A Pergunta que Corou o Silêncio
A noite já tinha se acomodado do lado de fora quando o clima dentro da kitnet ficou mais quieto. Não era um silêncio pesado, mas carregava algo suspenso, como se uma palavra estivesse prestes a cair e ninguém soubesse exatamente quando. Alicia arrumava a pequena mesa, juntando as embalagens vazias do sorvete, enquanto Alex e Alan estavam sentados no sofá, relaxados depois do passeio.
Foi então que Alex quebrou o silêncio, num tom simples demais para o impacto que causaria.
— Amor… — ele começou, olhando para ela com naturalidade — o que exatamente a nossa mãe foi te levar pra comprar hoje dia?
Alicia sentiu o corpo reagir antes mesmo da mente. O rosto esquentou num instante, como se alguém tivesse acendido uma luz dentro dela. As mãos ficaram inquietas, o coração acelerou. Ela parou no meio do movimento, ainda segurando um guardanapo amassado.
Alan levantou o olhar devagar, curioso, mas sem malícia.
— Você comentou por alto — disse ele —, mas não explicou direito.
Alicia engoliu em seco. Ela não queria esconder nada deles. Nunca quis. Sempre acreditou que a base do que estavam construindo era a verdade. Mas, naquele momento, a vergonha falava alto. Não vergonha do que havia vivido, mas do medo da reação deles, do medo de parecer ingênua demais, ou de decepcionar.
— Eu… — começou, e a voz saiu mais baixa do que pretendia.
Alex percebeu o desconforto imediatamente. Levantou-se do sofá e foi até ela, mantendo uma distância respeitosa.
— Ei — disse com suavidade —, você não é obrigada a falar se não quiser. Foi só curiosidade.
— Não — respondeu Alicia rápido demais. — Eu quero falar. Só… me dá um minuto.
Ela respirou fundo, apoiando as mãos na mesa. Lembrou-se da conversa com Natália, do cuidado, das palavras firmes e carinhosas. Lembrou-se também do que sentia por Alex e Alan. Se havia um lugar seguro para dizer aquilo, era ali.
— A mãe de vocês me levou a um s*x shop — disse de uma vez, fechando os olhos por um segundo.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Não pesado, não tenso. Apenas atento.
Alicia abriu os olhos devagar. Alex estava sério, mas não chocado. Alan inclinou um pouco a cabeça, processando a informação.
— Ela disse que… — Alicia continuou, sentindo o rosto queimar ainda mais — disse que queria que eu me sentisse preparada. Porque eu sou virgem. E porque vou me casar com vocês dois.
As palavras ficaram no ar, frágeis e verdadeiras. Alicia apertou os dedos uns nos outros, esperando. Não sabia exatamente o quê: reprovação, surpresa exagerada, talvez até silêncio constrangedor.
Mas o que veio foi diferente.
Alan foi o primeiro a falar.
— Ela foi… bem direta — disse ele, com um meio sorriso, não de deboche, mas de reconhecimento. — Isso é bem a cara da nossa mãe.
Alex respirou fundo, passando a mão pelos cabelos.
— Eu fico surpreso — admitiu —, mas não chateado. Só queria ter sabido antes… pra te poupar qualquer desconforto.
Alicia sentiu os olhos arderem.
— Ela não me constrangeu — disse rápido. — Pelo contrário. Foi cuidadosa. Só que… eu fiquei com medo de vocês acharem estranho. Ou acharem que eu não confio em vocês.
Alex se aproximou mais um pouco.
— Alicia — disse com firmeza tranquila —, confiança não é contar tudo no mesmo segundo. É saber que, quando você conta, vai ser acolhida.
Alan se levantou e ficou ao lado dos dois.
— E sobre você ser virgem… — ele começou, escolhendo as palavras — isso não muda nada do que sentimos. Não te faz menos preparada, nem menos mulher.
Alicia deixou escapar uma lágrima silenciosa, que escorreu antes que pudesse controlar e a Alex a pegou com dedo pois as lágrimasde Alicia não era desperdiçadassempre que tinham oportunidades eles provavam delas. Não era tristeza. Era alívio.
— Eu só tenho medo de decepcionar — confessou. — De não saber fazer as coisas direito. De não corresponder.
Alex tocou o rosto dela com cuidado, levantando o queixo para que ela o olhasse.
— Você não tem que corresponder a um padrão — disse. — A gente vai aprender juntos. No seu tempo.
— E no nosso — completou Alan. — Sem pressa. Sem cobrança.
Alicia respirou fundo, sentindo o peso que carregava no peito se dissolver aos poucos.
— A mãe de vocês disse algo parecido — contou. — Que eu tinha que me conhecer, respeitar meus limites.
Alex sorriu de leve.
— Ela é boa nisso. Às vezes até boa demais.
Os três riram, quebrando de vez a tensão. Alicia sentiu-se mais leve, como se uma porta tivesse sido aberta dentro dela. Não havia mais aquele segredo pulsando entre eles.
Ela se afastou um pouco e foi até a bolsa, pegando a pequena sacola que havia deixado ali desde que chegara.
— Já que estamos sendo honestos… — disse, erguendo a sacola — isso também tem a ver com isso tudo.
Alan arqueou a sobrancelha, curioso.
— Agora fiquei interessado.
Alicia explicou, com palavras simples, que havia comprado algumas coisas para deixar na kitnet, para quando eles precisassem. Falou do cartão, do gesto deles, do significado que aquilo tinha para ela.
— Não é obrigação — reforçou. — É só… cuidado. Do meu jeito.
Alex olhou para a sacola, depois para ela.
— Você percebe como isso tudo é novo pra você? — perguntou.
— Sim — respondeu Alicia. — E dá medo.
Alan se aproximou e segurou a mão dela.
— O novo sempre dá. Mas você não está sozinha nisso.
Eles se sentaram juntos no sofá, sem abrir a sacola, sem transformar aquilo em algo maior do que era. O importante não estava nos objetos, mas na conversa que tinham acabado de atravessar.
— Obrigado por confiar na gente — disse Alex, quebrando o silêncio confortável.
— Obrigada por não me julgarem — respondeu Alicia.
Alan sorriu, encostando a cabeça no encosto do sofá.
— Acho que hoje a gente cresceu um pouco mais como… nós.
Alicia concordou em silêncio. O medo ainda existia, mas agora dividia espaço com algo mais forte: a certeza de que podia falar, corar, tremer — e ainda assim ser aceita.
Naquela noite, enquanto conversavam sobre coisas simples, Alicia entendeu que i********e não começava no corpo, mas na coragem de dizer verdades difíceis. E isso, ela tinha dado um passo importante para conquistar.