Pensou em desistir, tudo parecia ter encontrado o seu lugar, ele se casaria com Vick no próximo mês, tinham planos, uma casa comprada e empregos garantidos, pelo que entendeu da conversa com Wendell, a filha de Ivan estava namorando e o rapaz parecia apaixonado o bastante para protegê-la.
Mas a vontade de pelo menos olhar para o rosto de Mel, mesmo que última vez era maior do que a racionalidade.
Entrou em casa devagar, como sempre ainda não trancavam as portas, subiu as escadas pensando no que falar, em como a encontraria, se ainda tinha o mesmo rosto, se iria ficar feliz...
- Oi,
Foi tudo o que conseguiu falar, ver Mel sentada na mesma escrivaninha que dividiram no passado foi como assistir a um filme, ouvir as risadas que davam juntos, os jogos de futebol, o jeito como ela corria para trás dele sempre que um moleque a provocava.
Ela levantou a cabeça do livro e encontrou outra pessoa, demorou até associar o rosto do homem ao de Endi, tudo estava diferente, a pele antes lisa tinha ganhado uma barba espessa, os cabelos longos dado lugar a um corte social, a bermuda e regata substituídos por um terno feito sob medida, mas os olhos ainda eram os mesmos.
- Quem... que... Endi?
- Sou eu miminho
A menina se atirou nos braços do amigo como se estivesse perdida a muito tempo e finalmente tivesse encontrado um abrigo, chorou e nem mesmo sabia o porquê, sentiu o corpo todo ser tomado por um tipo de onda elétrica, a barriga doeu e gelou ao mesmo tempo, mas não o soltou.
- Não gostei do seu cabelo
- Eu li a sua carta Mel
- Por que demorou tanto?
- Já inventaram o telefone, sabia?
- Crianção!
- Mimada!
Brincaram, mas Endi não a soltou, não queria, para ele foi como estar completo de novo.
- Está me sufocando
- Aguenta, não vou te soltar.
Mel também não queria que ele soltasse, nem pretendia renunciar àquele abraço, mas foram interrompidos por Wendell, o rapaz sabia onde encontrar a garota, apesar de ser a primeira vez que teve coragem de entrar, todas as outras vezes chamava pela menina da porta, nem sempre era atendido, outras ela aparecia na janela e o mandava embora, naquela manhã ele entrou.
- Solta ela!
- Seu namorado é um chato!
Falou olhando para o rosto molhado de Mel e ela reagiu quase que instantaneamente.
- Ele não é meu namorado!
- Hum, interessante
Falou a soltando e pensando que nesse caso não tinha nenhum motivo para aguentar as provocações calado.
Wendell deu um passo para trás quando viu o sorriso de Endi, parecia uma mistura de frieza e loucura que o fez ter medo, apesar disso sabia que se fugisse perderia qualquer chance com a garota e namorar Mel tinha bônus além da beleza delicada que ela trazia, apesar da idade ela nunca tinha sido vista com nenhum rapaz, era tímida, pacata e quem se casasse com ela também herdaria o comando da organização, não pretendia desistir.
- Só quero saber se está bem, Mel.
Wendell falou olhando para a filha de Ivan, tentando algum apoio.
- Eu cuido disso de agora em diante.
Endi respondeu com o instinto, apesar de não pretender ficar no Brasil.
- Você nunca cuidou de nada, nunca esteve aqui, não é nada para mim.
Wendell conhecia todas as histórias de Endi, cada uma delas, as ouviu da boca de Mel centenas de vezes, era o único assunto que ela aceitava e esquecia das fugas, então sempre aceitou.
- E você? Que esqueceu de contar para ela que estão namorando? Estou aqui agora e não vai gostar de brincar comigo.
Mel gostava de Wendell, era divertido, inteligente e protetor, pensou em parar Endi, mas foi como se estivesse de volta na sala de casa e protegesse Jin. A pessoa que ela defendeu de Endi tantas vezes foi a mesma que a atacou, manipulou e enganou, a feriu de uma forma que ela ainda tentava se curar, se sentia envergonhada, suja, apavorada e tinha sido o seu prêmio por ajudar. Passou direto por Wendell e olhou para o amigo.
- Vou fazer suco e tem o pudim da sua mãe. Te espero lá embaixo, não demora, estou com saudade.
Wendell tentou segurar a mão de Mel, mas ela desviou e desceu, não devia nada ao rapaz e ele escolheu entrar na casa de Sombra.
Endi olhou para o oponente e deu outro sorriso.
- Enfim a sós com a florzinha, acho que é sua chance de me colocar no meu lugar.
- Não vou brigar com você, não aqui.
- Boa! Excelente escolha. Então...
Terminou a frase indicando o caminho para fora de seu quarto.
Deixou que o rapaz descesse primeiro, quis saber o que Wendell falaria com Mel, mas não ouviu nada, observou pela janela o rival se afastar da casa em seguida. Olhou em volta, tudo estava exatamente como deixou, exceto por um caderno cor de rosa em sua escrivaninha. Abriu e já na primeira página percebeu ser uma espécie de diário, fechou em seguida, nunca foi afeito a quebra de privacidade, achava que todos precisam de pelo menos um espaço que seja só seu e pelo que entendeu, aquele quarto e o caderno rosa tinham se tornado o lugar da amiga.
- Trouxe a sua bala
Há muito tempo, Mel não chupava mais aquelas balas, ainda assim gostou de dividi-las com Endi.
E ele, assim que sentiu o sabor olhou para os lábios da garota, sentiu a boca salivar com a ideia de que o beijo de Mel tivesse aquele gosto. Sempre a achou linda, quase como se visse um anjo todos os dias, o sorriso doce, a voz suave, os cabelos em ondas douradas, mas o que sentiu ao pensar em Mel foi muito além daquela admiração infantil.