Comer merda, a isso se resume a vida. A ser um grande chupa-rola de todo mundo.
Estou sentado no escritório clandestino do Matias. O mesmo consiste em um trastero ubicado na garagem de um dos prédios que lhe pertencem. Está pintado de marrom escuro, há uma grande mesa de madeira de castanheiro e um robusto sofá chester de couro vermelho. É ali onde ele se senta com o seu irmão enquanto bebem cerveja. Nós, os convidados, nos sentamos numa cadeira feita de ferro, que parece retirada de uma cantina escolar. É por aí mesmo onde ele começa a te humilhar. A partir do momento em que você se senta para fazer negócios com ele. Mais bem dito, sejamos realistas, eu não faço negócios com ele. Eu faço o que ele manda. Ele é o meu patrão.
— 50...100...150...200...250...300...350 – ele conta o meu “salário” detidamente, como se estivesse decidindo se vai mesmo me pagar. Vai passando as notas dos dedos esquerdos para os direitos com maestria, mas lentidão proposital. É um bilheteiro, o filho da p**a. (...) — 2000, 2050, 2100. – ele para, ajunta todas as notas e dá um golpe forte com elas sobre a mesa, endireitando-as. E olha para mim com os olhos arregalados.
— Havíamos ficado em 2300. – Pego um cigarro no meu maço e o acendo com um isqueiro. Fumo profundamente e solto a fumaça sem pressa. Nada de mostrar nervosismo. A mesma embaça nossas visões, mas seguimos fitando um ao outro por trás dela.
— 2300? Nossa, eu não me lembro disso. – Ele diz irônico. Eleva seus ombros para trás e coloca uma expressão cinicamente ofendida, como se estivesse a ponto de mudar de ideia e não me pagar nada. Mas o olhar cortante, firme e em estado de alerta que lhe lanço, faz inclusive um cara como ele ter cuidado comigo. Ele sabe do que eu sou capaz, mais do que ninguém.
O silêncio entre nós dois agora é cortante e incômodo.
— Escuta... – ele reconsidera. Tira duas notas de 20 euros do bolso da calça de m*l jeito e as atira sobre a mesa como se eu fosse um lixo. — Eu só tenho mais 40 pavos, a próxima vez que eu te ver nós acertamos.
E eu sei que é mentira. Ele sempre faz isso. Eu acho que a sua intenção é, na última vez que ele precisar de mim, no último serviço, não me pagar. Ele só me paga porque ainda precisa de mim. E talvez, no último serviço, ele me descarte, como o que eu sempre fui e signifiquei para ele: um rato. E com descartar, me refiro a execução. É a forma mais fácil de se livrar de um inimigo.
Pouso o meu braço direito esticado sobre a mesa que nos separa e com a ajuda da minha mão formo uma curva. Arrasto toda a grana que está sobre a superfície e faço com que ela caia toda na minha mochila já aberta.
Me levanto sem dizer nada e a penduro nas minhas costas após fechá-la.
“Você sabe que você é um porco nojento. Não é mesmo? Seu filho de uma puta.” Essas frases são eu sonhando. É claro que eu não disse isso.
Por enquanto.
— Claro. – Digo com tranquilidade e um cinismo oculto em minha aura de falsidade. — Você é sempre um bom patrão, Matias. Um homem sério e de confiança.
Ele ri satisfatoriamente.
Imbecil. Quando você puxa o saco dele, o cara é tão narcisista que cai no seu fingimento. Deixa de ser esperto e vira um apaixonado de si mesmo. Veja só, acabo de fazê-lo feliz.
— Você sabe, Dan. Eu só machuco quem não se comporta bem comigo. – ele repete o seu mantra de sempre.
Meu sangue está borbulhando e fulminando.
Eu, mais do que ninguém, sei que isto é mentira. Uma p**a duma fodida mentira.
***
— Alô? – murmuro no celular, com as costas pesadas, assim como o meu corpo inteiro.
— Oi, maninho. – Antónia responde, com sua voz afável e preocupada.
— O que foi? Algum problema? – Respondo. E vou andando por este bairro de Barcelona, ignorando todas as cenas horríveis que ele contém a cada passo, para me auto-proteger psicologicamente. É um dos mais perigosos. Às 3am há pessoas alcoolizadas, baixo os efeitos de heroína, cocaína e êxtases. Todos são pobres e desgraçados, e preparados para te assaltar caso eles notem que nos seus olhos não existe melancolia do mesmo tipo da que existe nos olhos deles.
— Só liguei para saber como você está... – ela diz, hesitante.
Faz dias que eu não ligo para minha irmã. Da última vez lhe disse que andava muito ocupado. Eu sempre a evito na Escola e me escondo dela quando é necessário.
— Toninha, eu tô ótimo. – Forço uma voz meiga e sorrio no telefone, mesmo que ela não possa me ver. — Logo, logo você vai me rever. E eu prometo que eu vou estar bem.
Numa posição de vencedor, numa que eu sinta orgulho de mostrar para você.
Merda, acabo de notar que usar uma palavra como “rever” é estranho para quem está tentando aparentar que está bem. Eu me emocionei um pouco.
— Ai, Dan... – ela suspira e dá um risinho meigo. — Você conversa que nem um velho.
Dessa vez rimos juntos. Cada um por seus próprios motivos. Ela por me achar exageradamente emotivo como uma avó de cinquenta anos. Eu por saber que a coisa está mesmo preta.
* * *
Eu sinto uma mistura de ódio com amor pelo Armando.
Quando eu era pequeno a minha mãe costumava fazer marmeladas caseiras de uva ou de morango. Apesar de que ela não colocava açúcar, elas ficavam deliciosamente doces e eu amava comê-las por cima de bolachas orgânicas enquanto eu tomava chá verde gelado perto da piscina.
Ah, a piscina! Como a nossa casa era enorme, na primavera e no verão sempre dava para aproveitá-la. Eu colocava uma toalha sobre a grama e ficava sentado de sunga e boné, fazendo meu piquenique solitário. Mamãe e Antónia amavam conversar lado a lado sobre roupas, sapatos, sobre a tonalidade alaranjada – bonita e saudável – que a pele adquiria graças aos raios ultravioletas, sobre hidratação capilar, cirurgias plásticas, novelas, famosos, relações amorosas, marcas de grife, maquiagem, dieta, normas de etiqueta, etc...
Eu odiava esses assuntos, então normalmente elas me ignoravam. Não tentavam achar um ponto comum onde os três pudéssemos confraternizar, onde todos estivéssemos à vontade. O meu pai sempre estava na rua trabalhando e só voltava para casa às dez da noite para jantar e logo dormir.
E qual é a necessidade de mencionar o meu pai? Talvez porque eu tenha chegado a pensar que a falta de interesses comuns entre nós três fosse devido ao nosso gênero. Mas hoje, reflexionando, eu entendo que eu não me sentia sozinho pelo fato delas estarem falando de “assuntos femininos”. Tudo o que citei acima, que só tem a ver com a aparência, com o exterior, com o físico, não tem por que ser algo ligado somente às mulheres. Eu me sentia sozinho porque eu mesmo me excluía. Eu nasci diferente.
Eu era a ovelha n***a da família.
Por algum motivo, nesse passado, eu costumava olhar a minha irmã do lado da mamãe e ser embrulhado por um sentimento estranho. Era como se o meu coração estivesse sendo esmagado. A pequena Antónia com seus cachinhos dourados envolvendo todo o seu rosto que um dia fora pálido, sorrindo para a mamãe como se ela fosse uma Deusa, ou o ídolo mais digno de respeito, tinha agora a pele em um tom caramelado, assim como ela. Parecia uma mini cópia sua, e estava um pouco sexualizada para a idade que tinha, com os lábios brilhando, tingidos com um batom rosa claro cintilante, as unhas pintadas da mesma cor – a dos pés também – com seus chinelinhos de pelo verdadeiro de raposa fúcsia, com seu bikini vermelho minúsculo...
Esse sentimento que me consumia dolorosamente era pena. Ela só queria agradar a mamãe. Ser amada por ela, e aprovada. E eu sentia a carência presente no coração da minha irmã, mesmo que nesta época eu não pudesse entender por que este tipo de cena me deixava triste.
Eu não estava vendo uma mãe e uma filha juntas, compartilhando experiências. Eu não estava vendo uma mulher nutrindo sua criança. Eu estava vendo uma pessoa pervertendo um anjo. Ensinando-lhe que a vida é dura e exigente. Que sentimentos não importam. Que tudo o que era valioso estava por fora. Nessa nossa pele excessivamente laranja. Humor a parte, nossa pele... A de todos... É tão delicada e vulnerável. Se alguém jogar um ácido por cima, como fazem na Arábia Saudi... Adeus. Você se converte num monstro, e tudo o que sobra é o seu interior.
O meu pai também era distante comigo. Sim, entendemos que ele não tinha tempo suficiente para lidar com seu garoto. Mas um dos motivos pelos quais ele pagava a empregada – ele mesmo havia dito – era para que ela se assegurasse de que eu fazia tudo nos horários corretos e com perfeição. Todas as minhas falhas eram castigadas com punições físicas severas. Ele me levava no despacho dele, mandava eu tirar a roupa, e me batia até eu dizer que estava arrependido.
A minha vida era um inferno e eu não tinha escapatória nem saída, a não ser começar a ser realmente perfeito em tudo. A não ser trabalhar em mim mesmo, “ficar preso em Matrix”, não ter pensamentos próprios, apenas ser um animal selvagem cujo objetivo é capturar a presa. A presa eram medalhas, notas excelentes, aparência perfeita, alimentação exemplar.
No começo eu costumava chorar, até uns quatorze anos. Era como se eu acreditasse que o choro lhe causaria alguma empatia, mas não causava. Então eu fiquei frio e seco. Parei de chorar. Aprendi que não adianta nada. E que eu só tenho a mim mesmo.
“Um garoto como você não pode ser um frouxo na vida. Se um dia você quiser ser como eu, terá que trabalhar duro para isso. Ou você acha que só porque eu sou rico eu vou te dar tudo de graça? Você aprenderá as coisas e será um homem de verdade. Tudo o que você tiver será por seus próprios méritos e eu te educarei para conseguir as coisas por ti mesmo.”
Soa bonito, verdade...
Devido a que a minha vida era uma pressão constante, eu amava devorar os potes de marmelada. Soa engraçado, eu sei. Mas havia um motivo oculto por trás. Quando eles terminavam, eu os reciclava. Mamãe nunca faria isso, ela estava pouco se fodendo pro meio ambiente. Ela jogava todos fora no lixo da cozinha, misturados com resíduos orgânicos. E quando não tinha ninguém em casa eu ia lá e os pegava, em silêncio.
Os lavava no banheiro do meu quarto e os escondia dentro do sommier da cama, que eu trancava com um cadeado para que ninguém o abrisse. Eu dizia à empregada que lá dentro tinha revistas pornôs, mas na verdade lá dentro estava a minha coleção de potes de vidro, de pincéis e de pigmentos aquareláveis.
Eu pintava à noite, uma hora por dia, subido no telhado. Normalmente de doze a uma, quando meu pai já havia ido dormir pesada e profundamente. Ele teria me batido até me prostrar numa cama se soubesse que eu estava fazendo isso em vez de ler algo no jornal.
Que irônico, verdade? Porque eu culpo a ele por ter feito este gosto pela arte nascer em mim. Os artistas dissociam da realidade sufocante. Ele criou um ambiente hostil, e então eu me relaxava desenhando a lua cheia, alternando tons e sub-tons de azul para formar uma complexa noite sem estrelas num pedaço de papel de grama alta. O mesmo papel que eu usava nas aulas de reforço de geometria.
Por algum tempo eu guardei esses desenhos. Que mais do que isso, eram a minha terapia psicológica secreta, o meu vômito de emoções negativas que se convertiam em algo belo quando eu os traspassava para o papel... Até me dar conta de que, se alguém os descobrisse, eu ganharia mais cicatrizes pelas costas.
E então, certa noite, eu fiz um ritual de despedida. Reuni todos e os queimei, para o meu próprio bem. Sim, eu sacrifiquei o que eu mais amava para sobreviver. E essa foi a lição mais dolorosa da minha vida:
Às vezes você tem que matar algo belo. Às vezes este algo é o que te conforta, te arroupa e faz com que você se sinta bem. E é triste. Mas primeiro é sobreviver, e logo amar.
Amar como sinônimo de criar.
Não é mesmo?
Eu vi as chamas consumindo a minha alegria.
Alegria, com A de Armando, Alegria que define o meu melhor amigo. Sempre foi um fodido, mas sempre está sorrindo.