🥀 Capítulo 18🥀

2260 Palavras
Hannah Brooks. Meus olhos permanecem fixos nos papéis espalhados sobre o meu colo, as linhas perfeitamente alinhadas contrastando com o caos que se forma na minha cabeça enquanto o carro desliza de maneira suave pelas ruas de Toronto, seguindo em direção ao bairro onde Ryan mora. O silêncio dentro do veículo é quase confortável, quebrado apenas pelo som baixo de uma música qualquer tocando no rádio - algo genérico o suficiente para passar despercebido, mas constante o bastante para impedir que o momento se torne completamente sufocante. O maluco ao meu lado - que, pela segunda vez, fez questão de se apresentar como Cael Sterling - me entregou o "contrato", ou melhor, a "proposta de emprego", no exato segundo em que entrei no carro. Sem explicações longas, sem rodeios. Apenas disse para eu analisar os termos e decidir se aquilo estava de acordo comigo, como se estivesse oferecendo algo simples... e não uma mudança completa na minha vida. E, sendo honesta, os benefícios são bons demais para serem ignorados. A promessa, escrita de forma clara, revisada e destacada no contrato, de que meus estudos seriam integralmente pagos pelo meu "futuro patrão" não deixa espaço para dúvidas ou interpretações. Não é parcial, não depende de descontos absurdos no salário, não existe nenhuma cláusula escondida - pelo menos não nas partes que já li. É direto: tudo pago. Cada centavo. Sem que eu precise tirar um único real do meu próprio bolso. E sejamos sinceros... só isso já seria mais do que suficiente para aliviar um peso enorme das minhas costas. Talvez até mudar completamente o rumo das coisas. - Então, se eu aceitar ser a babá do seu filho... tudo isso aqui são os benefícios que acompanham o cargo? - pergunto, finalmente quebrando o silêncio que se estendia entre nós, ainda com os olhos presos ao contrato. - Sim. - ele responde de imediato, sem sequer hesitar, mantendo o olhar fixo na estrada à nossa frente. - Caso não goste de algo, pode me falar. Se quiser adicionar ou modificar qualquer ponto, é só sinalizar que será ajustado. Há algo na forma como ele fala - direta, quase mecânica - que me faz erguer levemente o olhar na direção dele. - A sua única função na minha casa é estar presente para o Theo. - ele continua, como se estivesse esclarecendo o mais importante. - Tenho funcionários específicos para cuidar de todo o resto. Um meio sorriso surge nos lábios dele, discreto, mas carregado de uma confiança que beira a arrogância. - Eu estou praticamente te pagando para morar na minha casa e fazer companhia ao meu filho, enquanto banco todos os seus estudos. - ele para no semáforo, e por um breve segundo seus olhos deixam a estrada para me encarar. - Admita... é muito melhor do que passar horas em pé aturando clientes m*l-educados. Muitas mulheres se matariam por uma chance dessas. Reviro os olhos com força suficiente para quase enxergar o próprio cérebro. - Você é muito convencido. - comento, fechando levemente o contrato antes de apoiá-lo sobre o colo. - Eu sou realista, garota. Apenas isso. - ele rebate sem qualquer alteração no tom, voltando a atenção para a rua no instante em que o sinal abre. - Se estiver de acordo com os termos, apenas assine. Você desce na próxima rua, e eu preciso que comece o mais rápido possível. Solto um pequeno suspiro, passando os dedos pelas páginas antes de dobrá-las com cuidado. - Vou rever o contrato com mais calma essa noite e te entrego amanhã com a minha resposta. - digo, já guardando os papéis dentro da mochila, mesmo sentindo o peso da decisão antes mesmo de tomá-la. - Já que, ao que parece, você não está muito disposto a cumprir o prazo de uma semana que me deu. Ele não responde de imediato, mas também não precisa. O silêncio dele já diz o suficiente. Minutos depois, o carro desacelera até parar em frente ao prédio onde Ryan mora. Reconheço a fachada de imediato, mesmo sem precisar olhar duas vezes. Mas, ao virar o rosto, percebo a expressão de Cael mudar - sutil, mas perceptível. Algo entre asco... talvez desprezo. Reviro os olhos mais uma vez, cruzando os braços enquanto solto um suspiro baixo. Claro. Coisa de gente esnobe. - Agradeço pela carona, eu... - Me dê seu celular. - a voz dele corta a minha, firme, autoritária, como uma ordem que ele claramente espera que seja obedecida sem questionamentos. Viro o rosto na direção dele devagar, encarando-o como se uma segunda cabeça tivesse simplesmente surgido em seus ombros. - Como é? - Seu celular, garota. - ele repete, impaciente. - O aparelho que você usa para fazer ligações e acessar redes sociais. A mão dele já está estendida na minha direção, a expressão carregada de uma zombaria quase irritante, como se estivesse se divertindo às minhas custas. - Eu não vou te entregar meu celular, eu preciso dele para- Nem termino a frase. Ele simplesmente pega o aparelho da minha mão, como se tivesse todo o direito do mundo de fazer aquilo. Antes que eu consiga reagir, ele segura meu dedo e o pressiona contra o sensor, desbloqueando a tela com uma facilidade absurda. Fico ali, olhando, completamente atônita. Porque aquilo... aquilo só pode ser algum tipo de brincadeira de péssimo gosto. Não é possível que ele tenha tido a audácia de invadir o meu espaço dessa forma e agir como se fosse a coisa mais natural do mundo. - Ei! - tento puxar o celular de volta, mas ele desvia com uma naturalidade irritante, como se já esperasse por isso. Os dedos dele deslizam pela tela enquanto abre minha lista de contatos, completamente à vontade, como se estivesse mexendo no próprio aparelho. Em poucos segundos, adiciona um número novo, salva, e só então estende o celular de volta para mim. - Meu número pessoal está salvo. - diz, retomando aquele tom autoritário que parece fazer parte da personalidade dele. - Entre em contato diretamente comigo caso precise de algo. - Eu não vou- - Você vai. - ele interrompe, sem me dar espaço para continuar. - E mais rápido do que imagina. Agora desça e vá encontrar seu namorado, noivo, empregado... seja lá como você o chama. Ele faz uma pausa breve, como se estivesse escolhendo as próximas palavras com cuidado - o que, vindo dele, já é um péssimo sinal. - E, por favor, faça-o desistir da carreira de artista. - completa, com uma naturalidade quase absurda. - Ele é péssimo em tudo que faz. Pisco, atônita, tentando processar com que direito ele acha que pode opinar sobre a minha vida... ou sobre o Ryan... daquele jeito. Ele me entrega o celular, e dessa vez eu não hesito. Arranco o aparelho da mão dele e o guardo no bolso da calça com um movimento rápido, sentindo a raiva borbulhar dentro de mim, quente, crescente, perigosa. Para evitar fazer algo que eu realmente possa me arrepender - como enforcá-lo com o cinto de segurança - apenas puxo a maçaneta, abro a porta e saio do carro. Bato com força atrás de mim, sem sequer olhar para trás, e sigo em direção à entrada do prédio. Cada passo é mais pesado que o anterior. Ainda tentando entender como alguém consegue ser, ao mesmo tempo, tão i****a, b****a, esnobe e arrogante. - Maldito idiota... - murmuro, subindo os primeiros degraus com pressa, como se a distância física fosse suficiente para diminuir a irritação. E, como se não bastasse lidar com ele, ainda tem Ryan. Solto um suspiro irritado ao lembrar do espetáculo ridículo que ele resolveu montar no meu trabalho. Sério... de todos os lugares possíveis no mundo, ele precisava escolher justamente o meu emprego para fazer aquela palhaçada de declaração? Eu juro, naquele momento, tive vontade de esquartejar o Ryan ali mesmo. Só não fiz porque, infelizmente, haviam testemunhas demais para um crime perfeitamente justificável. Caminho pelo corredor estreito enquanto puxo da mochila a cópia da chave que ele me deu. São cinco apartamentos por andar, todos pequenos demais, com paredes finas o suficiente para transformar qualquer conversa em um evento público. E esse é só um dos motivos pelos quais eu nunca aceitei me mudar para cá. O lugar é longe, apertado, e o bairro... bem, o bairro definitivamente não está na lista dos melhores de Toronto. Se ele ao menos tivesse me escutado, poderíamos ter alugado algo juntos em um lugar melhor, mais próximo do trabalho dos dois. Talvez eu até tivesse aceitado. Mas não. Ryan ainda está preso naquela ideia absurda de que eu devo "segurar as pontas" enquanto ele corre atrás da própria carreira. Como se isso fosse simples. Como se fosse justo. Eu m*l estou conseguindo pagar as minhas próprias contas. Imagina sustentar uma casa inteira sozinha enquanto o meu parceiro decide perseguir sonhos que, até agora, não pagaram sequer uma conta de luz. E os meus? Quem, exatamente, vai segurar as pontas por mim? Sejamos sinceros: entre a "carreira" incerta de Ryan e a minha realidade exaustiva, é o meu esforço quem iria garatir o teto sobre nossas cabeças e a comida na mesa. Mas, pelo visto, nem isso é o suficiente para comprar o mínimo de respeito. Giro a chave na fechadura, mas o metal não encontra resistência. A porta está apenas encostada. O que, para ser honesta, não é tão estranho assim; Ryan sempre foi negligente com segurança, vivendo em um mundo onde as contas se pagam sozinhas e as portas se trancam por mágica. Empurro a madeira com o ombro, entrando no apartamento com o corpo pedindo uma cama e o silêncio que nunca vem. Mal ultrapasso a soleira e o ar parece engrossar, tornando-se difícil de respirar. Sou atingida por algo que me faz paralisar instantaneamente. Sons altos. Gemidos exagerados. Ruídos de carne contra carne vindos do quarto, atravessando as paredes finas como se elas nem existissem. Prendo a respiração, sentindo meu sangue esfriar enquanto o mundo ao meu redor começa a girar em um eixo errado. Não é o que você está pensando, Hannah. Não pode ser. Minha mente, em um ato de autodefesa desesperado, começa a tecer desculpas esfarrapadas. Talvez Ryan esteja apenas assistindo a um daqueles filmes adultos que ele tanto gosta. Talvez, por eu ter demorado no trabalho, ele tenha decidido passar o tempo de forma solitária e barulhenta. Eu tento me agarrar a qualquer mentira que mantenha o meu chão firme por mais alguns segundos. Respiro fundo, o ar queimando nos pulmões. Deixo minha mochila sobre o sofá com um cuidado quase ritualístico e caminho a passos silenciosos, como uma sombra, em direção ao corredor. A porta do quarto está entreaberta. A fresta é pequena, mas a visão que ela oferece é clara o suficiente para fazer meu mundo ruir em cinzas. Ali está meu noivo. O desgraçado que, poucas horas antes, montou um circo no meu trabalho implorando por uma chance de conversarmos. O homem que deveria ser meu parceiro, com quem eu estava planejando uma vida inteira de sacrifícios. Ele está ali, entregue a um fetiche animalesco, fodendo aquela v***a como se ela fosse a última fonte de oxigênio do planeta. A raiva começa a substituir o choque, subindo pela minha garganta como ácido. Me aproximo um milímetro mais, precisando ver o rosto daquela que aceitou participar da minha ruína. E, em um segundo, minha sanidade se estilhaça por completo. É a minha irmã. Porra, é a Amelie. Sangue do meu sangue. Eu sempre soube que Amelie era uma inútil, uma alma errante que nunca se importou com ninguém além de si mesma, mas prestar-se ao papel de amante do próprio cunhado? Isso é baixo demais até para os padrões deploráveis dela. Recuo alguns passos, ainda em silêncio absoluto. Sinto algo se quebrar dentro de mim, mas não é tristeza. É o fim da paciência. Esse filho da p**a fez uma declaração pública de amor pela manhã e agora está fodendo a minha irmã no colchão que eu ajudei a pagar. Por que sim, aquele colchão fui eu quem comprei. Meus pensamentos são interrompidos por uma vibração intensa no bolso da minha calça. Pego o aparelho com as mãos trêmulas, pronta para desligar e manter meu anonimato até decidir como vou matá-los, quando vejo o número desconhecido brilhando na tela. Eu não atendo. Recuso a chamada com um movimento brusco. Mas, no segundo seguinte, uma mensagem brota na tela, iluminando meu rosto no corredor escuro: "Faça o que quiser, garota. Toque fogo nessa caixa de sapatos se desejar. Meu dinheiro e meus advogados estão ao seu dispor e eu garanto que você não será responsabilizada por nada... apenas aceite ser a babá do meu filho." Pisco várias vezes, encarando os pixels como se fossem uma miragem. Isso é loucura. Cael Sterling é um lunático completo. Como diabos ele sabe ? Será possivel que está me seguindo ou... foi ele quem armou tudo isso, ou será que ele havia descoberto algo e por isso me seguiu e insistiu em me dar uma carona ate aqui ? A percepção de que ele é um stalker, um maluco psicopata de alto nível deveria me assustar. Mas, enquanto ouço mais um gemido vindo do quarto ao lado, o medo é a última coisa que sinto. Cael Sterling acabou de me entregar um convite para o caos com um seguro de vida anexado. Ele me deu de bandeja a oportunidade de fazer o circo pegar fogo sem sair queimada. E eu seria uma i****a completa se desperdiçasse um presente desses.
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