Capítulo 2

971 Palavras
— Rita! — Luna desceu as escadas com uma camisa nas mãos. — RITA! — gritou outra vez, sem que a empregada aparecesse. — RITA! — insistiu, até que, por fim, Rita surgiu na porta. — Oi, dona Luna! — aproximou-se. — Pois não? — Você não ouviu eu chamar? Preciso gritar feito louca para você me atender? — reclamou, visivelmente irritada. — Me desculpe, é que eu estava no meu quar... — começou a explicar, mas foi cortada. — Não quero saber onde estava. Quero que me atenda na hora que eu chamar. — Luna ergueu a blusa diante dela. — Está vendo isso? — Sim… o que tem? — perguntou, num tom baixo. — Está horrivelmente amarrotada. — Ela torceu o nariz. — Se você chama isso aqui de roupa passada, está na hora de voltar para um curso de empregada doméstica. — Me desculpe se não está do seu agrado, posso passar de novo. — Rita estendeu a mão, mas Luna jogou a peça em cima dela. Gabriel, que ouvira a discussão do quarto, surgiu no corredor. — Você ficou maluca?! — a voz dele fez Rita fechar os olhos e suspirar. — Não é assim que se trata uma pessoa. — Quem é você para se meter? — Luna respondeu no mesmo tom arrogante. — Sou filho dela. — Ele cruzou os braços e se aproximou. — E você deveria respeitar alguém mais velho que você. — Se manca. — Luna pôs as mãos na cintura. — Eu trato como quiser a empregada da minha casa. — Gabriel, deixa isso pra lá. — Rita tentou intervir. — É o jeito da dona Luna, não tem importância. — Jeito? — ele rebateu. — Isso não é jeito, é falta de educação. — Olha como fala comigo! — Luna ergueu o dedo para ele. — Quero você longe da minha casa! — Não, por favor dona Luna, ele acabou de chegar, não faz isso. — Rita praticamente implorou a filha dos patrões. — Mãe, pelo amor de Deus… você acha que eu vou ficar quieto pra essa riquinha metida a b***a me humilhar? Nem você devia aceitar isso. — Gabriel apertou o maxilar. — E avisa pra ela que não é porque você é preta que é escrava. Você merece respeito. — Olha aqui, garo... — Luna começou, mas Gabriel não deixou. — Olha aqui você! — disse ainda mais alto. — Não é porque você é rica que pode destratar as pessoas. Se enxerga, garota. A discussão atraiu a atenção de Aline e Reinaldo, que entravam na casa. — O que está acontecendo aqui? — Reinaldo perguntou, com a voz firme. — Esse garoto aí, pai — Luna se apressou em falar — veio cheio de gracinha pra cima de mim. — Mentira! — Gabriel rebateu. — Você destratou minha mãe. Ninguém a trata m*l na minha frente, nem o presidente. A gente é pobre, mas merece respeito. — Eu não... — Luna tentou se justificar, mas o pai a interrompeu. — Pede desculpas, Luna. — Reinaldo falou sério. — Está brincando? — ela arregalou os olhos. — Eu só reclamei que a camisa estava amassada. — Eu conheço você. — Ele franziu a testa. — Anda logo. — Não precisa, seu Reinaldo — Rita interveio, constrangida. — Eu passo de novo a camisa. — Claro que precisa. — Gabriel se exaltou. — Ela foi grossa e ainda jogou a roupa na sua cara. — Luna — desta vez foi Aline quem falou, num tom impaciente — vamos ficar aqui até que horas? — Me desculpem. — Luna falou rápido, sem olhar para ninguém. — Não vai se repetir. Com licença. — Subiu correndo as escadas. — Gabriel, suponho? — Reinaldo se voltou para o rapaz, que confirmou com um aceno. — Vamos até o meu escritório. Enquanto eles subiam, Rita virou-se para Aline. — Dona Aline, me desculpe por essa confusão. Meu filho ainda está chegando agora, não sabe como as coisas funcionam aqui. — Fica tranquila, Rita. — Aline deu um leve sorriso. — A Luna estava precisando de alguém que a colocasse no lugar. Nós falamos, mas ela não escuta. — Então o senhor Reinaldo ainda vai dar o emprego pra ele? — Rita perguntou. — Claro que sim. — Aline assentiu. — Muito obrigada! — Rita suspirou, aliviada. — Vou passar a camisa antes que a dona Luna reclame de novo. Licença. No escritório, Reinaldo apontou para a cadeira. — Sente-se. — Gabriel obedeceu. — Foi corajoso da sua parte falar com a minha filha daquele jeito. — O senhor me desculpa, mas a minha mãe é tudo pra mim. Criou-me sozinha até se casar de novo. É guerreira demais. Eu não vou permitir que alguém fale com ela daquele jeito. — Não precisa se desculpar. — Reinaldo sorriu de leve. — Já vi que você é um rapaz de valor. E, sinceramente, a Luna precisava de alguém que a enfrentasse. — Então está tudo certo? — Gabriel arriscou um sorriso. — Claro. Você começa como ajudante do Chico no jardim. Se as meninas precisarem de ajuda, vão te chamar. — Muito obrigado, senhor. Não sei nem como agradecer. — Basta merecer a confiança. — Reinaldo se recostou na cadeira. — E quero conversar com você sobre sua faculdade. Sua mãe disse que você estava cursando e trancou? — Sim. Eu fazia Administração em Minas, mas tive que parar e voltar pro Rio. Pretendo continuar, ver uma instituição, tentar bolsa de pelo menos 50%. — A gente conversa melhor sobre isso quando o próximo semestre começar. Eu e Aline temos muito carinho pela sua mãe, e pelo que vi, vamos gostar de ter você por perto também. — Muito obrigado, de verdade. — Dê orgulho à sua mãe. — Reinaldo finalizou com um sorriso.
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