Sob o Mesmo Sol
Alex foi o primeiro a se levantar quando nossos olhares se cruzaram. Eu ainda tentava controlar o nervosismo, ajeitando a canga em volta do corpo, quando ele já vinha em minha direção, passos firmes pela areia quente, o sorriso tranquilo de quem tinha absoluta certeza do que sentia.
— Princesa… você está linda.
Aquela palavra — princesa — me atingiu em cheio. Senti o rosto esquentar na mesma hora, como se o sol tivesse decidido se concentrar apenas em mim. Baixei os olhos por um segundo, sem saber onde colocar as mãos, o coração acelerado demais para fingir normalidade.
Alex estendeu a mão, com delicadeza.
— Vem — disse baixo. — Quero que fique com a gente.
Aceitei. E quando ele segurou minha mão, não houve pressa, nem força exagerada. Apenas um toque firme, protetor, como se dissesse sem palavras que eu estava segura ali.
Alan nos observava de onde estava sentado, próximo a uma sombra improvisada do guarda-sol. Quando me aproximei, ele se levantou ligeiramente, abrindo espaço ao seu lado. Sentei-me ali, sentindo a areia morna sob a canga, o som do mar preenchendo os silêncios que não precisavam ser quebrados.
— Você está linda, amor — Alan disse, a voz suave, os olhos percorrendo meu rosto com um cuidado quase reverente.
Sorri, sem saber como reagir a tanto carinho. Eu, que até aquela manhã só queria terminar a faxina da semana, agora estava ali, entre os dois, sentindo-me vista de uma forma que nunca havia experimentado antes.
Natália apareceu logo em seguida, com um chapéu enorme e óculos escuros, o sorriso de quem tinha plena consciência do próprio “plano” funcionando.
— Viu só? — disse ela, satisfeita. — Consegui mesmo te tirar de casa.
— A mamãe é persistente — Alan respondeu, rindo baixo.
— E intrometida — Alex completou, com carinho.
Natália fingiu indignação, mas o sorriso não saiu do rosto.
— Intrometida nada. Eu só ajudo o destino quando ele é lento demais.
Ela se afastou, deixando-nos novamente naquele pequeno universo só nosso. Alex se sentou do meu outro lado, formando uma espécie de proteção natural ao meu redor. Eu percebia os olhares curiosos de algumas pessoas ao redor, mas nada era ostensivo. Ainda assim, havia um acordo silencioso entre nós.
Eles não me beijavam em público.
Não por falta de vontade — eu sentia isso nos gestos contidos, nos olhares demorados —, mas por respeito. Não queriam me expor, não queriam transformar algo tão íntimo em espetáculo.
Alex pegou minha mão com cuidado e, sem chamar atenção, levou-a até os lábios. O beijo foi leve, respeitoso, quase cerimonial.
— Foi a melhor coisa do meu dia você estar aqui — ele disse, baixo, como um segredo só nosso.
Meu peito se apertou de um jeito bom, intenso demais para ser ignorado. Antes que eu pudesse responder, Alan fez o mesmo. Pegou minha outra mão, repetindo o gesto com a mesma delicadeza, como se aquele simples ato dissesse mais do que qualquer declaração pública.
— A gente queria você aqui desde cedo — Alan confessou. — Só não imaginávamos que a mamãe ia resolver tudo por nós.
Balancei a cabeça, ainda sem acreditar.
— Eu quase não vim… — admiti. — Fiquei morrendo de vergonha.
— Vergonha de quê? — Alex perguntou, inclinando-se um pouco mais perto, a voz carregada de ternura. — Você não tem ideia do quanto é linda… por fora e por dentro.
O vento trouxe o cheiro de sal e protetor solar. O mar avançava e recuava, constante, como se marcasse o tempo daquele momento. Luna e Gabriela apareceram mais adiante, rindo, satisfeitas com o resultado da missão. Luna piscou discretamente para mim, como quem diz deu certo.
Conversamos sobre coisas simples: o trabalho, a semana corrida, histórias da infância deles que Natália fazia questão de exagerar. Em alguns momentos, Alex colocava a mão atrás de mim, sem tocar diretamente, mas presente. Em outros, Alan se inclinava para falar algo no meu ouvido, a voz baixa, fazendo um arrepio leve percorrer minha espinha.
Nada era explícito. Tudo era sentido.
E talvez fosse isso que tornava tudo tão intenso.
Em determinado momento, Alex se levantou.
— Vou buscar água de coco — anunciou. — Princesa, prefere natural ou gelada?
Sorri.
— Gelada.
— Pedido registrado — respondeu, com um meio sorriso antes de se afastar.
Fiquei sozinha com Alan por alguns instantes. Ele me observou em silêncio, os olhos cheios de algo que eu ainda aprendia a nomear.
— Você está confortável? — perguntou.
Assenti.
— Estou… mais do que eu achei que estaria.
— Isso é importante — ele disse. — A gente nunca quer que você se sinta pressionada. Nem hoje, nem nunca.
Respirei fundo, tocada pela seriedade com que ele falava.
— Eu sei.
Alex voltou logo depois, entregando-me a água de coco, cuidando para que eu não derramasse. Pequenos gestos, simples, mas carregados de intenção.
O sol começou a baixar lentamente, tingindo o céu de tons dourados e alaranjados. Eu me dei conta de que aquele sábado, que começou como qualquer outro, havia se transformado em uma memória que eu guardaria para sempre.
Ali, sentada entre Alex e Alan, sem beijos públicos, sem excessos, apenas com respeito, cuidado e um afeto que crescia em silêncio, eu entendi uma coisa simples e poderosa:
Às vezes, o amor não precisa ser exibido.
Ele só precisa ser sentido.