— Meu namorado. – Respondo, me girando para olhar o meu padrasto e tentando fechar um pouco a porta por reflexo. Para tentar protegê-lo da vista do Matias, tentar fazer com que o homem não memorize o rosto do Armando em excesso e se possível que nem o reconheça pela rua. Mas acho que meu ato é em vão. Os dois estão se vendo mesmo assim.
O Matias começa a colocar a calça jeans que estava jogada lá na sala desde ontem quando ele chegou de madrugada e deixou sua roupa esparramada, e a apertar o seu cinto. Ele coloca um polo da Lacoste cor de rosa, que gosto horrível, e o seu Rolex de quinze mil euros. Escroto. Fico olhando apreensiva. Ele se levanta, adotando uma postura superior.
— Vai sair? – murmuro para ele.
— Sim... – ele ergue uma sobrancelha, com desprezo. — Vou tomar um café com meu amigo. – “Café”. Meu estômago de embrulha. Tomar um café é um código que ele usa para fazer referência às suas entregas de cocaína, MDMA, e maconha. Tomara que o Armando não se dê conta de quem ele é. Digamos que meu padrasto é um tanto famoso em Barcelona. Ele já foi preso por alguns crimes no passado, e não são poucas as pessoas que sabem com o que ele mexe.
E agora você deve estar se perguntando... Por que a polícia não faz nada? Por quê ele não vai preso? Hm. Isso eu também não sei, meu amor.
— Entra aí, molequinho. Fica à vontade. – Matias dá um risinho sacana, pondo um tom mais grave de propósito. Como eu odeio esse cara. Seu sarcasmo não me dá nenhuma boa vibração. Ele está sendo simpático com o Armin apenas para bisbilhotá-lo e para ver se ele, meu novo “namorado” não supõe nenhum perigo para seus planos. Ou seja, se o garoto não sabe o que ele faz da vida, e se não pretende atrapalhar o meu emprego de babá e Cinderela. — Como é seu nome? – Meu padrasto se adianta. Vejo a sombra da minha mãe no corredor, ela estava pelada, mas voltou para por uma roupa, parece. — Coloca essas florezinhas do 1,99 numa água. – Diz Matias, ladeando um sorriso. Ele se aproxima de Armando e toca-lhe o ombro. — Como é seu nome?
— Armando. – Responde o moreno, entrando.
— Sente. Fique à vontade! – Matias dá outra gargalhada sombria, tentando ganhar a confiança do Armin para arrancar a informação que quer dele. — Vocês iam sair também?
— Sim. – Digo, assentindo. — S-só um pouco... – Minha mãe chega neste momento, vestida sexy até demais, com um grande decote que faz os seus s***s XXXL ficarem evidentes. Que vergonha. Armando a olha e arregala um pouco os olhos. Deve estar achando a minha mãe muito bonita, claro. Alguns acham ela até mais bonita que eu.
— Olá! – ela diz, sorrindo. E o cumprimenta com dois beijos. — Fica à vontade. – Que tensão. — Você não disse nada que ele viria, Malvina! – ela zanga comigo, franzindo as sobrancelhas. — Se soubéssemos teríamos preparado algo. – Minha mãe se justifica.
— Poderíamos jantar todos na Chalana um dia desses e nos conhecermos melhor. – diz Matias. Chalana é o restaurante mais caro da cidade.
— Hm, claro! – Armando abre um sorriso falso. — Foi culpa minha. Eu não avisei. – Ele responde para minha mãe. — Temos autorização para dar uma saída, dona Fonseca? Ir um pouco no cinema, e essas coisas.
— Ah, claro que sim... – diz minha mãe. — Mas que hora você vem, Lynn?
Armando me olha.
— Blé. Deixa os garotos se divertirem um pouco, megera. – Interrompe meu padrasto, olhando minha mãe com o seu tom de voz sempre zombado e desleixado.
— Você viu como esse daí me trata, Armando?! – minha mãe franze as sobrancelhas.
Só quero que isso acabe logo e bem.
Armando solta um risinho sem graça, já que a Eduarda acaba de colocá-lo numa situação complicada, fazendo-lhe se posicionar do lado dela ou do meu padrasto.
— E o senhorito vem que horas? E vai onde? Com quem? – ela pergunta para meu padrasto, adotando o mesmo tom zombeteiro que ele usa para conversar com ela.
— Negócios. – Ele responde, seco e sacana. Logo dá alguns risos abafados e sarcásticos. Não se despede, como sempre, apenas nos joga um olhar prepotente e bate a porta, com o corpo muito erguido e sem olhar para trás.
Não sei se você quer saber como esse nojento é, mas farei uma descrição breve. Ele tem a pele morena queimada de sol, cabelos castanhos bem escuros, como seus olhos, e anda sempre com um r**o de cavalo prendendo seus fios longos. É forte, corpulento, pesa quase noventa quilos de puro músculo, mas não passa de 1,70cm.
— Então, mãe... – murmuro. — Eu já estou indo. – Me aproximo dela para me despedir, tentando aparentar para o Armando que somos normais. Vejo sua expressão séria e seca e me afasto um pouco ficando descolocada. Mudo de estratégia e seguro o braço do Armando, indo em direção à porta aos poucos.
— Será que você pode esperar eu ir ver o que ele foi fazer? – diz Eduarda, cruzando os braços e pondo uma expressão chorosa.
— É... Mãe! Nós marcamos com mais pessoas! – franzo as sobrancelhas e entrelaço a mão com a dele, a apertando.
O ato involuntário que eu fiz de forma inconsciente, para conseguir proteção, acaba atraindo a vista dela.
A casa está tão bagunçada que quero sumir. Não é um ambiente acolhedor e a energia da casa não convida a ficar à vontade. A xícara de café? O bule de chá com bolachas? Um mísero copo de água? Nada disso foi oferecido até agora, e não me surpreende.
Ela fica pensativa algum tempo, guardando rancor dentro de si. Logo nos olha, ladeando um sorriso, cheia de veneno.
— Vocês namoram há quanto tempo? – ela pergunta. — Hmmm.... Você é lindo, em? De onde você tirou esse Deus grego, Lynn? – ela diz, paquerando-o, me deixando vermelha, roxa e azul. Armando abre um sorriso tímido.
— Obrigado. Hm... – ele coça um pouco o rosto, descolocado. — Já tem um tempinho. Estudo Desenho Gráfico com a Lynn. – Armando sorri e mostra os dentes lindos dele, deixando a minha mãe, que é obcecada com dentes perfeitos – e qualquer outra coisa superficial – encabulada. — A senhora vai ir trabalhar hoje? – ele pergunta, ardilosamente.
Merda.
Agora ele pegou no ponto fraco da “dona Fonseca”. Ela não trabalha e é uma desocupada, mas ninguém precisa saber disso.
— Não. – Ela responde, descolocada, levando a pergunta para o lado pessoal.
— Que bom! Nós estamos saindo, pois hoje é nosso aniversário de namoro. E tenho reservas para um resort esse fim de semana. Domingo a Lynn está aqui sã e salva. Não se preocupe. – Ele pisca um olho. Dessa vez é ele quem aperta a minha mão mais forte.
— Mas por que você escondeu esse namoro de mim?! – ela me olha, fazendo drama, tentando meter merda, pensando que o Armando vai ficar ofendido por eu tê-lo escondido dela, manipulando a situação, tentando estragar meu rolo.
Fico em silêncio.
— Em? – Eduarda pergunta mais alto e junto as sobrancelhas. Ela está caçando um motivo para me castigar.
— Ela tinha medo de vocês não deixarem ela namorar. – Armando responde firme e rápido, captando as energias do ambiente.
— Em?! – Minha mãe exclama, falsamente chocada. — Mas a Malvina Lynn tem liberdade para tudo! Que garota louca! – a mulher, nervosa, começa a arrumar a sala, catando os lixos que estão espalhados por ela, agachando com a b***a para cima, me deixando corada enquanto abaixo os olhos, com vergonha do Armando.
— Por certo... Você já trabalha? – ela pergunta para o moreno.
— Mãe! – chamo sua atenção, tentando fazer com que ela não me humilhe mais ainda. Não quero que ela fale de dinheiro com ele.
Acredito que hoje em dia os homens não estão obrigados a sustentar uma mulher. Nós podemos nos valer por nós mesmas e estar com quem nos faz feliz, em vez de namorarmos ou casarmos por interesse. E é assim que a maioria dos jovens da minha idade pensam.
Pois os tempos mudaram!
— Não. "Mãe", não! – Ela grita. — Eu tenho que saber com que tipo de rapaz você está, filha! Você sabia que a Malvina tem que ajudar em casa? – ela diz, atacando. — Se você for um pé rapado maconheiro desses, eu não quero você com minha filha! – ela se ergue, apontando o indicador para cima, se fazendo de protetora.
Quero morrer.
Armando fica descolocado.
— No momen... – aperto o braço do Armin, quase unhando ele.
— Deixa, vamos embora! – exclamo, aflita, puxando-o pelo braço, com raiva corroendo meu corpo.
Nem falando para essa mulher que temos uma reserva e que é nosso aniversário de namoro ela deixa o egoísmo de lado.
O Armando é estudante como eu. Não um velho rico, gordo e nojento. Nem um mafioso que maltrata a mulher, como certa pessoa. Como ela pode ser tão hipócrita e cabeça de bagre?
Ela vai até a cozinha com o lixo que recolheu e com o meu buquê, sem nem pedir com licença.
— Tchau, Duda! Até domingo. – Exclamo, abrindo a porta e enfiando a chave do lado de fora desajeitadamente.
— Até domingo?! – A escuto desde a cozinha. — Vai, vai! Saiam logo! Vê se vocês não morrem de overdose! Seus irresponsáveis! – ela grita e escuto como o buquê cai na pia, balançando uma montanha de pratos sujos.
Do lado de fora do apartamento ainda dá para escutar ela me xingando, apesar de ser impossível entender do quê. Meu irmão acaba de começar a chorar. Ela vai ter que ir atendê-lo. Mas eu tenho certeza de que ela ainda pode vir atrás de nós e tentar estragar o nosso programa.
— Vamos logo! – exclamo, aflita para o Armando, com isso em mente. Puxo a porta das escadas para não pegar o elevador e começo a descer com tudo. Ele faz o mesmo atrás de mim, com uma cara chocada.
— Ei! – Escuto a voz dela desde o 4° andar, quando estamos quase no último, chegando no térreo. Foi como eu previa. Ela não se deu por vencida. Começo a ligar para um táxi no meu celular. Ouço como ela chama o elevador.
— Um táxi na Plaza de Toros, rápido. – Peço aflita, no telefone.
— Número?! – pergunta a atendente.
— Na frente do banco La Caixa, por favor! – Informo este endereço, pois é preciso atravessar a rua. Assim o táxi não para na frente de casa, e não corro o risco dela me arrancar de dentro dele pelos cabelos.
— Já está a caminho. – Informa a mulher.
Abro o portal rapidamente e saio desvairada para o passeio.
— Espera, Lynn! A mala! – diz Armando. Olho para trás e vejo ele conversando com Iván, o porteiro, com quem o moreno havia deixado os meus pertences, dando-me conta desta informação nesse lapso de segundo.
Atravesso a rua e vou para frente do banco. Ainda bem que os táxis são muito rápidos. Vejo o carro branco aproximando-se e aceno desesperadamente para o motorista. Ele me nota e vem freando até parar na minha frente. Entro no banco de trás, enquanto vejo Armando atravessando a rua no meio dos carros, todo louco, carregando a mala pela alça.
O moreno vai no porta-malas, o abre, enfia a bagagem lá dentro e entra do meu lado no carro, quase pulando pra dentro, fechando a porta com uma batida violenta pelo nervosismo.
— Para o aeroporto de Barcelona. – Digo ao taxista, franzindo minhas sobrancelhas. Giro a cabeça para olhar para a rua do meu prédio, e encontro o que eu já previa.
— Seus filhos de uma p**a!
Leio o grito agressivo da minha mãe, que está encolhida e com os braços para trás, descarregando toda a má vibração da sua raiva, denotada pelas veias do seu pescoço que chegam a saltar, e pela careta de ódio que deformou todo o seu rosto bonito.
Horripilante.