Daniel IV

1673 Palavras
            Eu sinto uma mistura de ódio com amor por ele. Repito. Se fosse tinta, seria preto diluído com fúcsia num pote de marmelada caseira. Um magenta sujo como a culpa. Onde eu colocaria uma pitada de verde, que é a cor da inveja. E um pouco de vermelho sangue. Não entendo como ele pode ser tão alegre e otimista quando ele mesmo já passou por coisas piores que eu. Ele é forte, não é um nostálgico todo enrustido como eu. Mas pelo menos eu tenho determinação e foco, coisas que lhe faltam...  Merda. Como eu posso pensar esse tipo de coisa da única pessoa que me ajudou no pior momento da minha vida? Quando eu não tinha teto, nem comida. Quando eu me mandei de casa. — Vamos, p***a. É isso aí. Só faltam mais quinze. – Ele grita com energia enquanto agarra a barra de ferro e se puxa para cima, até sua cabeça ficar acima da barra, com os braços flexionados e tensos por estar fazendo força. Até sofrendo ele não tira o sorriso do rosto. Estamos num parque verde num dos bairros de Barcelona. Aqui na cidade há várias academias de rua. Eu já fiz meus exercícios numa normal de sempre. O Armando prefere se exibir no meio dum parque. Haha. Hoje eu vim com ele porque ele disse que o exercício físico ao ar livre é melhor que o fechado. “Trabalha corpo e mente, as endorfinas chegam em maior quantidade.” Um bom vendedor, o cara. Ele nem sabe do que está falando, mas fala de todos modos. E fala de um jeito tão engraçado que você acredita. Mas só venho assistir, fazer companhia. Ele cai suado no chão, com duas pisadas fortes, flexionando um pouco os joelhos e ofegando. E agora o seu sorrisão se expande como se ele houvesse acabado de ter um orgasmo. Todo satisfeito. — Fuhh. Sua vez, irmão. – Ele dá uma palmada no meu peito com as costas da sua mão. Bebe metade da sua garrafa de água e joga o resto por cima do seu cabelo. — Eu já malhei hoje. – Sorrio, com cara de incrédulo. Armando dá uns risinhos. — Sobe aí, vamos ver se você faz mais push-ups do que eu. – Ele me desafia, com cara de malandro. Sabe que é o meu ponto fraco e que vai me convencer. — O que você prefere... Competir, ou dar um pouco de atenção para essas meninas que vem aqui especialmente ver a gente sem camiseta? – abro um sorriso malicioso, e olho algumas adolescentes de uns treze a dezesseis anos que estão sentadas na elevação de concreto circular do parque, que simula um banco. Elas estão vermelhas. Literalmente, não param de rir, seus rostos brancos e rechonchudos exalam juventude, seus olhos brilham espremidos. Umas tocando as outras enquanto conversam sobre nós. Excitadinhas. — Eu não gosto de menor, patrão. – Ele abre um sorriso malicioso e bem safado. — Ah, conta outra né. – Cruzo os braços e ergo uma sobrancelha, não acreditando. — Tira aí a camiseta para elas darem uns gritos. – Armando dá uns risinhos divertidos e me olha de lado. Guiado por um impulso de diversão, sorrio e vou tirando a camiseta. Quando acabo, vejo que o cara está tocando seu p*u por cima da calça, rindo para as meninas com cara de safado, se sacudindo. Elas estão ficando horrorizadas e indo embora. Começo a gargalhar bem alto. — Sedução 10/10, em parceiro? — Hahaha. Eu te disse que eu não gostava de menor, arrombado. – Armando segue rindo. — Pelo menos assim eu não só as expulso como também dou umas boas gargalhadas. Haha. Agora sobe aí, garoto tímido. Não tem mais ninguém olhando. — Mas você é chato, em? – bufo e me subo na barra, fazendo algumas flexões também. Só umas dez. Hoje já estou com preguiça e não tenho mais meu pai na minha cola me obrigando a dar meu máximo todos os dias. Logo desço pro chão. — Satisfeito? – pergunto carrancudo. — Nada m*l. Mhuhm. – Armando dá uns risinhos, bebendo mais água. — Já vou ir pra casa, e você? – ele diz, sorrindo. — Eu também. Te levo? – coloco minha camiseta de volta, enfio o celular na mochila e confiro as chaves do carro. — Pode ser. – ele segue sorrindo. Os dois vamos indo até meu carro. Entramos e ele coloca o cinto, já mexendo no som e pondo um hip-hop. Ele abaixa para que conversemos. Arranco o carro e começo a ir para a casa dele. — Que bom que você não gosta de mais nenhuma menina que não seja a minha irmã. Eu acho que ela gosta um bocado de você. – Comento assim por cima. Bom, a Antónia ama o Armin. Mas ela pensa que gosta do Casandro. Na verdade, ela só gosta do Casandro por ele ser “o mais popular do colégio”. Bléé. Ela acha que ama esse moleque, mas de quem ela gosta de verdade é desse filho da p**a que tá aqui do meu lado. Então, por que não tentar ajudá-la? O sorriso dele se fecha. Putz... Isso é preocupante. — Daniel, você não está entendendo. Eu e a Antónia só ficamos. Sempre foi assim e ela nunca reclamou. – Ele diz um pouco mais sério e meio apenado. — Puxa... Não é o que ela me conta por telefone. – Começo a morder o pingente do meu colar enquanto dirijo. — O que ela te diz? – ele ergue uma sobrancelha. — Que você é engraçado, carinhoso, que fode bem... Agrh, detalhes sórdidos. – Os dois damos uns risinhos, mas logo recuperamos a compostura. — Enfim... Ela gosta de estar contigo. Você faz bem para ela. — Não é o que ela me diz. Ela sempre me critica e diz que só estamos juntos até que o Casandro repare nela. Ela me diz que se ele pedisse para ficar com ela, ela me largaria sem nem cogitar. – Armando abre um sorriso irônico. Tenso... — A Antónia não é assim, Armin... Ela só é um pouco mimada e não sabe expressar o que sente. Ela gosta bastante de você. – A defendo, meio envergonhado. — Sinto muito te dizer, mas a sua irmã é uma tóxica. E graças a deus que eu não estou apaixonado por ela, senão eu seria o seu cão sarnento. Eu sinto muito irmão e, além disso, de quem eu gosto de verdade é de uma garota que vai na aula comigo. A esfaqueadora sinceridade do Armin. Apenas engulo em seco. Não tenho argumentos contra isso. Eu sei que a Antónia é tóxica... Sei que ela o trata m*l. Não posso pedir para ele dar uma chance para ela se ela segue com essa atitude, com esse orgulho. — E quem é a sortuda? – pergunto, como se eu estivesse no piloto automático. Ao começar a pensar nessa garota, meu amigo se encosta no banco do carro, relaxando a cabeça na cabeceira. Ele abre um sorriso abobalhado, gigantesco, seus olhos começam a brilhar como se ele estivesse sonhando. — Lynn. – Ele responde, com a voz carregada de carinho. Do seu timbre exala amor e dor, misturados e agarrados de um jeito que chega a emocionar. Olho para o lado, parado no semáforo. Meu coração começa a doer, vendo o que ela causa no Armin. Tão só o fato de enxergar a possibilidade de estar juntos, faz com que o Armando sonhe. Pensar nela faz com que ele se sinta feliz. Ele está apaixonado. Umedeço minha boca, quase marejando. Eu acho que eu também gosto dela. Mas vendo a cara dele assim, toda emocionada, eu não vou dizer nada. Além disso, eu a convidei para jantar. E a verdade é que eu não queria cancelar. Ela parece esperança para minhas dores mais profundas. E eu sou a melhor pessoa para ajudá-la caso ela esteja em apuros.  Eu deveria dizer algo, ou eu fico calado? Eu não vou conseguir dizer nada. — Malvina Lynn... Conheço ela de vista. – Sussurro. Paro na frente da casa do Armin. — Ela é linda, verdade? – ele segue com essa cara de tonto abobalhado. — Muito. – Murmuro. Meu amigo desce e se despede de mim, dando uns tapas na janela do carro. — Falou. – Vejo seu sorriso, suas costas indo embora. Eu mudo. Com algo entalado na garganta. Algo que nunca foi dito. Dirijo de volta para minha casa, sem pensar em nada. Antes de entrar no parking, estaciono na rua e decido não ser um cagão, pelo menos não pelo telefone. Abro o w******p: Dan: “Eu acho que você não deveria sair com ela. Ela aceitou jantar comigo essa semana ou na próxima.” Armin: “p***a, entao você também andou sondando essa garota? Impressionante como todo mundo quer ela. p**a que me pariu!” Dan: “Pois é... A garota se chama problemas. Além disso a família dela é bem complicada.” Armin: “Você conhece a família dela?” Dan: “Mais do que eu poderia te contar.” Armin: “Mmm...” Armin: “Então vocês vão jantar? Por que você não cancela, e inventa uma desculpa?” Porque eu a conheço bem antes do que você, companheiro.  Armin: “De todos modos, não sei quando. Porque eu marquei de viajar com ela e eu vou engolir essa menina. Ela não vai querer saber de ti. Boa sorte.” Dan: “Armando? Cara, não fica chateado.” Armin: “Você podia ter me dito em pessoa, seu covarde.” Não respondo mais nada. Apenas suspiro profundamente. Este é o panorama, de novo. Na minha vida, como se fosse um karma. As pessoas que eu deveria amar, eu odeio. As pessoas que deveriam me amar, acabam me odiando. Sinceramente, você não lhe convém. Eu a conheço muito mais do que você poderia chegar a conhecer. Eu não vou sair do seu caminho dessa vez. Eu gosto dela.
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