Entre Remédios, Silêncios e Cuidado
Aquela semana chegou com um peso diferente. Alicia sentava-se na cadeira da pequena sala de espera do hospital, com a bolsa apoiada no colo e as mãos entrelaçadas sobre ela. Já conhecia bem aquele ritual, mas isso não o tornava mais fácil. Pelo contrário: cada vez parecia exigir um novo tipo de coragem.
Era noite. As luzes do hospital eram frias, constantes, quase imutáveis. O cheiro característico de limpeza misturava-se ao som distante de passos apressados, vozes baixas e o bip ocasional de algum equipamento ao longe. Alicia respirou fundo. Em poucas horas, teria que tomar a medicação. Antes disso, como sempre, os exames de check-up. Tudo precisava estar certo. Sempre precisava.
Ela olhou para o celular e releu a última mensagem de Alex.
“Desculpa não estar aí, amor. Plantão puxado hoje. Mas estou com você em pensamento. O Alan cuida de você por mim.”
Alicia sorriu de leve. Sabia que Alex queria estar ali. Ele nunca faltava quando podia. Mas aquela noite, a delegacia precisava dele. E ela entendia. Mesmo assim, sentiu uma pontada de saudade antecipada, aquela vontade de ter as duas mãos segurando a sua ao mesmo tempo.
— Vai dar tudo certo — murmurou para si mesma, como se fosse um mantra.
— E vai mesmo.
A voz veio de lado. Alan aproximava-se pelo corredor, usando o jaleco branco por cima da roupa comum. O rosto estava sério, mas os olhos denunciavam cuidado e atenção. Não era apenas um médico chegando para um turno de trabalho. Era alguém que estava ali por ela.
— Oi — disse Alicia, levantando-se devagar.
Alan sorriu e abriu os braços. Ela se aproximou e aceitou o abraço, sentindo-se imediatamente mais segura.
— Como você está? — perguntou ele, olhando-a com atenção profissional e, ao mesmo tempo, profundamente pessoal.
— Um pouco nervosa — respondeu com sinceridade. — Eu sempre fico.
— Eu sei — disse ele. — Mas hoje você não está sozinha. Nem como paciente, nem como… — ele fez uma pausa curta, escolhendo as palavras — noiva.
Alicia sentiu o coração apertar de um jeito bom.
Alan conduziu-a pelos corredores com calma, explicando cada passo, mesmo sabendo que ela já conhecia o processo. Não era repetição; era cuidado. Cada explicação era uma forma de dizer “estou aqui”.
— Primeiro os exames — disse ele, parando em frente a uma sala. — Depois, se tudo estiver certo, a medicação.
Alicia assentiu.
Enquanto aguardava, sentada novamente, agora em uma cadeira mais confortável, Alicia observava o hospital à noite. Havia algo diferente naquele horário. Menos movimento, menos barulho, mas mais intensidade. Pessoas fragilizadas, profissionais cansados, histórias acontecendo em silêncio.
— Sabe — disse ela, quebrando o silêncio enquanto Alan conferia alguns papéis —, às vezes eu fico pensando se não canso vocês com isso tudo.
Alan ergueu o olhar imediatamente.
— Nunca — respondeu, sem hesitar. — E não é “isso tudo”. É você.
Ela desviou o olhar, emocionada.
— Alex sempre diz que a gente escolhe todo dia — continuou Alicia. — Mesmo quando é difícil.
Alan aproximou-se mais.
— E hoje eu escolhi estar aqui. Como médico, porque é meu dever. E como noivo, porque é meu lugar.
Alicia respirou fundo, sentindo os olhos marejarem.
Os exames começaram pouco depois. Alan manteve uma postura profissional impecável, mas Alicia percebia os pequenos gestos: o tom de voz mais baixo, o olhar atento aos detalhes, a mão que tocava seu ombro brevemente, oferecendo conforto sem invadir.
— Está indo bem — disse ele em determinado momento. — Tudo dentro do esperado.
Alicia soltou o ar que nem percebera estar segurando.
— Ainda bem.
Quando terminaram, ela foi encaminhada para o quarto onde receberia a medicação. A luz era mais suave ali. Alan ajustou a cadeira ao lado da cama.
— Você pode sentar — disse Alicia. — Não precisa ficar em pé.
— Eu vou ficar aqui — respondeu ele, sentando-se e ficando à altura dela. — A noite inteira, se precisar.
Ela deitou-se com cuidado, sentindo o corpo já antecipar o cansaço que viria depois. O silêncio foi preenchido apenas pelos sons do hospital.
— Você está com medo? — perguntou Alan, baixinho.
Alicia pensou por alguns segundos antes de responder.
— Não do remédio — disse. — Mas de tudo que ele representa. Do que vem depois. Do futuro.
Alan assentiu, compreendendo.
— Medo não é sinal de fraqueza — disse ele. — É sinal de que isso importa.
Ela virou o rosto para olhá-lo.
— E se um dia eu não der conta?
Alan segurou a mão dela com firmeza.
— Aí a gente segura juntos. Você não precisa ser forte sozinha.
A medicação começou. Alicia fechou os olhos por um instante, sentindo o corpo reagir lentamente. Alan observava atentamente, atento a cada detalhe, mas também à respiração dela, ao leve franzir da testa, aos sinais silenciosos.
— Estou aqui — disse ele, repetindo, como se fosse um lembrete constante.
O tempo passou de forma estranha, como sempre acontecia naquele ambiente. Alicia sentia o corpo mais pesado, mas o coração estranhamente tranquilo. Sabia que, em algum lugar da cidade, Alex também estava trabalhando, pensando nela. Sabia que Alan estava ali, não apenas por obrigação, mas por amor.
— Obrigada — murmurou ela, com a voz mais fraca.
— Pelo quê?
— Por cuidar de mim assim.
Alan sorriu de leve.
— Isso não é favor, Alicia. É compromisso.
Ela abriu os olhos e encontrou o olhar dele. Naquele momento, entendeu que cuidado também era uma forma de amor. Talvez a mais concreta de todas.
A noite seguiu, silenciosa, longa, mas segura. E, mesmo cansada, Alicia sentiu que havia algo de profundamente bonito em ser cuidada daquele jeito. Não como alguém frágil, mas como alguém valiosa.
Quando finalmente adormeceu, com a mão ainda segura pela de Alan, teve a certeza de que, apesar dos desafios, estava exatamente onde deveria estar.