Dou um risinho.
─ Que barulho é esse? - pergunta o moreno, parando de andar.
─ Hm? Quê?
─ Tem um celular vibrando.
Saio da nuvem de distração onde eu estava e começo a sentir o aparelho realmente vibrando fortemente dentro do bolso da minha calça. Pego ele, apreensiva, e olho a tela.
─ É a minha mãe. - Falo em um tom triste.
Armando me olha atento.
─ Atende. - diz ele.
─ Não. - Respondo, franzindo as sobrancelhas.
Olho a palavra "mãe" escrita na tela, de um jeito nostálgico.
─ Ela pode estar querendo fazer as pazes. - Ele justifica.
Vejo como começa a fazer uma cara estranha, como se não pudesse entender o motivo pelo qual não quero atender a minha própria mãe.
E então toda a cumplicidade que senti entre nós dois há pouco parece haver diluído, mostrando que era apenas ilusão.
Me sinto vazia de novo.
Nem ele, nem ninguém vai me entender nunca.
─ Se eu atender vou ter que ir embora, é isso o que você quer?
─ Não. - Ele responde. ─ Mas atende logo. Depois você pode se arrepender. - Ele me olha intensamente, como se houvesse mais por trás dessa frase do que ela realmente transmite. Como se ele soubesse do que está falando.
─ Ok. - Assinto. Dou um suspiro longo. ─ "Alô"?
"Onde você está? Eu preciso que você venha em casa agora."
─ Estou na rua. - Respondo, monótona.
"É questão de vida ou morte. Vem para casa urgente." Minha mãe desliga na minha cara.
Fico alguns segundos franzindo as sobrancelhas, angustiada.
─ Que foi? - pergunta Armando, preocupado, tocando o meu ombro.
─ Minha mãe diz que eu preciso ir para casa, questão de "vida ou morte".
Ele franze as sobrancelhas.
─ Desculpa. - Respondo. ─ É por isso que eu não queria atender. - Me sinto culpada por acabar de estragar os planos dele, por ter feito ele vir aqui, pelo disfarce, por tudo.
─ Não. - Ele suspira, e me olha com intensidade. ─ Tudo bem. Eu te acompanho.
Fico feliz, mas tento esconder isso. Abro um sorriso pequeno, muito tímido.
─ Obrigada.
─ De nada. - Vamos caminhando. ─ Ela não te disse o que era?
─ Ah... É complicado. Eu... Prefiro não falar disso. – Prefiro não te contar que pode ser que ela esteja sendo espancada neste exato momento.
─ Hm... É uma pena tudo, você ficaria tão linda hoje de gatinha. - Ele muda de assunto, repentinamente, com um tom meigo, brincalhão e sensual. Afável.
Abro um sorriso amarelo.
─ Se é urgente, temos que ir logo. - Diz Armando. ─ Amanhã eu pego a sua mala e levo para você.
─ Não precisa.
─ Precisa sim. - Ele esfrega meu ombro. ─ Assim tenho um motivo para ir te ver de novo. - Ele pisca um olho e dá um risinho sensual.
Sorrio dessa vez de verdade.
Sentindo borboletinhas...
Infelizmente.
* * *
Entro em casa encolhida, triste e com medo.
─ Cheguei. Você está bem? - digo, quase gaguejando, indo até o quarto da minha mãe.
─ Você demorou muito! - ela exclama, nervosa, me olhando com raiva. Minha mãe está arrumada da cabeça aos pés. Uma mulher linda e exuberante.
Apenas assinto.
─ Onde você vai? - sussurro, quase gaguejando. Olho o meu irmão no berço, ainda sem dormir.
─ Vou atrás do Matias. Ele não está atendendo o telefone. Fica com seu irmão. - Ela sai de casa como um furacão, batendo a porta, sem nem me olhar.
Me sento na cama dela, paralisada, com vontade de chorar.
Meu celular se acende.
Armando: "Tudo bem, anjinho? :)"
Malvina: "Tudo bem sim."
Armando: "Ué... Não era nada grave? Quero dizer, que bom! Mas... Fiquei preocupado, achando que tinha acontecido algo com você. Eu até fui embora para casa."
Malvina: "Me desculpa, sério."
Armando: "Despreocupa. Escuta, eu já peguei sua mala. Que hora posso passar aí para te dar ela?"
Suspiro profundamente. Eu não quero desfazer essa mala. Eu quero sumir em algum lugar do planeta com ela, para sempre. Algum lugar onde eu possa sorrir, por meus cabelos para voar num carro conversível, viajar e me esquecer de tudo.
Armando: "Malvi?"
Olho a mensagem. Passaram sete minutos e eu não respondi, apesar de ter seguido online. Merda. Fiquei divagando.
Malvina: "Tem alguma coisa que eu possa fazer para me desculpar do porre de noite que eu fiz você passar?"
Armando: "Posso te ligar?"
Malvina: "Sim." Sorrio.
Começo a discar e somos tão desastrados que ligamos ao mesmo tempo. Desligo, dando um risinho. A chamada dele entra e o atendo.
─ Primeiro... – Escuto sua voz doce. ─ Você não fez eu ter um porre de noite, deixa de complexo – Ele ri gostoso, me contagiando. ─ Foi uma ótima noite, valeu a pena... E... Uau... Uau, uau…
─ Que foi? – Fico coradíssima.
─ Valeu a pena. – Ele repete, e ri malicioso.
Eu quase tinha me esquecido do que rolou no provador.
─ Hihi. – Sorrio.
─ Eu tava pensando... Assim...
─ Hm? – digo, maliciosa. ─ Hahahaha.... Que foi? Você tá com voz de quem tá aprontando algo.
Armando ri gostosamente.
─ Na semana que vem eu tenho uma viagem para Paris. É um evento de rap internacional, dessas coisas que eu curto e tal... – ele limpa a garganta e dou um risinho.
─ Que legal. – Respondo.
─ Eu ia ir com o André. Mas eu sei que ele prefere ir em um show f**a de música eletrônica com o namorado dele. Porque só acontece uma vez no ano e blá blá blá e também é em Paris, e na mesma data. – Continua Armando. ─ A passagem de avião, de ida e volta, e o hotel, já está tudo pagado. Você vem comigo? Vai haver um concurso e o melhor tema ganha 6.000€. Também tem segundo e terceiro lugar. Eu passei o ano inteiro me preparando. Quero ganhar essa grana para financiar meu jogo indie e comprar um Sound System.
─ Eu... Eu não sei. Não posso fazer compromisso. Sabe o que acontece, eu tenho um irmão pequeno! – exclamo, angustiada.
─ Ué? Mas você não vive com seus pais? É num fim de semana. Seus dois pais trabalham nos fins de semana, ou como é o lance?
Sua voz acaba de ficar séria.
Estou a ponto de desligar na cara dele.
─ Eles são imprevisíveis! E vivem brigando! Entende, agora? Sempre que eu quero marcar algo com alguém dá errado! Que nem hoje! E tenho que voltar para casa!
Armando fica em silêncio alguns segundos. Ouço ele respirando. Estou pronta para ouvir ele dizendo "que pena", e desligando, e nunca mais falando comigo. Como todos acabam fazendo... Me sinto triste.
─ Tchau, Armando. – Sussurro.
─ Não tem jeito de você vir mesmo? – Ele quase murmura. ─ Queria muito ir contigo.
─ Acho que não.
─ E se eu pedir para os seus pais?
Fico alguns segundos pensativa.
─ Bom... – Abro um pequeno sorriso malicioso... ─ Nesse caso talvez eles deixem." … Mas aperto o lençol nervosamente.
─ Eu vou na sua casa amanhã. Entrego sua mala, e digo para eles que sou seu namorado. – Ele dá alguns risinhos maliciosos.
─ Meu namorado?
─ De mentirinha.
─ Mhuhm. – Sorrio.
─ Vai dar certo, não vai? – Ele pergunta todo empolgado e positivo.
Mordo meu lábio inferior.
─ Eu acho que sim. Eles não vão fazer feio na sua frente, provavelmente.
─ Até amanhã, namoradinha. – Ele desliga na minha cara, após dizer isso, com uma alegria contagiante e engraçada na voz, capaz de tirar um elefante do coma.
Armando: "Você vai ver só! Vai ser muito bom! Nós vamos nos divertir muito, muito. Demais. Eu juro.
* * *