O barulho não diminuía.
Pelo contrário.
Parecia crescer, se espalhar, subir pelas vielas como fogo descontrolado. O rádio chiava em todas as direções, vozes se atropelando, ordens sendo gritadas sem organização nenhuma. O morro, que já vivia em alerta constante, agora estava em pânico aberto.
E pânico… era o pior tipo de cenário.
Porque gente desesperada errava.
E quem errava, morria.
Henrik saiu do quarto onde tinha deixado Lívia sem olhar pra trás, mas com a mente ainda registrando cada detalhe. O grito dela ainda ecoava no fundo da cabeça dele, mesmo com o som dos tiros abafando quase tudo.
Aquilo era inconveniente.
Desnecessário.
E ainda assim… não saiu.
Ele desceu o corredor já voltando ao estado anterior. Frio. Preciso. Calculado.
O Diplomata estava de volta.
Do lado de fora, a situação tinha piorado.
Um grupo armado avançava pela lateral, tentando ganhar território enquanto o restante causava distração na entrada principal. Estratégia simples. E eficiente.
Contra gente desorganizada.
Henrik analisou em segundos.
Posicionamento.
Cobertura.
Movimentação.
Eles não estavam ali por impulso.
Aquilo foi planejado.
E isso confirmava o que ele já sabia desde que chegou:
a podridão não estava só fora do morro.
Tinha gente de dentro ajudando.
Um disparo passou perto demais.
Henrik virou no reflexo, já respondendo com dois tiros secos. O homem caiu antes de completar o segundo passo.
Sem emoção.
Sem hesitação.
Ele avançou.
Passando por corpos, ignorando gritos, desviando de gente correndo sem direção. Pegou um rádio caído no chão, pressionando o botão sem sequer perguntar quem estava na linha.
— Fechem a lateral norte. Agora.
A voz saiu firme.
Autoritária.
Natural.
Do outro lado, houve um segundo de silêncio.
Depois:
— Quem tá falando?
Henrik não respondeu.
Só repetiu.
— Fecha. Agora.
E soltou o botão.
Não precisava se explicar.
Ouviam ou morriam.
Simples.
Ele seguiu avançando, recarregando a arma com movimentos rápidos e limpos. Outro homem surgiu na esquina, nervoso, atirando sem mira.
Erro.
Henrik deu um passo pro lado.
Um tiro.
Fim.
O caos ao redor não afetava ele.
Era como se estivesse isolado dentro de uma lógica própria, onde tudo fazia sentido, onde cada movimento tinha propósito.
Enquanto o resto lutava pra sobreviver…
ele controlava o jogo.
Mas foi quando virou o beco principal que o risco apareceu de verdade.
Um brilho metálico.
Movimento rápido.
Alvo direto.
O disparo veio limpo.
Reto.
Fatal.
E dessa vez…
Henrik não teria tempo.
O corpo até reagiu, mas não o suficiente.
E então—
Outro tiro cortou o ar.
O homem que mirava nele caiu antes de completar o segundo disparo.
Silêncio por um segundo.
Só um.
Henrik virou o rosto.
E viu.
Nando Golias. O chefe do morro.
De pé.
Arma ainda erguida.
Expressão fechada.
Respiração controlada.
Mas os olhos… atentos.
Muito atentos.
Por um instante, os dois ficaram se encarando no meio do caos.
O chefe do morro.
E o homem que veio pra reorganizar tudo.
Ou destruir.
Difícil dizer ainda.
Henrik ajeitou levemente a postura, como se nada tivesse acontecido, mas o olhar reconheceu.
— Boa mira.
A voz saiu calma.
Quase um elogio seco.
Nando soltou o ar pelo nariz, guardando a arma com um movimento firme.
— Aqui não dá pra errar.
O barulho ao redor voltou a crescer, trazendo os dois de volta à realidade. Mais tiros. Mais gritos. Mais gente correndo.
Mas agora…
o controle começava a voltar.
Os homens do morro estavam reagindo melhor.
Se reorganizando.
Fechando entradas.
Contendo avanço.
Henrik observou por um segundo, avaliando.
Depois voltou o olhar pra Nando.
— Eles sabiam onde atacar.
Não era pergunta.
Nando estreitou os olhos.
— Eu também percebi.
Silêncio curto.
Pesado.
Os dois entendiam o que aquilo significava.
Traição interna.
Confirmação.
Henrik inclinou levemente a cabeça.
— Isso não foi um teste.
— Não.
Nando respondeu seco.
— Foi um recado.
Outro disparo ecoou ao fundo, mas mais distante agora. O ataque começava a perder força.
Ou já estava sendo contido.
Henrik passou a mão de leve pela gola do terno, ajeitando como se estivesse em um ambiente completamente diferente. Aquilo contrastava com o cenário ao redor — sangue, poeira, caos.
Mas combinava com ele.
Controle em meio ao desastre.
— Se me mandaram até aqui — Henrik disse, finalmente — é porque a situação já passou do ponto de retorno.
Nando encarou ele por um segundo mais longo dessa vez.
Medindo.
Pesando.
Talvez decidindo.
O orgulho ainda estava ali.
A resistência também.
Mas tinha outra coisa surgindo por baixo.
Consciência.
Ele sabia.
Sabia que não dava mais pra fingir que estava tudo sob controle.
Sabia que precisava de alguém como aquele homem na frente dele. O morro tinha parceria com gente grande, gente de grana... Não dava pra arriscar perder a parceria com essa gente.
Mesmo não gostando disso.
Mesmo não confiando totalmente.
Ele deu um passo mais perto.
Diminuindo a distância.
Mas sem submissão.
Nunca.
— Eu não gosto de gente de fora se metendo no que é meu.
Henrik não reagiu.
Só ouviu.
Nando continuou:
— Mas se te mandaram… tem motivo.
Uma pausa.
O som do rádio chiando ao fundo.
— E enquanto você estiver aqui…
Ele sustentou o olhar.
Firme.
Direto.
— Ninguém encosta em você sem passar por mim.
Aquilo não foi simpatia.
Foi um acordo.
Foi um aviso.
E, de certa forma…
um reconhecimento.
Henrik ficou em silêncio por um segundo.
Registrando.
Calculando.
Aceitando.
Então assentiu levemente.
— Bom saber.
Simples.
Sem exagero.
Mas suficiente.
O tipo de resposta que homens como eles entendiam.
Sem bajulação.
Sem disputa desnecessária.
Só posicionamento.
Ao redor, o tiroteio finalmente começava a morrer. Restos de confronto, tiros isolados, homens recolhendo corpos, outros tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
O morro ainda estava de pé.
Mas abalado.
E agora…
exposto.
Henrik olhou ao redor mais uma vez.
Depois voltou para Nando.
— Isso não acabou.
Nando deu um meio sorriso sem humor.
— Nunca acaba.
Os dois sabiam.
Aquilo era só o começo.
E em algum lugar no meio daquele caos…
uma linha invisível tinha sido traçada.
Entre aliados.
Ou futuros inimigos.
E a única coisa certa…
era que nenhum dos dois jogava pra perder.