Confusão

1306 Palavras
O erro começou antes mesmo de qualquer tiro ser disparado. Começou no momento em que Lívia decidiu não sair do caminho dele. Ela poderia ter ido embora. Ignorar. Fingir que ele era só mais um homem tentando mandar onde não devia. Mas não. Ela ficou. E pior… provocou. Henrik ainda estava perto demais quando percebeu que ela não iria recuar. Aquilo já era irritante por si só. No mundo dele, as pessoas sabiam reconhecer perigo. Sabiam a hora de abaixar a cabeça. Ela não. Ela sustentava o olhar como se estivesse desafiando alguma coisa maior que ele. Como se não enxergasse o que ele realmente era. Ou pior… Como se enxergasse e simplesmente não se importasse. Isso foi o que incomodou. E foi exatamente isso que fez ele dar mais um passo. Agora não existia mais espaço seguro entre os dois. Lívia sentiu. Claro que sentiu. O corpo reagiu antes da mente, uma tensão silenciosa percorrendo a pele quando ele invadiu completamente o espaço dela. O cheiro dele era diferente, forte, limpo demais pra aquele lugar… e ainda assim carregado de algo que ela não conseguiu nomear. Perigo. Controle. Domínio. Ela travou o maxilar, se recusando a demonstrar qualquer reação. Ele não desviava o olhar. Estava analisando. Quebrando. Testando limites. A voz dele saiu baixa, próxima demais. — Você não sabe a hora de parar. Ela soltou uma risada curta, sem humor. — E você não manda em mim. Eu nem te conheço. O erro. O segundo erro. Porque dessa vez ele reagiu. A mão dele veio rápida, firme, segurando o braço dela e empurrando sem força excessiva, mas com controle absoluto, até encostar as costas dela na parede mais próxima. Não foi agressivo. Mas também não foi gentil. Foi… preciso. Dominante. O corpo dele ficou perto o suficiente pra prender o movimento dela sem realmente tocar além do necessário. Lívia arregalou os olhos por um segundo, mais pela surpresa do que pelo medo. — Me solta. — Não. Simples assim. Sem elevar o tom. Sem pressa. E foi isso que fez o coração dela bater mais forte, contra a vontade. Ela tentou se soltar, mas a pressão dele aumentou só o suficiente pra impedir. Não machucava… mas deixava claro que ele podia fazer pior. Muito pior. Os rostos estavam próximos agora. Perto demais. O olhar dele desceu por um instante, rápido, calculando a reação dela… e voltou. Aquilo irritou ela de um jeito que não deveria. — Você encosta em mim de novo e eu… — Você o quê? Ele interrompeu. Mais perto ainda. A respiração dele roçando de leve na pele dela. Aquilo não era um confronto comum. Era outra coisa. Algo mais perigoso. Mais instável. E os dois perceberam. Só não recuaram. Por orgulho. Por teimosia. Ou por algo pior. Lívia inclinou levemente o rosto, mantendo o olhar firme. — Eu não tenho medo de você. Seja lá quem você for. Henrik ficou em silêncio por um segundo. Observando. Registrando cada detalhe. A respiração dela um pouco mais acelerada. O pulso sob os dedos dele. A tensão no corpo. Ela estava reagindo. Mesmo tentando esconder. E isso… Despertou algo que ele não gostou. Ele soltou o braço dela de repente. Deu um passo atrás. Quebrou o contato. Como se tivesse decidido que aquilo já tinha ido longe demais. — Fique longe de mim — ele disse, frio de novo. Ela ajeitou a postura na hora, irritada, respirando fundo. — Não se preocupa. Eu não chego perto de gente podre. A troca de olhares foi curta. Cortante. E carregada de algo não resolvido. Mas acabou ali. Ou deveria ter acabado. Porque segundos depois… O inferno começou. O primeiro disparo ecoou alto. Depois outro. E outro. Em questão de segundos, o morro inteiro entrou em caos. Gritos. Correria. Armas sendo puxadas. Henrik não hesitou. O corpo dele mudou completamente. Aquele homem calmo desapareceu. No lugar… surgiu algo muito mais perigoso. Ele puxou a arma com naturalidade, já se movendo para cobertura, analisando de onde vinham os tiros. — Invasão! — alguém gritou. Tarde demais. Os homens já estavam dentro. O ataque foi rápido. Coordenado. Sabiam exatamente onde atingir. Mas cometeram um erro. Um erro grave. Eles não sabiam que Henrik Volkov estava ali. E isso… Custaria caro. O primeiro homem que apareceu na linha de visão dele caiu antes mesmo de terminar o movimento. Tiro limpo. Sem hesitação. Henrik se movia como se já tivesse vivido aquilo centenas de vezes. Talvez tivesse. Disparava. Recuava. Avançava. Sempre um passo à frente. Sempre controlando o espaço. Sem emoção. Sem pressa. Só eficiência. Corpos começaram a cair. O som dos tiros ecoava pelos becos, misturado com gritos e ordens desesperadas. Era guerra. E Henrik… estava no controle dela. Mas no meio do caos, algo fugiu do padrão. Algo pequeno. Rápido. Quase imperceptível. A ausência. Ele percebeu antes mesmo de entender. O olhar varreu o ambiente. Uma vez. Duas. Nada. A garota. Ela não estava mais ali. E por algum motivo… aquilo incomodou. Mais do que deveria. Mais do que fazia sentido. Ele ignorou. Por alguns segundos. Continuou atirando. Eliminando ameaças. Mas então— Um som. Abafado. Distante. Um grito. Ele parou. Não completamente. Mas o suficiente. A cabeça virou levemente. Foco. Localização. De novo. O grito veio mais claro dessa vez. Desespero. Ela. Sem pensar, Henrik mudou de direção. Ignorou dois homens à direita, confiando que seriam contidos por outros. Seguiu o som. Passos rápidos. Precisos. A adrenalina não alterava o raciocínio dele. Só deixava mais rápido. Mais letal. O corredor estava vazio. Mas o som vinha de uma das portas fechadas. Outro grito. Agora sem dúvida. Ele não bateu. Não hesitou. Arrombou. A porta abriu com força. E a cena foi registrada em um segundo. Um homem por cima de Lívia em uma cama, já com a calça aberta e o membr0 de fora... Ela presa. Lutando. Desesperada. E o olhar dele… Mudou. Não foi raiva. Não foi fúria. Foi algo mais frio. Mais perigoso. Decisão. O primeiro tiro atingiu o agressor antes mesmo dele reagir. O segundo garantiu que não levantaria. Silêncio. Só a respiração dela. Pesada. Irregular. Lívia demorou um segundo pra entender o que tinha acontecido. O corpo ainda em alerta. Os olhos arregalados. Quando percebeu… Ele estava ali. Henrik. Arma ainda apontada. Expressão fechada. Controlada. Como se aquilo fosse… rotina. Ela se afastou rápido. Como se lembrar que ele também era perigoso. Talvez mais do que o outro. O olhar dos dois se encontrou. E dessa vez… Não tinha provocação. Não tinha desafio. Só um silêncio estranho. Carregado. Pesado. Ela engoliu seco. Tentando recuperar o controle. — Eu não precisava de ajuda. A voz saiu mais fraca do que ela gostaria. Mentira óbvia. Ele guardou a arma devagar. Sem tirar os olhos dela. — Claramente. Seco. Direto. Sem emoção. Mas ele não saiu. Não imediatamente. Ficou ali. Observando. Como se estivesse confirmando alguma coisa. Como se estivesse… avaliando. Ela se irritou. Claro que se irritou. — Vai ficar me olhando ou— Ele deu um passo à frente. Ela travou. Instinto. De novo aquilo. A proximidade. O perigo. Mas dessa vez era diferente. Mais silencioso. Mais intenso. Henrik ergueu a mão por um segundo… E parou no meio do caminho. Como se tivesse reconsiderado. Como se não devesse tocar. O olhar dele desceu rapidamente pelo corpo dela, verificando se havia ferimentos. Depois voltou. — Fica mais atenta. Se esconde. Não foi um conselho. Foi uma ordem disfarçada. Ela respirou fundo. Recuperando a postura. O orgulho. — Eu sei me cuidar. Ele sustentou o olhar por mais um segundo. Como se não acreditasse. Como se soubesse mais. Muito mais. Depois virou. E saiu. Sem olhar pra trás. Como se nada daquilo tivesse importância. Mas teve. E os dois sabiam. Só não disseram. E foi exatamente esse silêncio… Que começou a tornar tudo mais perigoso.
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