🌙 CAPÍTULO — A NOITE DA VERDADE
Alicia passou o resto do turno na cozinha como um fantasma inquieto. Cada panela que tilintava parecia ecoar uma lembrança do beijo rápido que recebera — um na testa, outro na bochecha — e das risadas abafadas de Gabriela e Luna.
Não ajudava o fato de que cada vez que ela fechava os olhos, via os dois entrando juntos na cozinha.
Um calor subiu pela nuca.
— Ridículo… — ela sussurrou para si mesma, mexendo uma panela de creme. — Totalmente ridículo.
Mas não sabia se falava deles ou de si mesma.
Talvez dos três.
Quando o turno terminou, Alicia escapou pelos fundos, desejando ser invisível por pelo menos cinco minutos. O corredor estava vazio, silencioso, iluminado por lâmpadas amareladas que jogavam sombras longas na parede.
Ela só queria chegar a sua kitnet, tirar o avental, respirar.
Mas, claro, nem isso teria.
Porque ao dobrar o corredor —
— achou os dois esperando.
Alex estava encostado na parede, braços cruzados, o corpo relaxado demais para não ser planejado.
Alan estava sentado em uma cadeira de espera, as mãos entrelaçadas, a expressão calma — a calma que ele usava antes de cirurgias delicadas.
Os dois levantaram a cabeça ao mesmo tempo quando ela apareceu.
Alicia parou bruscamente.
Seu coração parou na mesma hora.
— Ah, não — ela murmurou, sério pânico subindo. — Não. Não agora. Eu não… estou preparada. Eu só quero banho, cama e talvez mudar de país.
Alex sorriu, o sorriso torto que dava vontade de virar a cara para não derreter.
— Boa noite pra você também, Chef.
Alan se levantou devagar, delicado como sempre.
— Precisamos conversar.
Alicia fechou os olhos, apertando as mãos no avental.
— Vocês não podiam ter esperado amanhã? Ou depois? Ou nunca?
Alex se afastou da parede e caminhou até ela, mas devagar, como quem se aproxima de um animal assustado.
— A cozinha inteira viu, Alicia. A ilha inteira vai saber até o amanhecer. Não dá pra fugir.
— Não estamos aqui pra pressionar — Alan completou, parando do outro lado. — Estamos aqui pra… ajeitar o que ficou bagunçado.
Ela abriu os olhos, nervosa.
— Eu não fiz nada de errado.
— Nunca dissemos que fez — Alan respondeu com suavidade.
Alex estendeu a mão e tocou de leve o braço dela.
— Mas você ficou assustada. E a culpa é nossa.
Alicia piscou, surpresa.
Eles estavam… assumindo culpa?
Alan respirou fundo.
— Podemos ir pro seu quarto? Ou prefere outro lugar?
Ela pensou rápido.
Se fossem pro quarto, a ilha inventaria outra história.
Se fossem pra qualquer lugar público, dariam show.
— A praia. — ela decidiu. — Onde não tem gente e onde ninguém vai meter o nariz.
Alex sorriu, satisfeito.
— Perfeito.
Alan assentiu.
E os três caminharam juntos para fora do hotel.
---
🌙 À Beira do Mar — Onde Nada Pode Ser Escondido
A areia estava fria, a noite limpa, e o som do mar parecia combinar com a respiração acelerada de Alicia.
Eles pararam perto das pedras, onde a lua refletia como prata líquida.
Alicia abraçou o próprio corpo.
— Certo. — disse ela. — Falem. O que vocês querem?
Alex e Alan trocaram um olhar silencioso — daqueles que diziam tudo sem uma palavra.
Foi Alan quem começou:
— Primeiro… queremos pedir desculpas.
Alicia franziu a testa, confusa.
— Desculpas? Por quê?
— Porque expusemos você — Alan disse. — Mesmo sem intenção.
— E porque a gente esqueceu que você odeia ser alvo de fofocas — Alex completou. — E agora… você é o assunto principal da ilha.
Alicia engoliu seco.
— Eu não odeio ser assunto. Eu só… — ela passou a mão no rosto, cansada. — Eu tenho medo. Medo de que pensem coisas horríveis. Que achem que eu tô usando vocês. Ou a Natália. Ou que eu sou… promíscua.
A palavra saiu baixa, dolorida.
Alex se aproximou devagar.
— Ei, olha pra mim.
Ela levantou o rosto.
— Quem disser isso, eu resolvo. Pessoalmente. — ele disse, sério. — Você não merece esse tipo de julgamento nem na imaginação de ninguém.
Alan tocou a mão dela.
— Você não está fazendo nada errado. Nada.
Alicia respirou fundo e olhou para os dois, a voz tremendo:
— Então… por que vocês fizeram aquilo na cozinha? Beijos. Olhares. Aquele… “sorriso conjunto”. Vocês queriam o quê? Que todo mundo achasse o quê?
Os dois ficaram em silêncio.
Até que Alex deu um passo à frente, direto:
— A gente quer você.
Alicia sentiu o ar sumir.
Alan completou:
— Não como brincadeira. Não como disputa. Não como aventura.
Alex a encarou, firme.
— A gente quer você… do jeito que você ofereceu pra gente naquele jantar.
O coração dela disparou.
Alicia recuou um passo.
— Isso… isso não é normal. Não é fácil. Não faz sentido.
— Nada que vale a pena é fácil — Alan disse, aproximando-se.
— E o normal é superestimado — Alex murmurou.
Ela passou a mão pelo cabelo, desesperada.
— E se der errado?
Alex sorriu de canto.
— A gente lida.
— Juntos — Alan reforçou.
Alicia sentiu o peito tremer.
Ela não sabia se chorava, se xingava ou se abraçava os dois.
— E… as pessoas? O que elas vão pensar?
Alex abriu os braços, como quem descarta o problema.
— Que se danem as pessoas.
Alan riu baixinho.
— Elegante como sempre, irmão.
Alicia apertou as mãos.
— Eu tenho medo.
Alan levantou a mão e tocou o rosto dela com delicadeza.
— Então vamos no seu ritmo.
Alex tocou o ombro dela.
— E do seu jeito.
Alicia fechou os olhos, deixando uma lágrima escapar.
Quando os abriu, os dois estavam tão perto, tão presentes, tão… dela, que a respiração ficou presa na garganta.
— A gente só precisa saber uma coisa — Alex disse.
— Uma única — Alan completou.
Alicia engoliu seco.
— Qual?
Os dois, juntos:
— Você quer tentar?
O mar bateu nas pedras.
O vento soprou.
Alicia sentiu o coração decidir antes da boca.
— Eu… quero. — ela sussurrou. — Eu quero tentar.
Os dois sorriram — aquele sorriso gêmeo, devastador.
Alex passou o polegar no canto da boca dela, tirando a lágrima.
— Então vem aqui, Chef.
Alan segurou sua mão com firmeza.
E naquele instante — só naquele instante — Alicia permitiu que o medo cedesse.
Porque, pela primeira vez, ela não estava caindo sozinha.
Estava sendo segurada.
Por dois.