A NOITE EM QUE NATÁLIA DECIDIU INTERFERIR
A casa de Natália estava silenciosa, iluminada apenas pela luz suave que vinha da varanda. O vento da noite carregava o cheiro do mar e de alguma coisa doce que ela havia deixado esfriando na cozinha — provavelmente bolo de limão, o preferido dos dois filhos.
Ela sabia que eles estavam chegando muito antes de ouvir o motor do carro. Mãe sente.
E mãe pressente ainda mais quando os filhos estão apaixonados.
Alan chegou primeiro, como sempre, passos leves, postura contida. Alex entrou logo atrás, menos contido, com aquela energia inquieta que parecia ocupar espaço demais.
Natália os observou se aproximarem com os olhos de quem vê o que eles acham que escondem.
— Sentem-se. — ela disse simplesmente.
Os dois obedeceram. Sempre obedeciam quando a mãe usava aquele tom.
Ela cruzou as pernas, respirou fundo e soltou o golpe sem cerimônia:
— Eu quero saber quando vão pedir a Alicia em casamento.
Os dois congelaram.
Alan piscou devagar, como quem tenta processar uma informação médica complexa.
Alex abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
— Mãe… — Alan começou, cuidadoso. — Isso é —
— Rápido? — ela completou. — Improvisado? Inusitado?
Os dois assentiram, meio sem fôlego.
Natália apoiou os cotovelos nos braços da poltrona e encarou os dois com a firmeza calma de quem comandou uma empresa inteira por décadas.
— Pois eu digo outra coisa: é necessário.
Alex finalmente encontrou sua voz:
— A gente acabou de… começar isso. Nem sabemos como vai funcionar. Nem se —
— Funciona. — Natália cortou, sem hesitar. — Eu vi essa menina crescer profissionalmente, vi a força dela, vi o coração que ela esconde do mundo. Vocês estão apaixonados por ela. E ela está caindo por vocês dois… mesmo que tente negar. E justamente por isso ela está vulnerável.
Alan engoliu em seco.
— Mãe… Alicia tem medo. Medo da ilha, das fofocas, da imagem… de ser julgada.
— Eu sei. — Natália assentiu. — E por isso vocês precisam cuidá-la. Precisam mostrar para ela e para o mundo que ela não é “uma aventura” de vocês. Nem “um caso exótico”. Muito menos “um assunto de bar”.
O tom dela endureceu.
— Porque se vocês não fizerem isso, podem perdê-la. Para sempre.
Os dois se entreolharam, inquietos.
Natália percebeu o estremecimento — e continuou:
— Eu não quero ver a Alicia ser destruída pela língua venenosa dessa ilha. Eu não quero ver ela chorando escondida porque alguém disse que ela é promíscua, ou que está “se aproveitando” da minha família. E menos ainda quero ver vocês dois sendo covardes.
Alex apertou os punhos.
Alan respirou fundo, encarando o chão.
Natália suavizou o olhar, mas não perdeu firmeza:
— Vocês querem a Alicia?
Os dois responderam juntos, sem hesitar:
— Queremos.
— Então deem nome a isso. — ela disse. — Não um nome convencional… eu sei. É atípico. Mas vocês são homens, não meninos. Criem um contrato. Um compromisso. Algo que diga, claramente, que ela é parte da família. Que é protegida. Amada. Respeitada. E que ninguém tem o direito de tratá-la como se fosse qualquer coisa menor que isso.
A sala ficou em silêncio.
O mar soava ao longe, como se esperasse a decisão deles também.
Alex passou a mão no rosto, exasperado.
— Mãe… você sabe que isso não vai ser um casamento comum. Não é algo que exista.
— Existe agora. — Natália disse, com simplicidade.
Alan ergueu o olhar, preocupado.
— Você acha que ela aceitaria?
Natália sorriu, com aquela doçura perigosa que sempre precedia uma verdade profunda.
— Acho que Alicia é muito mais corajosa do que vocês dois juntos. E que se sentirá segura pela primeira vez na vida se vocês oferecerem isso… do jeito certo. No tempo certo.
Alex respirou fundo.
— E quando seria “o tempo certo”, mãe?
Ela se levantou da poltrona.
— Antes que a ilha destrua o que ainda está nascendo. Antes que ela se retraia por medo. Antes que vocês hesitem e deixem espaço para a insegurança dela vencer.
Natália caminhou até eles e pousou uma mão no ombro de cada um.
— Vocês conhecem aquela menina. Sabem que ela entrega tudo para quem ama… mas tem pavor de não ser suficiente. Pavor de ser julgada. Pavor de ser um problema.
Ela fez carinho no cabelo de Alex, depois na nuca de Alan — gestos tão naturais que os dois relaxaram automaticamente.
— Dêem a ela uma casa. Não uma casa física… — ela sorriu. — Mas um nome. Uma raiz. Um lugar onde ela possa dizer: “eu pertenço”.
A voz de Natália amaciou ainda mais:
— Alicia precisa de vocês. E vocês precisam dela. Vocês três podem dar certo… se tiverem coragem de assumir isso para o mundo.
Um silêncio profundo tomou conta da sala.
Finalmente, Alan falou primeiro:
— Mãe… e como seria esse… contrato?
Natália voltou a sentar e cruzou as mãos no colo.
— Simples. Claro. Forte. Um acordo entre vocês três que define: parceria, respeito, exclusividade emocional, proteção legal, suporte financeiro se necessário, plano de vida. Não é sobre bens. É sobre papel. Estrutura. Segurança. Sobre dizer ao mundo que Alicia é parte de vocês, não uma sombra.
Alex respirou fundo, passando a língua pelos lábios como quem escolhe as palavras:
— Isso realmente… protegeria ela?
— Protegeria vocês também. — Natália corrigiu.
Alan se inclinou para frente.
— E o que você acha que a ilha vai dizer?
— Que vocês são homens de palavra. — Natália respondeu sem piscar. — E que Alicia é uma mulher de família.
Alex soltou uma risada leve, quase incrédula.
— Você sempre foi estrategista, mãe.
Ela sorriu, um sorriso pequeno e cheio de significado.
— Eu sou mãe. Isso vem no pacote.
Os dois irmãos se entreolharam, e naquele olhar silencioso, cheio de história, confiança e medo compartilhado… a decisão começou a nascer.
Alex foi o primeiro a assentir.
Alan o seguiu.
Natália suspirou, emocionada.
— Então é isso. Quando estiverem prontos… peçam Alicia em casamento.
Alex sorriu com um brilho novo nos olhos.
Alan pareceu respirar melhor pela primeira vez em horas.
E Natália completou, levantando o queixo com orgulho:
— Porque aquela menina merece ser escolhida. Não por um.
Não por dois.
Mas pela família inteira.