Fugindo I

1016 Palavras
Uma semana depois.  Acordo com o meu celular tocando e o atendo. — Sim? – digo, me levantando e esfregando o meu rosto. — Sou eu, Lynn. Armando, Armin, Arma. O que você preferir. — Armin? – dou um leve risinho, acabo me lembrando de que o André alguma vez o chamou dessa forma. — De onde vem esse nome? — É só um apelidinho de malandro. Eu sou o Armin, meu amigo Pedro é o Peter, o Juan é o Johnny... Temos mania de nos chamarmos em inglês para zoar. – Ele explica. Deve estar se referindo a seus parceiros grafiteiros. Abro um sorriso. Afasto o celular para olhar a hora nele, vendo que já é de tarde. No entanto, todo mundo segue dormindo aqui em casa já que não há barulho. Já falei que o Matias vive a noite? A noite é uma criança. Sobretudo para quem mexe com prostituição e drogas como ele. — Estou no seu térreo, bebê linda. Qual é seu andar e porta? – Armando pergunta. Como assim no térreo? Louco varrido! — Putz! – esfrego meu rosto, me levantando, porque de todos modos se ele veio até aqui não vou deixá-lo esperando ou fazer ele voltar. Essa minha mala já deu trabalho demais para ele! — Me dá medo de você entrar aqui. – Digo, penteando meu cabelo com uma escova que peguei no criado-mudo rapidamente. — Por quê? – Ele pergunta, despreocupado. Ouço Armando suspirar. — Ei, relaxa. Beleza? Eu sou mestre em famílias disfuncionais. – Ele diz, com um timbre relaxante. — Espera só um momentinho, tá lindo? Eu vou por uma roupa. Espera só um pouquinho. – Mando alguns beijos no telefone. — Claro que eu espero. Mas... – ele começa a rir sarcástico. — Hehehe. Não se atrase muito, hm?! O nosso vôo para Paris é hoje.  — Como assim?! – Exclamo, baralhando um monte de possibilidades. É verdade que ele me falou da viagem, mas ele nem avisou que já tinha mudado o nome do André no bilhete para o meu, e nem me explicou como ele fez para conseguir isso. — Ai, é o 4º A meu andar e porta! – quase grito, toda tensa. — Estou subindo. – Ele diz, como se nada estivesse acontecendo, com uma tranquilidade sacana. Cabrón.  — Armin! Armando, espera. Pelo amor de Deus, não toca a campainha! – falo desesperada. — Um beijinho, mmmm. Mua!! – ele desliga, despedindo-se com sua voz grave, gostosa e irresponsável. Calma! Tenho uma viagem agora, para hoje! Tenho que armar um jeito de sair de casa. De que não percebam ele chegando, de esconder coisas do Armando, de ficar pronta antes de que ninguém acorde... Meu Deus do céu. Certo. Sete minutos, Lynn! Fique pronta em sete minutos! Essa é a solução. Vamos, rápido! Olho o relógio e começo a me vestir com uma camiseta branca que tem umas listras pretas bem fininhas e uma palavra em inglês bordada de vermelho. Uma saia de couro preta, meias, umas botas e uma jaqueta de couro. Uma roupa assim nunca falharia. Nos últimos minutos arrumei minha franja, me maquiei à velocidade da luz com corretor, lápis, rímel e o mesmo batom rosa para o blush. Coloquei na minha necessaire escova de dentes, pasta dental, um perfume, algumas maquiagens e a prancha. Logo arrumei uma mochilinha com meu portátil, carregadores, fones, passaporte, cartão do banco e outros documentos. Esse fanfarrão deve estar com a ditosa da minha mala que deve estar até zonza de ir de um lado pra o outro. Confiando nele coloco a mochila nas costas. Ouço algumas batidas leves na porta bem quando o meu celular vibra. Armando: “Estou esperando.” Lynn: “Shh! Já vou. Não faz barulho senão meu irmão acorda” Armando: “Você vai vir escondida, é safada? Fugindo? Hahaha. Hmm, adoro. ;) Levada do caralho.” Grr. Ele consegue me irritar e me fazer sorrir ao mesmo tempo. Decido não pensar no que responder e procuro a minha chave toda atrapalhada. Distraída como sempre, não sabia onde ela estava e procurá-la me deixou muito acelerada. Vou até a porta e começo a girá-la silenciosamente. A abro ofegante e Armando vê a minha cara de susto. Meu peito sobe e desce e estou muito apurada. Ele, por sua vez, está segurando o marco da porta com uma mão, vestido inteiro formal. Nunca vi ele desse jeito. O Armin está usando uma camiseta azul marinho, uma calça jeans escura e está segurando um buquê de rosas brancas na outra mão, com um boné preto preso na alcinha do cinto – que ele deve ter preferido não colocar. Fico vermelha e aperto os dentes, olhando as flores. — São para mim? – Pergunto baixinho. Meu deus do céu, eu sou muito dona Florinda. Quero rir à toa. Ele ladeia um sorriso, solta um risinho sacana e pisca um olho. Pare. — Bom, é... Mhuhm. Venho fingir que namoramos. Tenho que ser cavalheiroso, sabe? – ele expande o sorriso mostrando os dentes. Canalha, safado. Gostoso... Solto um risinho. Pego o buquê, secretamente toda sensível. — Sabia que eu nunca ganhei um buquê de flores? – Sorrio de um jeito terno e grato. Armando dá um risinho. — Você gosta de branco? – Ele murmura. Assinto, boba. Que se f**a a cor. O detalhe é o que foi bonito. — Será que esse seu namorado encamisado merece um beijinho por elas, então? – ele começa a perguntar sacana. — Esse seu noivo que só te come no papai e mamãe, que faz amor em vez de sexo.... – O moreno sussurra, quase me fazendo gargalhar alto. Contenho o riso e o puxo pela nuca, roubando-lhe um beijo contente. — Quem está aí? – ouço a voz debochada do meu padrasto enquanto ele dá passos pesados pelo chão de madeira da casa e começa a caminhar. Ele está usando uma cueca branca. No fundo do quarto dele, que fede a cachaça, começo a ouvir alguns gemidos do meu irmão que está acabando de acordar. Merda. Franzo as sobrancelhas para o Armin.
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