Pré-visualização gratuita O Homem
O morro nunca dormia.
Mas naquela noite… ele estava inquieto.
O tipo de silêncio que vem antes de uma guerra.
Lá de cima, onde as luzes da cidade piscavam como um convite distante, era possível ver o caos tentando se organizar — homens armados em esquinas, olhares desconfiados, rádios chiando, ordens sendo dadas em voz baixa.
Algo estava errado.
Muito errado.
E todo mundo sabia.
Só ninguém tinha coragem de dizer em voz alta.
Porque no morro, quando o problema não tem nome…
Significa que alguém já morreu por causa dele.
—
O carro preto subiu devagar.
Importado. Blindado. Silencioso.
Deslocado demais pra aquele lugar.
Chamava atenção.
E ainda assim… ninguém ousava parar.
Porque o aviso já tinha sido dado.
“Ele tá chegando.”
Dentro do carro, Henrik Volkov observava tudo.
Sem pressa.
Sem expressão.
Os olhos claros — quase gelados — analisavam cada detalhe como se estivesse mapeando um campo de batalha.
E, de certa forma, estava.
Ele não falava.
Não precisava.
O motorista mantinha as mãos firmes no volante, rígido como se estivesse carregando algo perigoso.
E estava.
Henrik descruzou as pernas lentamente, ajustando o terno escuro sob medida. Tudo nele era impecável demais pra aquele cenário — desde o corte do cabelo loiro até o relógio discreto, porém absurdamente caro.
Mas era exatamente isso que fazia dele quem era.
Ele não pertencia a lugar nenhum.
E justamente por isso… dominava todos.
— Chegamos — o motorista murmurou, sem olhar pra trás.
Henrik não respondeu.
Apenas abriu a porta.
E saiu.
O impacto foi imediato.
Os homens ao redor ficaram em silêncio.
Não por respeito.
Por instinto.
Algo nele… não era normal.
Não era só a postura.
Nem o olhar.
Era a presença.
Pesada.
Fria.
Calculada.
Como alguém que já tinha decidido o destino de todo mundo ali… antes mesmo de descer do carro.
— Então você que é o tal Diplomata.
A voz veio da varanda.
Henrik ergueu o olhar.
O chefe.
Velho.
Cansado.
Mas ainda perigoso.
Sentado como um rei tentando não parecer enfraquecido.
Henrik subiu os degraus devagar.
Sem pressa.
Sem submissão.
Sem medo.
Quando parou à frente dele, houve um silêncio desconfortável.
Aqueles dois homens… não eram iguais.
Mas tinham algo em comum:
nenhum dos dois aceitava perder.
— Eu esperava alguém diferente — o chefe disse, medindo.
Henrik inclinou levemente a cabeça.
— E eu esperava encontrar uma operação funcionando.
A resposta foi limpa.
Fria.
Cirúrgica.
O clima pesou.
Alguns homens ao redor trocaram olhares.
Erro.
Aquilo foi um erro.
Mas Henrik… não recuava.
Nunca.
O chefe soltou uma risada curta.
— Aqui não é Europa, garoto.
Henrik deu um meio sorriso.
Sem humor.
— Eu sei. Lá as pessoas escondem melhor as traições.
Silêncio.
Pesado.
Cortante.
Agora não tinha mais volta.
— Você tá dizendo que tem traidor aqui?
Henrik enfiou as mãos no bolso.
Relaxado.
Como se estivesse falando do clima.
— Não. Eu não estou dizendo.
Uma pausa.
Ele olhou ao redor.
Um por um.
— Eu tenho certeza.
E foi ali que o jogo começou...
Lívia odiava aquele lugar.
O cheiro.
O barulho.
As pessoas.
Tudo.
Mas principalmente…
O que aquilo fazia com quem ela amava.
Ela atravessava o morro com passos rápidos, ignorando os olhares, os comentários, os assobios.
Não tinha medo.
Nunca teve.
Talvez porque cresceu ali.
Ou talvez porque aprendeu cedo que demonstrar medo…
Era praticamente um convite.
— Ei, princesa!
Ela nem virou.
— Perdeu a voz, foi?
Ela parou.
Devagar.
Virou o rosto.
O suficiente.
O olhar dela foi direto.
Cortante.
— Eu escolho não usar com lixo.
Silêncio.
Depois algumas risadas.
Ela continuou andando.
Sem olhar pra trás.
Sempre assim.
Sempre desafiando.
Sempre cutucando.
E era exatamente por isso que ela não deveria cruzar o caminho dele.
Quando chegou perto da casa principal, já sentiu.
Algo diferente.
Movimento demais.
Gente demais.
Tensão demais.
Ela franziu a testa.
— O que tá acontecendo?
— Chegou alguém.
— Quem?
O homem hesitou.
— O Diplomata.
Ela soltou uma risada irônica.
— Que nome ridículo.
E entrou.
Henrik estava de costas quando ela chegou.
Conversando com dois homens.
Baixo.
Controlado.
Mas com aquele tipo de presença que fazia o ambiente inteiro girar ao redor dele.
Ela parou.
Observando.
Analisando.
“Gringo.”
Foi a primeira coisa que pensou.
Loiro.
Alto.
Bem vestido demais.
Calmo demais.
Errado demais.
Henrik sentiu.
Antes mesmo de vê-la.
Alguém olhando.
Não com medo.
Não com interesse.
Mas com desafio.
Ele virou.
Devagar.
E encontrou ela.
O mundo não parou.
Mas mudou de ritmo.
Lívia sustentou o olhar.
Sem baixar.
Sem recuar.
Sem se impressionar.
Henrik analisou.
Detalhe por detalhe.
O jeito que ela se mantinha firme.
A expressão afiada.
O olhar que não pedia permissão.
Perigosa.
— Você tá no caminho.
A voz dele saiu baixa.
Firme.
Direta.
Ela arqueou a sobrancelha.
Deu um passo à frente.
Agora mais perto.
Mais dentro do espaço dele.
Erro.
Ou provocação.
— E você tá no lugar errado. O que tá fazendo na minha casa?
O clima mudou.
Na hora.
Alguns homens se mexeram.
Tensos.
Esperando reação.
Esperando explosão.
Mas Henrik…
Só observou.
E sorriu.
De leve.
Pela primeira vez.
Não era um sorriso bonito.
Era perigoso.
— Interessante.
Ela cruzou os braços.
— Irritante.
O silêncio entre eles agora era outro.
Carregado.
Denso.
Quase… elétrico.
Henrik deu mais um passo.
Diminuindo a distância.
Sem pressa.
Sem pressa nenhuma.
Agora ele estava perto o suficiente pra perceber detalhes.
O cheiro.
A respiração.
A tensão no corpo dela.
E o fato de que ela não recuava.
Nem um centímetro.
— Você não tem medo.
— Não de você.
Ele inclinou levemente a cabeça.
Observando.
Estudando.
— Ainda.
Ela sorriu.
Desafiadora.
— Vai ter que se esforçar mais.
E foi ali.
Exatamente ali.
Que algo saiu do controle.
Não do morro.
Não da operação.
Dele.
Henrik deu um passo ainda mais próximo.
Agora o espaço entre os dois era mínimo.
Perigoso.
Errado.
Intenso demais.
A voz dele saiu mais baixa.
Quase um aviso.
— Você gosta de brincar com perigo.
Ela não se moveu.
Mas o ar entre eles mudou.
Mais quente.
Mais pesado.
— Não.
Uma pausa.
O olhar dela desceu por um segundo… e voltou.
— Eu gosto de ganhar.
Silêncio.
E Henrik percebeu.
Ela não era só problema.
Ela era tentação.
E isso…
Era muito pior.
Porque guerras ele sabia vencer.
Mas aquilo?