Capítulo 31

1086 Palavras
🌙 CAPÍTULO — A NOITE DA VERDADE Alicia passou o resto do turno na cozinha como um fantasma inquieto. Cada panela que tilintava parecia ecoar uma lembrança do beijo rápido que recebera — um na testa, outro na bochecha — e das risadas abafadas de Gabriela e Luna. Não ajudava o fato de que cada vez que ela fechava os olhos, via os dois entrando juntos na cozinha. Um calor subiu pela nuca. — Ridículo… — ela sussurrou para si mesma, mexendo uma panela de creme. — Totalmente ridículo. Mas não sabia se falava deles ou de si mesma. Talvez dos três. Quando o turno terminou, Alicia escapou pelos fundos, desejando ser invisível por pelo menos cinco minutos. O corredor estava vazio, silencioso, iluminado por lâmpadas amareladas que jogavam sombras longas na parede. Ela só queria chegar a sua kitnet, tirar o avental, respirar. Mas, claro, nem isso teria. Porque ao dobrar o corredor — — achou os dois esperando. Alex estava encostado na parede, braços cruzados, o corpo relaxado demais para não ser planejado. Alan estava sentado em uma cadeira de espera, as mãos entrelaçadas, a expressão calma — a calma que ele usava antes de cirurgias delicadas. Os dois levantaram a cabeça ao mesmo tempo quando ela apareceu. Alicia parou bruscamente. Seu coração parou na mesma hora. — Ah, não — ela murmurou, sério pânico subindo. — Não. Não agora. Eu não… estou preparada. Eu só quero banho, cama e talvez mudar de país. Alex sorriu, o sorriso torto que dava vontade de virar a cara para não derreter. — Boa noite pra você também, Chef. Alan se levantou devagar, delicado como sempre. — Precisamos conversar. Alicia fechou os olhos, apertando as mãos no avental. — Vocês não podiam ter esperado amanhã? Ou depois? Ou nunca? Alex se afastou da parede e caminhou até ela, mas devagar, como quem se aproxima de um animal assustado. — A cozinha inteira viu, Alicia. A ilha inteira vai saber até o amanhecer. Não dá pra fugir. — Não estamos aqui pra pressionar — Alan completou, parando do outro lado. — Estamos aqui pra… ajeitar o que ficou bagunçado. Ela abriu os olhos, nervosa. — Eu não fiz nada de errado. — Nunca dissemos que fez — Alan respondeu com suavidade. Alex estendeu a mão e tocou de leve o braço dela. — Mas você ficou assustada. E a culpa é nossa. Alicia piscou, surpresa. Eles estavam… assumindo culpa? Alan respirou fundo. — Podemos ir pro seu quarto? Ou prefere outro lugar? Ela pensou rápido. Se fossem pro quarto, a ilha inventaria outra história. Se fossem pra qualquer lugar público, dariam show. — A praia. — ela decidiu. — Onde não tem gente e onde ninguém vai meter o nariz. Alex sorriu, satisfeito. — Perfeito. Alan assentiu. E os três caminharam juntos para fora do hotel. --- 🌙 À Beira do Mar — Onde Nada Pode Ser Escondido A areia estava fria, a noite limpa, e o som do mar parecia combinar com a respiração acelerada de Alicia. Eles pararam perto das pedras, onde a lua refletia como prata líquida. Alicia abraçou o próprio corpo. — Certo. — disse ela. — Falem. O que vocês querem? Alex e Alan trocaram um olhar silencioso — daqueles que diziam tudo sem uma palavra. Foi Alan quem começou: — Primeiro… queremos pedir desculpas. Alicia franziu a testa, confusa. — Desculpas? Por quê? — Porque expusemos você — Alan disse. — Mesmo sem intenção. — E porque a gente esqueceu que você odeia ser alvo de fofocas — Alex completou. — E agora… você é o assunto principal da ilha. Alicia engoliu seco. — Eu não odeio ser assunto. Eu só… — ela passou a mão no rosto, cansada. — Eu tenho medo. Medo de que pensem coisas horríveis. Que achem que eu tô usando vocês. Ou a Natália. Ou que eu sou… promíscua. A palavra saiu baixa, dolorida. Alex se aproximou devagar. — Ei, olha pra mim. Ela levantou o rosto. — Quem disser isso, eu resolvo. Pessoalmente. — ele disse, sério. — Você não merece esse tipo de julgamento nem na imaginação de ninguém. Alan tocou a mão dela. — Você não está fazendo nada errado. Nada. Alicia respirou fundo e olhou para os dois, a voz tremendo: — Então… por que vocês fizeram aquilo na cozinha? Beijos. Olhares. Aquele… “sorriso conjunto”. Vocês queriam o quê? Que todo mundo achasse o quê? Os dois ficaram em silêncio. Até que Alex deu um passo à frente, direto: — A gente quer você. Alicia sentiu o ar sumir. Alan completou: — Não como brincadeira. Não como disputa. Não como aventura. Alex a encarou, firme. — A gente quer você… do jeito que você ofereceu pra gente naquele jantar. O coração dela disparou. Alicia recuou um passo. — Isso… isso não é normal. Não é fácil. Não faz sentido. — Nada que vale a pena é fácil — Alan disse, aproximando-se. — E o normal é superestimado — Alex murmurou. Ela passou a mão pelo cabelo, desesperada. — E se der errado? Alex sorriu de canto. — A gente lida. — Juntos — Alan reforçou. Alicia sentiu o peito tremer. Ela não sabia se chorava, se xingava ou se abraçava os dois. — E… as pessoas? O que elas vão pensar? Alex abriu os braços, como quem descarta o problema. — Que se danem as pessoas. Alan riu baixinho. — Elegante como sempre, irmão. Alicia apertou as mãos. — Eu tenho medo. Alan levantou a mão e tocou o rosto dela com delicadeza. — Então vamos no seu ritmo. Alex tocou o ombro dela. — E do seu jeito. Alicia fechou os olhos, deixando uma lágrima escapar. Quando os abriu, os dois estavam tão perto, tão presentes, tão… dela, que a respiração ficou presa na garganta. — A gente só precisa saber uma coisa — Alex disse. — Uma única — Alan completou. Alicia engoliu seco. — Qual? Os dois, juntos: — Você quer tentar? O mar bateu nas pedras. O vento soprou. Alicia sentiu o coração decidir antes da boca. — Eu… quero. — ela sussurrou. — Eu quero tentar. Os dois sorriram — aquele sorriso gêmeo, devastador. Alex passou o polegar no canto da boca dela, tirando a lágrima. — Então vem aqui, Chef. Alan segurou sua mão com firmeza. E naquele instante — só naquele instante — Alicia permitiu que o medo cedesse. Porque, pela primeira vez, ela não estava caindo sozinha. Estava sendo segurada. Por dois.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR