Capítulo 42

1070 Palavras
Entre Olhares, Cartões e Descobertas Os meses passaram quase sem que Alicia percebesse. Quando se deu conta, já eram cinco meses desde o início da obra da casa. A cada visita ao terreno, o cheiro de cimento fresco e madeira nova misturava-se a um sentimento estranho de pertencimento. Ainda não era um lar, mas já não era apenas um sonho. As paredes começavam a ganhar forma, assim como a vida que ela construía ao lado de Alex e Alan. No começo, tudo parecia pesado demais. Os olhares atravessados, os cochichos nas esquinas, as frases ditas pela metade. O povo falava. Falava do jeito deles, do relacionamento que poucos entendiam e muitos julgavam sem conhecer. Alicia sofreu no início, chorou em silêncio algumas noites, perguntando-se se daria conta de carregar aquilo tudo. Mas o tempo, como sempre, fez seu trabalho. Ela se acostumou. Não porque as palavras deixaram de doer completamente, mas porque aprendeu a não permitir que elas definissem quem ela era. Além disso, o povo sempre precisava de assunto novo. E, como era de se esperar, logo surgiu outra “vítima” para ocupar as conversas maldosas. Alicia percebeu isso num sábado qualquer, ao ouvir seu nome ser substituído por outro na boca das mesmas pessoas que antes a apontavam. Sentiu um misto de alívio e tristeza. Alívio por finalmente respirar sem o peso constante do julgamento; tristeza por saber que alguém agora passava pelo que ela havia passado. Na kitnet, sua vida seguia simples e organizada. Era ali que ela ainda se sentia mais segura. Mesmo sabendo que a casa nova estava a caminho, aquele pequeno espaço carregava memórias importantes: as conversas longas, as risadas tímidas, os aprendizados diários. Foi ali que o telefone tocou naquela manhã, mudando completamente o rumo do seu dia. — Alicia, minha querida! — a voz animada de Natália soou do outro lado da linha. — Oi, dona Natália — respondeu, com carinho e um leve estranhamento. Natália nunca ligava sem um motivo claro. — Estava pensando… hoje à tarde a gente podia sair um pouco. Precisamos comprar uns brinquedos. Alicia franziu a testa, olhando para o nada, como se a resposta estivesse escrita na parede. — Brinquedos? — repetiu, confusa. — Pra… crianças? Do outro lado da linha, Natália riu, aquela risada cheia de intenção, experiente, quase provocadora. — Não exatamente, minha filha. Depois eu te explico melhor. Se arruma, passo aí mais tarde. Antes que Alicia pudesse fazer outra pergunta, a ligação foi encerrada. Ela ficou parada por alguns segundos, o telefone ainda na mão, tentando entender o que acabara de acontecer. Brinquedos? Aquilo não fazia o menor sentido. Mesmo confusa, decidiu se arrumar. Escolheu uma roupa simples, mas bonita. Um vestido leve, sapatos confortáveis. Enquanto se olhava no espelho, tentou afastar a ansiedade que crescia dentro de si. Natália sempre foi direta, mas aquela conversa tinha deixado algo no ar. Antes de sair, Alex e Alan passaram na kitnet. Estavam vindo do trabalho, com aquele jeito cúmplice de sempre. — Amor — disse Alan, tirando a carteira do bolso —, a gente queria te dar isso. Ele estendeu um cartão para ela. Alicia arregalou os olhos. — Pra quê isso? — Pra você comprar algumas coisas pra nós — explicou Alex, sorrindo. — Coisas que a gente pode deixar aqui, na sua kitnet. Assim, quando precisarmos… já vai estar tudo aqui. Alicia sentiu o rosto esquentar. Entendeu imediatamente o que eles queriam dizer, mas mesmo assim engoliu em seco. — Vocês pensam em tudo, né? — disse, tentando manter o tom leve. — A gente pensa em você — respondeu Alan, com carinho. — E na nossa vida juntos. Ela guardou o cartão com cuidado, sentindo o peso simbólico daquele gesto. Não era apenas dinheiro; era confiança, parceria, futuro. Pouco tempo depois, Natália chegou. Elegante como sempre, com um sorriso que misturava ternura e determinação. — Vamos? — perguntou, já abrindo a porta do carro. Durante o trajeto, Natália explicou, sem rodeios, o motivo do passeio. Contou que soube que Alicia era virgem e que, em breve, se casaria com dois homens. Disse que não havia vergonha nenhuma nisso, mas que acreditava que informação e cuidado faziam toda a diferença. — Quero que você se sinta segura, preparada, confiante — falou Natália, com seriedade. — Ninguém nasce sabendo. E não há nada de errado em aprender. Quando o carro parou em frente ao s*x shop, Alicia sentiu o coração acelerar. Nunca imaginou entrar em um lugar daqueles, muito menos acompanhada da sogra. O nome iluminado na fachada parecia gritar suas inseguranças. — Respira — disse Natália, percebendo o nervosismo. — Isso aqui é só uma loja. Como qualquer outra. Lá dentro, o ambiente era discreto, organizado, longe da ideia exagerada que Alicia tinha na cabeça. Prateleiras bem arrumadas, iluminação suave, atendentes respeitosos. Ainda assim, ela se sentia deslocada, caminhando devagar, observando tudo com olhos curiosos e envergonhados. Natália conduziu o passeio com naturalidade, explicando, perguntando, mostrando opções. Falava sobre cuidado, sobre limites, sobre respeito ao próprio tempo. Em nenhum momento pressionou Alicia. Pelo contrário, fazia questão de lembrar que tudo só deveria acontecer quando ela se sentisse pronta. — O mais importante — disse, segurando a mão dela — é você se conhecer. Saber o que gosta, o que não gosta. E nunca fazer nada só pra agradar os outros. Alicia ouviu cada palavra com atenção. Sentiu, pela primeira vez, que aquele assunto não precisava ser carregado de medo ou vergonha. Era apenas mais uma parte da vida. Quando saíram da loja, o sol já começava a se pôr. Alicia carregava uma sacola pequena, mas o que pesava mesmo era a quantidade de pensamentos novos dentro de si. — Obrigada — disse, sincera, olhando para Natália. — Por tudo. — Você faz parte da família agora — respondeu ela, com um sorriso doce. — E família cuida. De volta à kitnet, sozinha por alguns minutos antes de Alex e Alan chegarem, Alicia sentou-se na cama e respirou fundo. Pensou na casa em construção, nos olhares do povo, no cartão guardado na bolsa, na conversa com Natália. Tudo parecia intenso demais, mas, ao mesmo tempo, certo. Ela não sabia exatamente como seria o futuro. Sabia apenas que não estava mais sozinha, que aprendia um pouco mais a cada dia e que, apesar dos desafios, estava construindo algo verdadeiro. E isso, mais do que qualquer julgamento, era o que realmente importava.
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