🍽️ Na Cozinha do Hotel Paraíso — Verdades em Fogo Baixo
O hotel ainda despertava lentamente, mas a cozinha já estava acesa como sempre — panelas tilintando, cheiro de pão quente saindo do forno e o burburinho típico das primeiras horas. Luna picava legumes com a precisão de quem já fazia aquilo antes mesmo de saber andar. Gabriela, mais falante do que produtiva naquela manhã, secava xícaras enquanto cochichava com intensidade crescente.
Alicia, por sua vez, estava ali apenas para pegar um café. Ou pelo menos era o que ela dizia. Na verdade, sua curiosidade — e um leve medo daquele lugar cheio de línguas rápidas — a fazia permanecer encostada no balcão, de braços cruzados, fingindo neutralidade.
Mas Luna e Gabriela não perdiam tempo.
— Miga, eu juro, todo mundo na ilha tá falando desse triângulo — comentou Gabriela, semicantando enquanto batia a toalha no ombro. — Delegado Alex pra cá, Doutor Alan pra lá. A Natália andando toda metida como se tivesse ganhado na loteria.
Luna franziu o nariz, focada no corte impecável das cebolas.
— Triângulo nada. Eu ouvi dizer que é namoro sério. Com os dois. Ao mesmo tempo.
Alicia quase engasgou com o próprio café.
Gabriela arregalou os olhos como se tivesse acabado de descobrir ouro puro.
— É VERDADE, Chef Alicia? — ela disparou, sem filtro, levando as mãos à cintura. — A ilha inteira quer saber se é namoro… ou só pregação mesmo.
Luna ergueu o olhar, apoiando o cotovelo na bancada.
— Nada contra, viu? Aqui ninguém julga. Só queremos saber o que preparar pro jantar da fofoca.
A cozinha inteira — até quem fingia não estar ouvindo — virou a cabeça para Alicia.
Ela respirou fundo.
Por um instante pensou em fugir pela porta dos fundos, mas o orgulho não deixou. Além disso, se corresse, Luna publicaria no grupo das cozinheiras que “correu porque era verdade”.
Com calma, colocou a xícara sobre o balcão.
— Primeiro, vocês duas têm língua mais rápida que facão.
— Segundo, não existe triângulo.
— Terceiro… — seus lábios tremeram entre irritação e vergonha — …vocês realmente acham que eu conseguiria esconder alguma coisa nessa ilha?
Gabriela trocou um olhar cúmplice com Luna.
— Então é VERDADE?
Alicia tentou manter a expressão séria. Falhou miseravelmente.
— …É complicado — respondeu, em tom baixo. — Alex e Alan… são intensos. E eu não tô pregan—
— PEGANDO?! — Luna gargalhou. — Então não é peegação, é paixão!
A cozinheira idosa, Dona Tereza, que estava mexendo um panelão de caldo, não resistiu:
— Minha filha, se você tá com os dois, Deus te abençoe. Porque um já dá trabalho, imagina dois.
Alicia fechou o rosto de vergonha.
— Eu NÃO estou com os dois do jeito que vocês estão imaginando!
— Aham — disse Gabriela. — E eu não como brigadeiro escondido na madrugada.
— Alicia, querida — Luna continuou, apoiando o queixo na mão —, o delegado vive te encarando como se fosse te prender por desacato ao charme. E o doutor… bem, o doutor olha pra você como se você fosse receita de cura divina.
Toda a cozinha murmurou concordando.
Alicia corou até a raiz do cabelo.
— Eles só… se importam comigo.
— Claríssimo! — Gabriela bateu palmas. — Então tá confirmado: não é fofoca, é fato. Chef Alicia está sendo cortejada pelos dois herdeiros da Natália!
Alicia escondeu o rosto nas mãos.
Foi então que a porta da cozinha se abriu com força.
Alex e Alan entraram juntos — cada um carregando sacolas de frutas, suados, sorridentes… e completamente sincronizados como se tivessem ensaiado.
Silêncio total.
Luna sussurrou para Gabriela:
— Eita. Chegaram os patrocinadores da novela.
Alicia quis evaporar.
Alex piscou para ela.
Alan sorriu daquele jeito que deixava qualquer argumento fraco.
Gabriela levantou o dedo:
— Então, rapazes… já que estão aqui… o namoro é real ou não?
Alicia quase caiu da cadeira.
Os irmãos se entreolharam.
Alex abriu a boca para falar.
Alan respirou fundo.
O ar ficou tão pesado dentro da cozinha que dava para cortar com a faca do Luna.
Alicia, vermelha como um tomate recém tirado do pé, encarava o chão.
Gabriela mordia o lábio para não rir.
Luna segurava o celular discretamente, pronta para filmar se desse confusão.
Dona Tereza rezava baixinho, mas curiosa.
Alex deu um passo à frente.
Alan fez o mesmo.
Os dois estavam lado a lado… e perfeitamente tranquilos, como se já soubessem exatamente o que diriam.
— Então — repetiu Gabriela, empurrando o ar com as mãos — o namoro é verdade ou é só pregação?
O delegado cruzou os braços, inclinando a cabeça, com aquele sorriso torto que derretia a população feminina da ilha.
O médico ajeitou o cabelo, olhando diretamente para Alicia — aquele olhar que fazia promessas que ele nunca dizia em voz alta.
Um segundo.
Dois.
Três.
O silêncio virou quase uma tortura.
Alicia abriu um olho, desconfiada, só para ver os dois… sorrirem.
Um sorriso lento.
Significativo.
Que não revelava nada…
Mas prometia tudo.
E então, perfeitamente sincronizados — como se tivessem treinado — eles responderam:
— Depende… quem foi que contou primeiro?
Luna engasgou.
Gabriela bateu as mãos na mesa.
Dona Tereza deixou o caldo quase entornar.
Alicia arregalou os olhos, completamente perdida entre medo, vergonha e… aquele arrepio que os dois sempre provocavam.
Alex e Alan só se olharam, cúmplices.
E, sem explicar mais nada, caminharam até Alicia.
Um beijo na testa.
Outro na bochecha, do outro lado.
Nem uma palavra além disso.
Depois, saíram da cozinha como se não tivessem acabado de incendiar metade da ilha.
E deixaram todos — especialmente Alicia — num silêncio cheio de perguntas.
E nenhuma resposta.