Capítulo 41

880 Palavras
Doce Espera Era domingo à noite, e a cidade parecia respirar mais devagar. As luzes dos postes entravam pela janela da sala em tons suaves, desenhando sombras tranquilas nas paredes da pequena casa. Alicia estava sentada no sofá, com as pernas dobradas sob o corpo, girando distraidamente os pingentes do colar que Alex e Alan tinham dado a ela. O colar era lindo demais. Dois pingentes delicados, diferentes entre si, mas que juntos formavam um conjunto harmonioso — exatamente como eles. Alicia passou os dedos por cada detalhe, sentindo o metal frio aquecer aos poucos com o toque da sua pele. Sempre que o usava, tinha a sensação de carregar os dois perto do coração, mesmo quando estavam longe. Naquela noite, os dois estavam de plantão. Alex, na delegacia. Alan, no hospital. Ela suspirou leve, sem tristeza, apenas com aquela saudade mansa que não machuca, só aquece. Pegou o celular e abriu o grupo dos três. Digitou com carinho, sabendo que talvez demorassem a responder: “Ocupados, meninos?” Enviou a mensagem e colocou o celular de lado, no sofá. O silêncio voltou a se espalhar pela casa, quebrado apenas pelo tique-taque distante do relógio e pelo som quase imperceptível da respiração de Rex. Alicia se levantou e foi até a cozinha. A luz amarela iluminou o ambiente simples e organizado. Sobre a pia, a panela com o brigadeiro que ela tinha feito mais cedo descansava, já frio, com a superfície brilhando tentadora. Antes, porém, ela olhou para Rex. O cachorro estava na caminha dele, todo esticado, completamente entregue ao sono. A barriga subia e descia num ritmo tranquilo, e uma das patas se mexeu levemente, como se ele estivesse sonhando. — Boa noite, guardião — ela sussurrou, sorrindo. Pegou uma colher, afundou no brigadeiro e sentiu aquele cheiro doce e familiar que sempre a levava para um lugar de conforto. Não era apenas sobremesa. Era cuidado. Era carinho em forma de comida. Voltou para o sofá com a panela pequena nas mãos, sentando-se com cuidado para não derramar nada. Pegou o celular novamente, mais por hábito do que por ansiedade, e viu que as mensagens tinham chegado quase ao mesmo tempo. Alex: “Só aqui na delegacia, vendo uns casos.” Alan: “Tô fazendo uns relatórios de alguns prontuários.” O sorriso de Alicia foi automático, daqueles que nascem sem esforço. Ela imaginou Alex sério, concentrado, provavelmente com a gravata afrouxada, e Alan com o jaleco aberto, óculos pendendo no nariz enquanto digitava, absorto no trabalho. — Meus homens — murmurou baixinho, com ternura. Ela pegou a colher, levou um pouco de brigadeiro à boca e fechou os olhos por um segundo, saboreando. Então teve uma ideia. Ajustou a postura, segurou a panela com uma mão, o celular com a outra, inclinou levemente o rosto para a luz da sala e tirou uma foto simples: ela, de pijama confortável, sorriso doce, colher próxima aos lábios e o brigadeiro em destaque. Sem pensar muito, mandou a foto no grupo. “Domingo à noite pede brigadeiro.” Não demorou para as respostas surgirem. Alex reagiu primeiro, com um emoji de coração e depois escreveu: “Tá linda demais.” Alan veio logo em seguida: “Assim você mata a gente de saudade.” Alicia sentiu o peito aquecer. Aquela troca simples, aquelas palavras curtas, diziam muito mais do que longos discursos. Ela respondeu: “Tô com saudade também. Mas orgulhosa de vocês.” Enquanto esperava novas mensagens, Alicia se recostou no sofá, deixando a cabeça cair para trás. Olhou para o teto e deixou os pensamentos vagarem. Lembrou-se do dia em que ganhou o colar, da forma como os dois estavam nervosos, tentando parecer naturais, mas com os olhos cheios de significado. Lembrou-se das risadas, dos planos, da casa que sonhavam construir juntos. Aquela noite, apesar da ausência física, não era vazia. Pelo contrário. Estava cheia de presença. O celular vibrou novamente. Alex: “Quando eu sair daqui, vou passar numa padaria 24h e comprar algo pra você. Nem que seja amanhã cedo.” Alan: “E eu faço o café.” Alicia riu sozinha, um riso baixo e sincero. Digitou com os polegares rápidos: “Combinado. Vou guardar um pouco do brigadeiro pra vocês.” Ela sabia que talvez chegassem cansados, talvez em horários diferentes, talvez quase sem forças. Mas também sabia que aquele pequeno ritual — o doce, o café, o reencontro — era o que sustentava tudo. Não eram os grandes gestos, mas esses detalhes. Alicia apoiou a panela na mesinha de centro, puxou uma manta fina sobre as pernas e voltou a girar os pingentes do colar entre os dedos. O metal refletia a luz, criando pequenos brilhos que pareciam pulsar junto ao seu coração. Rex se mexeu na caminha, levantou a cabeça por um instante, olhou para ela e voltou a dormir. A casa estava viva, mesmo em silêncio. Ela mandou a última mensagem da noite: “Vão com calma. Estarei aqui.” Depois disso, desligou a tela do celular e deixou que o domingo se encerrasse lentamente. Entre o doce do brigadeiro, o peso confortável da manta e a certeza do amor que a cercava, Alicia fechou os olhos por alguns segundos. Esperar, naquela noite, não era solidão. Era cuidado. Era amor em descanso.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR