Assim que encerrou a chamada Vick pegou o primeiro voo para o Brasil, foi aconselhada pela mãe.
- Vai sacrificar a galinha dos ovos de ouro? Aliás, pior, deixar que a roubem de você?
- Mãe, estamos juntos há anos, Endi nunca me traiu, está sendo paranoica.
Apesar da resposta, a frieza do noivo ao telefone ainda a perturbou, decidiu ouvir os conselhos de Stella e embarcar para o Brasil, nunca tinha estado no país, Endi a convidou algumas vezes, mas ela acreditava que não havia nada a ser visto em um país de terceiro mundo.
- Gente suja e crianças doentes, grande turismo.
O noivo nunca respondeu o que pensava quando a ouvia falar daquela forma. Agora Vick se arrependia de ter recusado os convites, pelo menos saberia para onde ir, no entanto acreditou que bastaria ligar, Endi iria buscá-la, sempre foi assim.
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Endi foi recebido com desconfiança por uns e com festa por outros, nem todos o reconheceram, também havia novos soldados, o lugar parecia menor do que conseguia se lembrar. O capô que ainda não sabia do retorno do afilhado, foi o que pareceu mais feliz.
- O bom filho a casa torna! Seja bem-vindo Endi.
O advogado pensou que não estava voltando, só não achou necessário responder, olhou em volta, de todas as pessoas que o cercaram, a única que lhe interessava não estava lá. Continuou procurando, o olhar o denunciou e Ivan como se tivesse lido o pensamento de Endi acabou respondendo.
- Na sua casa.
- Na minha casa?
- Está procurando por Mel, não está? Ela está na sua casa.
Wendell que havia feito o juramento a organização americana ouviu a conversa e não gostou, assim que Endi deu os primeiros passos ele o parou.
- O que quer com ela?
- Sério?
Endi não queria discutir, estava focado em encontrar a amiga, cresceu junto com Mel, a conhecia desde que tinha cinco anos. A menina era filha do chefe e ele por sua vez havia sido adotado por Sombra, o segundo homem no comando, ela tinha pouco mais de um ano quando começaram a amizade que durou por anos, dia após dia, até que Jin destruísse tudo como por uma mαldição, o filho do subchefe não sabia o que queria falar com Mel, mas sabia que queria vê-la, queria muito.
- Sério, sim. Acha que porque usa essas roupas de florzinha pode chegar aqui e procurar pela minha mina sem me dar satisfação?
Ivan entrou no meio, sabia que Wendell levaria a pior, conhecia o afilhado e apesar das roupas sociais, do cabelo e barbas cortados com perfeição, o olhar frio e distante ainda estava lá e o capô sabia que uma vez que se prova o sangue, a fera que habita todo homem se mantem acordada esperando pela próxima presa e Wendell estava se oferecendo em sacrifício, ainda que sem saber do perigo que corria.
- Chega! Não vai gostar do resultado. Some daqui.
Wendell tentou discutir, mas o olhar do capô o fez desistir.
- Na sua casa, Endi, ela passa o dia inteiro lá.
Desde que Mel parou de trabalhar com Júlia ela havia quase que assumido o cuidado com a casa da madrinha, limpava o lugar, preparava as refeições, colocava as roupas para lavar e depois passava o restante do dia estudando no quarto de Endi. O subchefe nunca mexeu no quarto filho, esperava que ele voltasse para casa e queria que o rapaz soubesse que era bem-vindo, que tinha sido aguardado.
O agradecimento foi apenas um leve aceno com a cabeça, achou que pelo menos dessa vez Mel tinha escolhido melhor o namorado, mas ainda não conseguia perdoar a si mesmo pelo passado, desejou que Wendell tivesse continuado, lembrou das atitudes que teve e que afastaram a amiga, durante os anos em que ficou fora, refletiu muito sobre isso, pensou que poderia ter sido mais inteligente e menos reativo, a maturidade tem seu bônus, seguiu o caminho até a própria casa e esqueceu a fúria que sentiu.
O caminho era isolado, cercado de verde, o cheiro de terra molhada parecia ainda melhor do que se lembrava. Parou na árvore que ele e Mel haviam gravado os nomes, ainda estava lá, passou a mão no tronco.
- Eu não tava lá.