Capítulo 43

918 Palavras
Um Passeio Só Deles Alicia respirou fundo antes de fazer a chamada. Estava sentada na beira da cama da kitnet, o celular nas mãos, os pensamentos alinhando-se devagar. Depois do dia intenso com Natália, sentia que precisava transformar tudo aquilo em algo leve, simples, deles. Não queria segredos nem constrangimentos. Queria compartilhar. — Meninos, vocês conseguem sair comigo hoje? — perguntou assim que Alex atendeu, com Alan ao fundo. — Claro — respondeu Alex, sem hesitar. — Aconteceu alguma coisa? — Nada de r**m — disse ela, sorrindo sozinha. — Eu só pensei que a gente podia ir comprar algumas coisas… pra vocês. E depois tomar um sorvete no shopping. Um passeio nosso. Houve um breve silêncio do outro lado, seguido de uma risada suave de Alan. — Um passeio de casal — ele disse. — Ou melhor, um passeio nosso. Alicia sentiu o peito aquecer. Era isso. Um momento simples, sem explicações ao mundo, sem pesos desnecessários. Apenas eles. Pouco tempo depois, Alex e Alan chegaram à kitnet. Alicia percebeu como aquele lugar, apesar de pequeno, já os recebia como se fosse um ponto fixo da história deles. Ali, tudo parecia mais verdadeiro. Ela pegou a bolsa, conferiu se o cartão estava lá e fechou a porta com cuidado. — Para onde primeiro? — perguntou Alex, enquanto caminhavam até o carro. — Loja — respondeu ela, decidida. — Depois sorvete. Prioridades. O shopping estava movimentado, mas não cheio demais. Luzes claras, vitrines chamativas, pessoas passando apressadas ou tranquilas, cada uma vivendo sua própria história. Alicia caminhava entre Alex e Alan, sentindo-se protegida, pertencente. Notou alguns olhares curiosos, mas não se incomodou. Não mais. Entraram na primeira loja que Alicia havia escolhido. Nada chamativo, tudo discreto. Ela respirou fundo antes de falar. — Eu quero comprar algumas coisas pra vocês deixarem lá em casa — disse, olhando nos olhos dos dois. — Não é obrigação, nem cobrança. É só… cuidado. Alan segurou a mão dela. — A gente entende — disse ele. — E agradece. Alex assentiu, com um sorriso calmo. — É bom saber que você pensa assim. Que pensa em nós. Alicia começou a escolher com atenção, perguntando, ouvindo opiniões. Não havia vergonha ali, apenas diálogo. Em alguns momentos, ria do próprio nervosismo; em outros, ficava séria, pensando se estava fazendo a escolha certa. Alex e Alan participavam, sem pressa, respeitando o tempo dela. — A gente não precisa decidir tudo hoje — lembrou Alex, percebendo a tensão nos ombros dela. — Eu sei — respondeu Alicia. — Mas eu quero. No meu tempo, do meu jeito. Saíram da loja com uma sacola discreta. Nada exagerado, nada que gritasse para o mundo. Apenas o suficiente para marcar um passo adiante. Ao caminhar pelo corredor do shopping, Alicia sentiu uma mistura de orgulho e alívio. Não era o que havia comprado que importava, mas o fato de ter feito aquilo sem medo. — Agora o sorvete — anunciou Alan, apontando para a praça de alimentação. Sentaram-se em uma sorveteria simples, mas aconchegante. Alicia escolheu um sabor clássico; Alex foi direto ao seu preferido; Alan, indeciso como sempre, pediu duas bolas diferentes. O clima era leve, quase juvenil, contrastando com a seriedade de momentos anteriores. — Engraçado — disse Alicia, mexendo o sorvete com a colher. — Hoje foi um dia cheio de primeiras vezes. — E de escolhas — completou Alex. — E de sorvete — acrescentou Alan, arrancando risadas dos dois. Eles ficaram ali por um tempo, observando as pessoas, comentando coisas bobas, rindo de situações pequenas. Alicia percebeu como precisava daquilo. Como, às vezes, o simples era o que mais fortalecia. — Vocês já pensaram — começou ela, com cuidado — que a nossa casa não vai ser só paredes e móveis? Alan inclinou a cabeça, atento. — Vai ser rotina — disse Alex. — Vai ser silêncio e barulho. Vai ser bagunça e organização. — Vai ser escolha diária — completou Alicia. — Mesmo quando for difícil. Alan estendeu a mão por cima da mesa e segurou a dela. — A gente escolhe — disse ele. — Todo dia. Quando terminaram o sorvete, caminharam mais um pouco pelo shopping. Entraram em lojas sem comprar nada, apenas olhando. Alicia parou em frente a uma vitrine de decoração e ficou imaginando a casa pronta, os espaços preenchidos, as histórias que ainda viriam. — Dá medo — confessou, baixinho. — Dá — respondeu Alex, sincero. — Mas dá mais vontade do que medo. Ao saírem do shopping, a noite já havia caído. O estacionamento estava iluminado, o ar mais fresco. Alicia entrou no carro com uma sensação estranha de cansaço bom, como se tivesse vivido algo importante, mesmo sem grandes acontecimentos. No caminho de volta à kitnet, o silêncio foi confortável. Não havia necessidade de palavras. Quando chegaram, Alicia abriu a porta e deixou que eles entrassem primeiro. Colocou a sacola em um canto, organizou mentalmente onde tudo ficaria depois. — Obrigada por hoje — disse ela, encostando-se na porta. — Obrigado a você — respondeu Alex. — Por nos incluir — completou Alan. Alicia sorriu. Pela primeira vez, sentiu que aquele passeio havia sido mais do que compras e sorvete. Tinha sido um ensaio do que viria: decisões compartilhadas, passos dados juntos, momentos simples que, sem aviso, se transformavam em pilares. Quando ficaram ali, sentados, conversando baixo, Alicia pensou que talvez fosse isso que chamavam de lar. Não o tamanho da casa, nem o olhar do povo, mas a sensação de estar exatamente onde deveria estar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR