A campainha toca e apesar de estar próxima a porta, eu não sinto a menor vontade de seguir até a mesma, porém, levando em consideração o fato de eu estar sozinha, não me restam opções. Levanto-me preguiçosamente do sofá cinza aveludado e ando, praticamente me arrastando até a porta, abrindo-a e me surpreendendo com a inesperada visita.
O loiro com a cabeça baixa e vestes escuras mantêm seu corpo rígido e seu antebraço direito apoiado sobre o batente da porta do lado de fora. Seu rosto rapidamente se ergue e ao me olhar a expressão relaxada torna-se séria.
– Oi. - a simples palavra salta de maneira indesejada de seus lábios.
– Oi. - respondo. – O que faz aqui? - Peter não responde, ele retira o seu aparelho celular do bolso direito do seu jeans escuro e desliza seus dedos entre os aplicativos.
– Você não recebeu a mensagem. - que mensagem? Franzo a minha testa e recolho o meu celular semelhante ao de Peter, exceto pela cor. Há uma mensagem pendente de um número desconhecido.
– Os testes são no final desse mês. - ele adianta.
Desbloqueio o celular por completo e leio a mensagem:
"Caros, alunos! Os testes para os papeis de Romeu e Julieta ocorreram na sexta feira, dia 19, no último sinal da escola. Reúnam-se com seu par e ensaiem. Agradecida, Lilian!"
– Droga. - murmuro. Afasto-me da porta dando espaço para Peter. – Entra aí. - após mandar, Peter obedece pianinho, enfiando suas mãos e o seu celular de volta nos bolsos.
Noto seu olhar massacrante em mim durante todo esse seu curto trajeto, fecho a porta e abaixo o olhar encarando o pijama de seda rosa da qual uso. Está de noite, eu pretendia dormir cedo esta noite, mas pelo visto não é bem o que vai acontecer.
– Onde está a Louise? - ele pergunta, não entendo o porquê de sua pergunta.
– Está com o seu irmão. - passo a língua nos meus lábios e recebo um olhar repreendedor de Peter.
– Eric não é meu irmão. - repete. Fecho a porta e reviro os olhos.
– Tanto faz. - sussurro. Olho pros meus pés observando bem os esmaltes vermelho nas minhas unhas. – Quer comer alguma coisa? Beber algo antes da gente começar? - pergunto, tentando ao máximo ser gentil.
– Para falar a verdade, eu pedi pizza. - arregalo meus olhos, como assim ele pediu pizza? – Ué, não me olha assim não. A pizza era para mim e para Amélia, mas ai nós recebemos as mensagens e ela foi para a casa do Tom e eu liguei de volta pedindo para entregarem aqui. - explica. Não havia muita diferença, Peter mora na frente da minha casa.
– Você vai pagar. - sou direta. Ele bufa irritado.
– Que seja. - responde sem o menor interesse em mim e naquele assunto.
Passo do lado do Roux seguindo para o escritório do meu pai, me lembro vagamente de ter deixado as falas da peça lá quando eu fiz o teste e ensaiei junto com David as minhas e as falas dele. Peter me segue, eu ouço seus passos sobre o piso límpido. Toco a maçaneta da porta, posteriormente abrindo-a e entrando sem imprudência alguma.
Recolho o meu papel depositado em cima da mesa, viro meu rosto e Peter já tem o seu papel em mãos, eu deduzo que ele o tivesse tirado de seu bolso. Ele me olha e espera que eu diga alguma coisa, mas eu não sei bem por onde começar.
– Vamos começar pela cena VII. - após dizer, Peter vira suas folhas indo exatamente ao número de algarismo romano que acabo de citar.
Ele para por alguns segundos, lê o seu papel e respira fundo. Eu faço o mesmo, virando as minhas folhas e indo exatamente a página descrita.
– Posso ter a honra? - Peter inicia seu texto. Ele franze o cenho, mas brevemente prossegue: – Se profano for tocar este santo relicário. - ele sorri, achando graça do linguajar. Eu permaneço séria. – Espero que com meus lábios possa suavizar este rude contato com um terno beijo. - para de ler e me olha.
– As santas tem mãos que são tocadas pelos peregrinos. - digo rápido, sem ler o papel.
– Não tem lábios as santas? - seu contato visual comigo não é perdido. Não fazemos exatamente do que as descrições sugerem, apenas seguimos o diálogo.
– Sim, lábios que devem usar na oração. - profano. Peter para por alguns segundos e arrasta a sua língua áspera nos seus lábios rosados e aparentemente macios.
– Então santa adorada, deixar que os lábios façam o que as mãos fazem. - lê o papel branco em suas mãos e pisca repetidas quatro vezes.
– As santas são imóveis mesmo quando atendem as orações. - Peter sorri de lado, é fraco, porém perceptível.
Passo a mão nos meus cabelos e levo algumas mechas para trás da orelha. Me sento sobre a mesa e balanço meus pés que não tocam o chão. Passo meu braço esquerdo no meu corpo e apoio o meu cotovelo direito sobre o mesmo, mantendo o papel cuidadosamente na altura do meu rosto.
– Então não te movas enquanto recolho o fruto de minhas preces. - abaixo a minha folha e o olho. Ele se mantém na mesma postura. – Assim mediante vossos lábios ficam os meus livres de pecados.
– E assim passaria para os meus o que vossos lábios contraíram.
– Pecado do meus lábios? Então devolvei-me meu pecado. - após dizer, ele abaixa o papel. – E dai a Ama entra e fala essas coisas para você. Isso é ridículo. - diz, saindo totalmente do personagem, mesmo que não estivesse nele em momento algum. – Eu sou um péssimo ator, ela só pode estar louca.
– Nisso eu concordo. - seu olhar se torna furioso sobre mim, mas não me importo. – É verdade, mas eu preciso dessa nota, Peter. Eu sei que para você é besteira, você é um ótimo aluno, não há uma linha em falso se quer no seu histórico escolar, mas eu não. - seu rosto cai e ele fica sem expressões, não sei o que ele pensa, mas não é algo relevante. – Por favor. - praticamente suplico.
Peter bufa, vira-se de costas e passa a mão nos fios dourados da sua cabeça. A campainha toca e ambos sabemos que é a pizza, já que meus pais saíram para jantar e Louise não voltaria tão já com o irmão bastardo de Roux.
– Tudo bem, eu vou me esforçar, mas saiba que tudo isso é uma grande droga. - após dizer, ele sai do escritório.
A breve sensação de desespero ao ouvir as últimas palavras de Lilian dirigidas para mim e para Peter me fez temer qualquer que seja o resultado disso. Eu não quero passar, não quero ter conflitos com Louise, eu devo conversar com ela sobre as decisões da professora antes de qualquer coisa, mas eu tenho minhas ambições, eu pretendo entrar na faculdade e um furo no meu histórico escolar, poderia ferrar todas as minhas oportunidades.
Não chega a ser um exagero. Eu não sou nem um tipo de gênio, mas eu sempre me esforcei para tirar boas notas, sempre pensei grande sobre o meu futuro, eu não quero ficar dependente de ninguém e uma boa faculdade, dedicação e um bom trabalho eram as fontes mais seguras para isso. Espera, talvez seja um exagero, estou colocando todos meus objetivos em cima de uma simples peça de teatro do colegial, mas isso sou eu, eu sou cheia de exageros.
Me levanto da mesa e saio do escritório seguindo o mesmo trajeto que o garoto havia feito. Chego a sala e o observo pagar a pizza e a recolher das mãos entregador de aparentemente pouco mais de vinte e cinco anos. Ele fecha a porta e vira-se olhando para mim e ergue a pizza. Eu sorrio, é a primeira vez essa noite.
– Eu espero que goste de pizza de calabresa e frango. - após dizer, ele faz careta. – Frango é horrível, é a favorita da Amélia, então espero que seja a sua também porque calabresa é minha. - reviro os olhos.
– Eu adoro as duas. - digo. Caminho até o garoto e retiro a pizza de suas mãos, posteriormente indo até a cozinha.
Coloco a caixa quadrada e fina sobre o balcão e retiro dois copos do escorredor colocando-os em cada lado do balcão. Peter se senta a minha frente e rapidamente retira a tampa da caixa fazendo o cheiro maravilhoso da massa quentinha e do queijo derretido subir em forma de vapor preenchendo todo o lugar. Pizza é de longe a minha comida favorita.
– Isso é tudo tão estranho. - murmuro. Peter não parece se focar nas minhas palavras, ele recolhe uma fatia de pizza de calabresa com as mãos e começa a comer, sem esperar por mim.
– O quê? - pergunta, com a boca cheia de pizza.
Caminho até a geladeira, abro a mesma e retiro duas latas de alumínio de dois refrigerantes, um diet, para mim, e um normal, para o Peter. Volto ao balcão e coloco a lata vermelha em sua frente e abro a cinza para mim, posteriormente derramando o líquido preto no meu copo.
– Nós dois estamos jantando juntos na cozinha da minha sala, prestes a ensaiar uma peça onde somos um casal. - ele sorri, sem mostrar os seus dentes.
– Que irônico. - balanço a cabeça negativamente sorrindo também. Pego uma fatia de pizza de frango e começo a comer calmamente. – Isso também é estranho, Lauren Fernández comendo pizza com as mãos. - engulo o que havia na minha boca com certa dificuldade e gargalho.
– Eu faço isso sempre, babaca. - defendo-me. Peter dá de ombros rindo também.
Ele volta a comer assim como eu. Eu passo a gostar da companhia de Peter essa noite, não posso me lembra uma única vez que ele tenha sido rude comigo essa noite, é como se voltássemos ao oitavo ano e eu me recordasse de quando éramos amigos. O que é estranho, Peter afastou-se de mim sem motivo algum, eu nunca soube o porquê, mas também nunca questionei e talvez nunca questionaria.
Ele se apegou ainda mais aos seus amigos Tom e Amélia e eu a Kiara e Klara. No ano seguinte, eu conheci David e todos nós fomos para rumos diferentes, Peter não fazia o tipo de nerd humilhado por todos, mas o nível de inteligência dela era superior ao de qualquer um naquela escola, e eu talvez seja por alguns olhares apenas a namorada do capitão do time de basquete, popular por relacionamento, apenas roupas, sapatos e maquiagem. Não é bem o que eu planejava ser, mas nunca me importei com o que as pessoas pensam de mim.
Peter termina de comer a sua primeira fatia e abre o refrigerante a sua frente, despejando o líquido escuro dentro do copo, que posteriormente ele pega e bebe quase todo. Seus olhos se fecham e ele parece contar os segundos, é estranho e chega a ser engraçado.
– Obrigado. - murmuro. – E me desculpe. - Peter abre seus olhos e ergue sua sobrancelha direita.
– Sobre ambos: por que? - pergunta. Ele pega outra fatia, do mesmo sabor da anterior.
– Obrigada por me ajudar e desculpe pelo ocorrido sobre Eric e Louie. - Peter balança a cabeça positivamente. – E eu não contarei a ninguém que você fuma. - ele ri e lambe as pontas dos seus dedos.
– Mas não é segredo. - diz humorado.
– Vamos fingir que é.
Ouço a porta da sala se abrir, eu e Peter olhamos rapidamente para a sua direção, em segundos ouvimos as gargalhadas de Louie seguidas da de Eric, quando ambos aparecem em nosso campo de visão, seus queixos caem ao nos ver.
– Peter? - Eric pergunta, após soltar-se do abraço da minha irmã. Abaixo a cabeça e suspiro.
– Com a Lauren? - Louie concluí.