Eu li a sua carta, Mel

979 Palavras
Pensou em desistir, tudo parecia ter encontrado o seu lugar, ele se casaria com Vick no próximo mês, tinham planos, uma casa comprada e empregos garantidos, pelo que entendeu da conversa com Wendell, a filha de Ivan estava namorando e o rapaz parecia apaixonado o bastante para protegê-la. Mas a vontade de pelo menos olhar para o rosto de Mel, mesmo que última vez era maior do que a racionalidade. Entrou em casa devagar, como sempre ainda não trancavam as portas, subiu as escadas pensando no que falar, em como a encontraria, se ainda tinha o mesmo rosto, se iria ficar feliz... - Oi, Foi tudo o que conseguiu falar, ver Mel sentada na mesma escrivaninha que dividiram no passado foi como assistir a um filme, ouvir as risadas que davam juntos, os jogos de futebol, o jeito como ela corria para trás dele sempre que um moleque a provocava. Ela levantou a cabeça do livro e encontrou outra pessoa, demorou até associar o rosto do homem ao de Endi, tudo estava diferente, a pele antes lisa tinha ganhado uma barba espessa, os cabelos longos dado lugar a um corte social, a bermuda e regata substituídos por um terno feito sob medida, mas os olhos ainda eram os mesmos. - Quem... que... Endi? - Sou eu miminho A menina se atirou nos braços do amigo como se estivesse perdida a muito tempo e finalmente tivesse encontrado um abrigo, chorou e nem mesmo sabia o porquê, sentiu o corpo todo ser tomado por um tipo de onda elétrica, a barriga doeu e gelou ao mesmo tempo, mas não o soltou. - Não gostei do seu cabelo - Eu li a sua carta Mel - Por que demorou tanto? - Já inventaram o telefone, sabia? - Crianção! - Mimada! Brincaram, mas Endi não a soltou, não queria, para ele foi como estar completo de novo. - Está me sufocando - Aguenta, não vou te soltar. Mel também não queria que ele soltasse, nem pretendia renunciar àquele abraço, mas foram interrompidos por Wendell, o rapaz sabia onde encontrar a garota, apesar de ser a primeira vez que teve coragem de entrar, todas as outras vezes chamava pela menina da porta, nem sempre era atendido, outras ela aparecia na janela e o mandava embora, naquela manhã ele entrou. - Solta ela! - Seu namorado é um chato! Falou olhando para o rosto molhado de Mel e ela reagiu quase que instantaneamente. - Ele não é meu namorado! - Hum, interessante Falou a soltando e pensando que nesse caso não tinha nenhum motivo para aguentar as provocações calado. Wendell deu um passo para trás quando viu o sorriso de Endi, parecia uma mistura de frieza e loucura que o fez ter medo, apesar disso sabia que se fugisse perderia qualquer chance com a garota e namorar Mel tinha bônus além da beleza delicada que ela trazia, apesar da idade ela nunca tinha sido vista com nenhum rapaz, era tímida, pacata e quem se casasse com ela também herdaria o comando da organização, não pretendia desistir. - Só quero saber se está bem, Mel. Wendell falou olhando para a filha de Ivan, tentando algum apoio. - Eu cuido disso de agora em diante. Endi respondeu com o instinto, apesar de não pretender ficar no Brasil. - Você nunca cuidou de nada, nunca esteve aqui, não é nada para mim. Wendell conhecia todas as histórias de Endi, cada uma delas, as ouviu da boca de Mel centenas de vezes, era o único assunto que ela aceitava e esquecia das fugas, então sempre aceitou. - E você? Que esqueceu de contar para ela que estão namorando? Estou aqui agora e não vai gostar de brincar comigo. Mel gostava de Wendell, era divertido, inteligente e protetor, pensou em parar Endi, mas foi como se estivesse de volta na sala de casa e protegesse Jin. A pessoa que ela defendeu de Endi tantas vezes foi a mesma que a atacou, manipulou e enganou, a feriu de uma forma que ela ainda tentava se curar, se sentia envergonhada, suja, apavorada e tinha sido o seu prêmio por ajudar. Passou direto por Wendell e olhou para o amigo. - Vou fazer suco e tem o pudim da sua mãe. Te espero lá embaixo, não demora, estou com saudade. Wendell tentou segurar a mão de Mel, mas ela desviou e desceu, não devia nada ao rapaz e ele escolheu entrar na casa de Sombra. Endi olhou para o oponente e deu outro sorriso. - Enfim a sós com a florzinha, acho que é sua chance de me colocar no meu lugar. - Não vou brigar com você, não aqui. - Boa! Excelente escolha. Então... Terminou a frase indicando o caminho para fora de seu quarto. Deixou que o rapaz descesse primeiro, quis saber o que Wendell falaria com Mel, mas não ouviu nada, observou pela janela o rival se afastar da casa em seguida. Olhou em volta, tudo estava exatamente como deixou, exceto por um caderno cor de rosa em sua escrivaninha. Abriu e já na primeira página percebeu ser uma espécie de diário, fechou em seguida, nunca foi afeito a quebra de privacidade, achava que todos precisam de pelo menos um espaço que seja só seu e pelo que entendeu, aquele quarto e o caderno rosa tinham se tornado o lugar da amiga. - Trouxe a sua bala Há muito tempo, Mel não chupava mais aquelas balas, ainda assim gostou de dividi-las com Endi. E ele, assim que sentiu o sabor olhou para os lábios da garota, sentiu a boca salivar com a ideia de que o beijo de Mel tivesse aquele gosto. Sempre a achou linda, quase como se visse um anjo todos os dias, o sorriso doce, a voz suave, os cabelos em ondas douradas, mas o que sentiu ao pensar em Mel foi muito além daquela admiração infantil.
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