— Esse café está horrível. — Luna, única filha de Reinaldo e Aline, resmungou para a empregada, que permanecia de pé, ouvindo pacientemente mais uma longa lista de reclamações. — Está fraco e frio. O ovo não tem sal e essa tapioca está dura. Será que você nunca vai aprender a fazer um café da manhã direito? Você já está aqui há quatro anos!
— Desculpa, dona Luna. — Rita baixou a cabeça. — Eu vou melhorar.
— Já passou da hora de melhorar. — Luna jogou o guardanapo sobre a mesa e se levantou, batendo os pés pelo corredor até desaparecer.
Luna sempre fora mimada e tratava os funcionários com impaciência, mesmo quando não tinham culpa. Os pais tentaram corrigi-la de todas as formas, mas, aos dezenove anos, parecia impossível mudar seu jeito.
— Bom dia, Rita! — Aline cumprimentou ao sentar-se. — Do que a Luna reclamou desta vez?
— De tudo. — Rita deu de ombros. — Se quiser, posso refazer.
— Não precisa. Tenho certeza de que está ótimo. A Luna vive procurando motivo para reclamar. — Sorriu para a empregada. — Vou conversar com ela de novo.
— Não se incomode, dona Aline. Já nem ligo mais. — Rita tentou minimizar.
— Bom dia! — Reinaldo entrou na sala de jantar, beijando a esposa no rosto antes de se sentar. — Tem aquele bolo de laranja fantástico que só você sabe fazer, Rita?
Ela abriu um sorriso e apontou para a mesa.
— Nunca deixaria faltar.
Apesar de Luna, Rita gostava de trabalhar ali. Os patrões eram gentis e valorizavam seu esforço.
— Será que posso conversar com vocês sobre uma coisa? — ela perguntou, ficando séria.
— Ficou até séria... o que aconteceu? — Aline se inclinou, curiosa.
— É sobre o meu filho mais velho. Ele brigou com o pai e vai vir morar comigo. Só que ele também não se dá bem com o meu marido e eles vivem discutindo.
— Entendi... — Reinaldo cortou uma fatia de bolo. — E o que você quer saber?
— Se ele pode ficar no meu quarto comigo durante a semana. — Rita falou com certo constrangimento. — Ele é estudioso, um bom menino, e vai passar a maior parte do tempo lá.
— Calma, Rita. — Aline sorriu para tranquilizá-la. — Não precisa ficar nervosa.
— É que não quero abusar...
— O quarto é seu, mas você acha que cabe mais alguém lá? — Reinaldo perguntou.
— A gente se ajeita. Já passamos por isso antes.
— Ele estuda, trabalha...? — Aline quis saber.
— Estudava em Minas, por isso morava com o pai. Agora vai procurar emprego.
— Quantos anos ele tem? — Reinaldo continuou.
— Vinte.
— Ele pode ficar, sim. — Reinaldo assentiu. — E, se quiser, pode trabalhar aqui conosco.
Rita arregalou os olhos.
— Pode ajudar nas tarefas mais pesadas, na limpeza da piscina e com o Chico no jardim.
— Ah, eu não acredito! — ela exclamou, empolgada. — Muito obrigada!
— Nesse caso, vamos colocá-lo no quarto ao lado do seu, já que também será funcionário. Assim vocês não ficam apertados. — Aline explicou, e Rita concordou rapidamente.
— Quando ele chegar, peça para vir falar comigo, certo? — Reinaldo sorriu.
Rita agradeceu mais uma vez e saiu da sala, deixando os patrões em paz.
Na área externa, Kátia, a empregada folguista, perguntou:
— E aí? Deu certo?
— Mais que isso! Eles até ofereceram emprego pra ele. — Rita m*l conseguia conter o sorriso. — Dona Aline e seu Reinaldo são muito gentis.
— Nem parece que aquela menina malcriada é filha deles. — Kátia cochichou, arrancando um riso de Rita. — Não faz essa cara, sei que você pensa o mesmo.
— E quem não pensa? — outra funcionária comentou, juntando-se à conversa. — Aquela garota não lava nem um copo.
— Desde criança ela teve tudo na mão. — Rita suspirou.
— E continua m*l-educada. — Kátia completou. — Ser rico não é desculpa para não ter bons modos.
— Vamos parar de falar dos patrões e trabalhar? — Rita encerrou, voltando para a cozinha. — Tenho muito o que fazer.
Pouco depois, Rita ligou para o filho e contou a novidade. Gabriel era educado, estudioso e extremamente carinhoso com a mãe, mas vivia em conflito com o padrasto.
Em Minas, havia discutido com o pai por causa da faculdade. Carlos queria que ele se dedicasse apenas aos estudos, mas a falta de dinheiro o impedia de manter esse ritmo. A discussão terminou com Gabriel trancando o curso e voltando para o Rio.
Dois dias depois, ele chegou à mansão da família Diniz.
— Que bom que você voltou! — No pequeno quarto, Rita abraçou o filho com força. — Estava morrendo de saudades.
— Eu também, mãe. Meu lugar não é lá. — Ele suspirou.
— Só não quero que interrompa os estudos. Vai terminar sua faculdade aqui.
— Mãe, não começa a querer me controlar igual ao Carlos. — Gabriel revirou os olhos. — Eu preciso trabalhar, além de estudar. Já tenho vinte anos.
— Não é errado a gente querer que você tenha um bom futuro. — Rita cruzou os braços. — Até hoje não entendi por que brigou com seu pai e veio embora.
— Porque ele é cabeça dura. — Bufou. — Vou concluir o curso aqui, trabalhando para pagar uma boa faculdade.
— E vai conseguir. Aliás, dona Aline disse que você pode trabalhar aqui.
— Aqui? Fazendo o quê?
— Ajudando nas tarefas mais pesadas, no jardim... como um faz-tudo.
Gabriel abriu um sorriso.
— Seu Reinaldo pediu para você falar com ele quando chegasse, mas ele não está em casa agora.
— Então me avisa quando ele voltar. Vou tomar um banho.
— Descansa, meu filho. — Rita o beijou e voltou ao trabalho.