, detestava mentiras, mas sabia que a verdade não era o ideal naquele momento. - Por que essa pergunta agora, Vick? Sério que vai querer brigar por telefone? Fala quanto quer e só me deixa dirigir, estou no meio de uma rodovia, carαlhο. O sinal de que a chamada havia sido encerrada acalmou o coração do advogado, mas pensar em o que faria, o que falaria, como seria rever Mel o deixava ansioso. Encostou no banco do carro e acendeu um cigarro, fechou os olhos e foi como ouvir a voz da amiga. “... ele não é legal, é muito...muito mαl, Endi” Sabia de quem a garota estava falando, se lembrava de cada detalhe daquela noite, de como se sentiu, da sensação de culpa e do que ouviu do responsável pelo infеrnο que viveu desde então. Havia perguntado o porquê e a resposta ainda ecoava na mente do advogado. “Porque ela é importante para você”
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