— Luna — Reinaldo bateu à porta logo depois que Gabriel saiu do seu escritório. — Abre a porta.
Demorou alguns segundos, até que ela abriu, com expressão fechada.
— O que foi? Veio me humilhar mais?
— Te humilhar? — Ele franziu a testa, confuso. — Em que momento eu fiz isso?
— Mandou eu pedir desculpas pra eles. — Ela fez uma careta.
— E isso foi te humilhar? — Cruzou os braços. — Humilhar é o que você faz com a Rita desde que ela entrou nessa casa. — Ela ergueu uma sobrancelha. — Filha, quantas vezes já falei com você sobre isso?
— Só que o senhor nunca deixou empregado nenhum falar assim comigo. — Fez bico.
— Gabriel tem a sua idade, uma vida difícil, e estava apenas defendendo a mãe dele de um ataque seu. — Ela revirou os olhos. — Acho bom começar a tratar a Rita bem. Ele vai ficar aqui, e eu não vou mandar embora se vocês brigarem.
— Você devia me defender, não a ele. — Rangeu os dentes.
— Para de ser mimada. — Ele manteve a firmeza. — Isso é pra você aprender a tratar os outros.
— Eu sei tratar os outros. — Cruzou os braços. — Não preciso aprender nada.
— Luna, se você não melhorar, vou começar a tirar as coisas que você gosta.
— Está pegando pesado demais. Vai começar uma guerra comigo.
— Eu devia ter começado há muitos anos — encerrou, saindo do quarto sem lhe dar chance de resposta.
Luna passou o resto do dia trancada. Tinha marcado de sair com as amigas, mas desmarcou. Estava com raiva do pai, da mãe por não intervir e, principalmente, de Gabriel — aquele intruso que, na visão dela, tinha caído de paraquedas na casa.
Os dias passaram, mas a tensão entre os dois não diminuiu. Apenas se encaravam de cara fechada, sem trocar uma palavra. Luna, com medo de represálias do pai, tentou amenizar o tom com Rita, mas estava longe de ser simpática.
Naquela tarde, algumas amigas foram até lá para fazer um trabalho da faculdade. Conversavam animadas sobre as últimas fofocas.
— Rita! — Luna gritou, e em pouco tempo a empregada apareceu.
— Traz pra gente uma limonada e uns biscoitinhos.
Rita assentiu e saiu.
— Está muito calor hoje, né? — Ângela comentou, fechando o livro. — Não aguento mais ler. A gente podia ir pra piscina.
— Mas e o trabalho? — Melissa hesitou.
— Ainda temos mais de uma semana. Vai dar tempo. — Ela juntou as mãos, pedindo. — Por favorzinho, eu preciso relaxar.
— Vamos então! — Luna bateu palmas, empolgada. — Rita, leva pra piscina! — gritou de novo, mas a mulher não respondeu, porque não tinha ouvido.
As meninas subiram, trocaram de roupa e logo estavam na piscina pequena, na varanda do quarto de Luna.
— Que demora! — Luna resmungou.
— Você pega muito no pé dela — Melissa riu. — Deixa a mulher trabalhar.
— Incompetente... Quanto tempo leva pra fazer uma limonada? — revirou os olhos.
— Você que é implicante — Ângela defendeu. — Deve ter acontecido algo.
— Por mim, meu pai já tinha demitido ela e o filho insuportável dela — bufou, levantando-se. — Vou ver o que aconteceu.
— Deixa a mulher trabalhar, Luna! — Ângela insistiu, mas foi ignorada.
De roupão, Luna foi até a cozinha e encontrou Rita nas panelas, rindo de algo que Gabriel dizia.
— Ah, agora entendi a demora — disse com sarcasmo. — Estava me perguntando quanto tempo leva pra fazer uma limonada.
— Já está pronta — Rita largou a colher de p*u e abriu a geladeira. — Levei na sala e não achei vocês. Achei que tinham saído.
— Achou. — Luna debochou. — Eu falei que estávamos na piscina.
— Me desculpe, mas eu não ouvi. Se tivesse ouvido, tinha levado lá.
— Certeza que ouviu e não levou por preguiça — disparou.
Rita respirou fundo para não responder, mas Gabriel não se conteve:
— Você não aprende mesmo, né, garota? Sempre vai ser essa pessoa arrogante.
— Gabriel! — Rita repreendeu. — Parece que esquece que ela é filha dos patrões.
— Com certeza ele esquece. — Luna sorriu de lado.
— Já disse que não estou nem aí — ele retrucou. — Quero que trate minha mãe com respeito.
— Desde que ela faça o trabalho direito, não teremos problemas — Luna ergueu as mãos, encerrando. — Vou esperar meu suco.
Assim que saiu, Gabriel murmurou:
— Menininha insuportável...
— Qual a graça? — perguntou à mãe, vendo-a rir.
— Você leva muito a sério. Não adianta brigar com ela. A vida ainda vai dar um jeito de quebrar essa marra.
— E até lá ela pode pisar em você? Não na minha frente — respondeu, saindo para o jardim.
Luna voltou para a piscina espumando.
— Que ódio daquele garoto!
— Que garoto? — Melissa estranhou.
— O filho insuportável que a empregada enfiou aqui. Tenho ódio dele.
— E o que ele fez? — Ângela se aproximou.
— Fala comigo como se fosse do meu nível. Me enfrenta, fala mais alto... Dá vontade de expulsar.
— Reclama pro seu pai. Ele sempre te atende — Melissa sugeriu.
— Você acha que não falei? — bufou. — Meu pai protege ele.
— Luna, você também não é fácil. Se deixar o garoto em paz, ele vai te deixar em paz — Melissa cruzou os braços.
— Deve ser... — murmurou, encerrando o assunto. Mas, na cabeça dela, o nome de Gabriel continuava ecoando.