Quando olho para o lado, Armin está em silêncio fitando a janela correspondente ao seu lado, e confuso. Franzo as sobrancelhas e aperto seu braço.
— Armando... – sussurro, aflita. Ele se gira e me olha.
— Você tem certeza de que quer vir? – o moreno pergunta baixo. — Esse momento foi tenso. Se você não puder, tudo bem. Não quero forçar a barra, sabe. Desculpas por essa situação. Podemos voltar e arrumar o m*l entendido. – Seus olhos estão vidrosos, ele realmente se sente culpado.
— Não! – exclamo, quase em desespero, num lapso emotivo. — Eu não aguento mais essa vida, você viu? – choramingo, com medo. Ele pode ser mais um que vai sair do meu caminho, por conta dos meus problemas. As memórias da minha ruptura com o Marcos, o falecido, começam a me assombrar. Não quero que a história se repita.
— Eu vi... – Ele segura os meus dois braços e me olha. — Calma, ok. – Sua voz está assustadoramente aflita.
— Olha... – meus olhos começam a brilhar de tristeza. Suspiro profundamente. — É por isso que eu tenho medo de trazer pessoas em casa.
Armando segue em silêncio. Sua falta de reação dura mais alguns segundos, até que sinto um dedo seu no meu rosto, se deslizando por ele lentamente. Ele olha meus olhos vidrosos, com o seu olhar preocupado.
— Eu não disse para você que eu tenho um Pós-Grado em famílias desestruturadas? – Sinto uma lágrima descendo pelo meu olho quando ele acaba de falar. Acho que a emoção por ele não fazer uma tempestade num copo d’água pelo que acaba de acontecer, por ele não ser tão fútil como aparenta. — Eu só estava perguntando se você prefere voltar para casa. A decisão é sua.
— Eu posso confiar em você? – pergunto baixo, envergonhada. Ele assente. — Eu não quero voltar. – Lhe digo, me fazendo de dura, mas meu nariz está tremendo para chorar.
Lendo minhas expressões, Armando me envolve em seus braços nesse carro, me apertando. Começo a molhar a manga da sua camisa e a fungar forte, agarrando um dos seus braços e ficando com a cabeça colada contra o seu peito.
— Ei... – Ele sussurra no meu ouvido, sem nenhuma malícia. — Calma, ok? – ele beija um lado do seu rosto.
— Desculpa. – Sussurro. — Como você pode ver, eu não sou tão interessante assim. O único que eu tenho de bom... É um rosto bonito. – Aperto o choro. Sinto ele acariciar o topo da minha cabeça.
— Isso é mentira. – Ele sussurra.
Suspiro profundamente, me acalmando.
— Você pode confiar em mim. Deixa eu te contar uma coisa... Nós não somos tão diferentes. – Ele diz, calmo. — Daqui para o aeroporto são quarenta minutos. – Ele olha para frente e volta a olhar para baixo.
— Eu sei. – Sussurro.
— Boa garota. Você sabe tantas coisas. – concorda ele, brincalhão.
Dou um risinho triste.
Vejo Armando apertar o botão do vidro do táxi feito para dar mais i********e aos passageiros, quando ele acaba de subir, separando o motorista de nós dois, o moreno começa a falar.
— Eu posso te contar algo triste sobre dois irmãos gêmeos. Uma história para dormir. E então você fica calma... Ok?
Assinto.
— Era uma vez... Uma semente. Melhor dito, um espermatozoide potente, sagaz e vencedor. – Dou um risinho, e Armando abafa outro. — Que foi plantado numa garota de doze anos. – Meu sorriso vai se fechando. — Por um homem de cinquenta. – Assinto de leve, apertando mais o seu braço. — Isso é tudo o que a semente sabe sobre quem a trouxe ao mundo...
— Um... – suspiro baixinho, agarrando seus braços.
— Mas de algum modo, essa semente, como se previsse que estaria sozinha no universo, se dividiu em duas. – Abro um leve sorriso, pensando nele e em André. — Gerou dois frutos de si mesma, duas almas da mesma origem, feitas para que uma cuide da outra, para que não estejam sozinhas no mundo.
— Que lindo... – murmuro, com um tom fofo.
— Não mais do que você, neném. – Ele responde, me arrancando um risinho terno enquanto meu coração bate mais lento. Entrelaço minha mão na sua, com vergonha de olhá-lo nos olhos.
Fico olhando as duas juntas, sentindo sua pele quente, e um conforto no coração que chega a me dar medo.
— Por muito tempo, as duas metades da mesma alma pensaram que só teriam isso na vida. Um ao outro. – Ele vai sussurrando, e acariciando o meu cabelo. — Mas isso não foi verdade. Apesar das pessoas que tentaram destruí-las, houveram outras que ajudaram as duas a crescerem fortes, inabaláveis. E maduras.
— E bem sexys. – Sussurro inocentemente contrastando com o teor pervertido da frase, e Armando ri baixinho do meu comentário, sorrindo.
— Não posso discordar. – Ele pigarreia, me fazendo rir de novo. — As duas almas sexys, enquanto eram pequenas, estavam perdidas. Inclusive tentavam separá-las e, por tanto, deixá-las vazias, sem nada no mundo. Mas elas sempre lutaram com rebeldia pelo que queriam: permanecer juntas. Até que conseguiram. E hoje, pode-se dizer que encontraram um equilíbrio e uma zona de conforto, depois de todo o sofrimento, humilhações e vazio pelo qual passaram.
Beijo sua camisa azul, carinhosamente, na zona do seu pulso, e o agarro mais forte.
— Você tem que fazer o que é melhor para você, baby. Todo mundo acha que sabe o que vai fazer você feliz. O que você deveria fazer e qual caminho trilhar. Todo mundo julga, e ataca sem conhecer, e sem saber o contexto dos outros. Por isso, o que é melhor para você, é só você quem sabe.
— Mas e se eu sentir que não sei? – sussurro, como se estivesse falando sozinha.
— Então isso significa que você tem que descobrir.
Abro um pequeno sorriso.
— Obrigada, Armando. – Digo, docemente.
— E então... Você tem mesmo certeza de que quer viajar comigo, não é... – Ele murmura no meu ouvido, pulando o agradecimento. Certamente por sentir vergonha de quando atua com bondade. Fico involuntariamente arrepiada.
— De todos modos, na segunda-feira é o meu primeiro dia de trabalho. – Sorrio de um jeito enternecido, e sincero.
— Isso é ótimo, linda. Você vai se dar bem. – Ele beija o topo da minha cabeça, me abraçando.
Abro um grande sorriso, enquanto minhas lágrimas secam.
— Obrigada, Armin. Você acha que eu estou errada?
— Seus pais são loucos. Você é solteira, livre, sem filhos. Deveria estar curtindo a vida. – ele responde, com raiva na voz.
Olho pela janela do táxi, agarrando-o, e ladeando um sorriso.
Me sentindo forte.
Olho para cima.
— Apesar desse momento drama... Eu não gostaria que o meu s*x-appeal diminuísse para o senhor. – Falo de um jeito infantil, e sensual. Fico olhando o rosto dele, enquanto sinto o meu queimar.
— Isso é tão impossível que chega a ser ridículo, baby. – Ele sussurra com a voz arrastada. Seu rosto vai chegando perto do meu, nossas línguas e lábios se tocam num beijo intenso, molhado e excitante. Mas curto. Porque estamos em um lugar inapropriado. É, ué. Parece que de repente ligamos para isso. Hehe. Foi tão bom, no entanto, com gostinho de quero mais... Aconteceu de um jeito espontâneo, com química.
— Nós vamos para Paris. – Sorrio amplamente, apertando seus braços várias vezes.
— Legal, não? – ele sorri
— É o máximo! – exclamo, muito empolgada.
Os dois sabemos que estou mudando a vibe propositalmente e de forma repentina, e Armando ajuda.
— Essa é a Lynn que eu conheço. – o moreno dá um risinho gostoso.
O taxista abaixa o vidro que nos separa dele.
— Perdão. – diz o moço. — Já chegamos ao Aeroporto de Barcelona. São trinta euros, por favor.
— Desce, linda. – Diz Armando.
Desço do carro como ele disse, e vou pegar a bagagem, batendo o porta-malas.
— Bom, até logo. – diz o taxista, sorrindo, acenando e entrando de novo no táxi.
— Até logo. – falamos eu e Armando. — E a sua mala? – pergunto para o moreno.
— Eu soquei minhas coisas com as suas. Você não se importa, né? – ele tira a língua para fora e pisca um olho. Rio divertidamente e dou um tapa em suas costas.
— Claro que não. Só me surpreende ter cabido.
— Hahaha. Você sabe que nós homens com duas mudas de roupa e duas meias já temos mais que suficiente. – O moreno segue sorrindo.
— Real.
Armando olha o relógio.
— Vamos, gata. Temos que correr.
— Que horas são?
— Seis e meia. E você já sabe, esse aeroporto é enorme. – Ele abre a sua carteira e tira o meu bilhete para fora, o entregando para mim. Começamos a entrar no lugar, apressados. — Corre! – exclama Armando, rindo.
Depois de driblar vários passos rolantes, chegamos até a fila. Íamos entrando no avião atrás de alguns passageiros, até que Armando para em seco.
— Ih, 8B. Esse é o meu. – Ele se gira para me olhar. Do lado dele há um careca quarentão com cara de poucos amigos. O homem acaba de cruzar os braços para nós dois. Risos. – O moreno coloca sua bagagem de mão na parte de cima.
— A gente vai separado? – faço um biquinho. Olho o meu bilhete e vejo que meu lugar é lá atrás.
— Mhuhm. Foi m*l linda. Mas logo no hotel vamos ficar juntinhos. Ok? Podemos conversar no w******p na viagem. – Ele sorri e abro outro sorrisinho por conta do seu jeito meigo. E safadinho. E paternal.
— São quantas horas? – sussurro.
— Acho que são três. Vai passar rapidinho, eu prometo. – ele pisca um olho e se senta.
Abro um sorrio pequeno e vou para o meu acento.
* * *