Hannah Brooks
São exatamente 13h45 de uma segunda-feira e a lanchonete está lotada. Lotada de clientes, lotada de vozes que se sobrepõem, lotada de crianças correndo de um lado para o outro como pequenos furacões de açúcar e refrigerante. O ar está pesado com o cheiro de batata frita recém-saída do óleo, pão quente e aquele doce exagerado do milk-shake de morango que sempre fica grudado no ar.
De vez em quando o coitado do nosso mascote - um hambúrguer gigante de espuma com um sorriso assustadoramente permanente - passa correndo entre as mesas enquanto um pequeno exército de crianças o persegue aos gritos, como se fosse algum tipo de criatura rara prestes a ser capturada.
Está cheio.
Agitado.
Caótico.
E ainda assim... no meio de todo esse barulho, de todo esse movimento, de todas essas pessoas que parecem ter algo melhor para fazer do que reparar em mim...
Eu estou parada no meio da lanchonete.
Parada.
Imóvel.
Vermelha como um tomate maduro, sentindo o calor subir pelo meu rosto até as orelhas enquanto minha única vontade neste exato momento é cavar um buraco no chão e me enfiar dentro dele como um avestruz desesperado.
Porque, aparentemente, Ryan achou que seria uma ótima ideia fazer um gesto romântico.
Aqui.Agora.
Em plena segunda-feira.
No meio do meu expediente.
No horário de pico.
Genial.
Nós claramente não conversamos o fim de semana inteiro. Nem uma mensagem decente, nem uma ligação, nem sequer um pedido de desculpas que não parecesse digitado com preguiça.
E eu admito.
Ainda estou completamente p**a da vida com ele.
Puta da vida por ele ter tido a audácia - a cara de p*u, a coragem absurda - de sugerir que eu pegasse um táxi ao invés de largar o maldito jogo e ir me buscar no hospital.
No hospital.
Eu nem tive culpa de estar lá, foi tudo por causa daquele maluco. E quando eu digo maluco, eu quero dizer maluco mesmo. Um maluco que, diga-se de passagem, me fez uma proposta de trabalho que é perigosamente difícil de recusar.
Tão difícil que, mesmo agora, com toda essa confusão acontecendo ao meu redor, minha mente continua voltando para aquilo como uma música irritante que se recusa a parar de tocar.
Porque sejamos sinceros.
Ganhar o dobro do que eu ganho aqui, ter meus estudos completamente pagos.
E basicamente... só cuidar de um garotinho de três anos.
É quase como ganhar na loteria.
Principalmente para alguém que, como eu, está perigosamente perto de começar a pular refeições só para conseguir pagar todas as contas no final do mês.
Às vezes eu fico olhando para minha conta bancária como quem encara um filme de terror, esperando o momento exato em que tudo vai simplesmente acabar.
Mas mesmo assim... eu ainda não respondi.
Não aceitei, nem recusei. Eu ainda nem liguei para ele e muito menos tive coragem de falar com o senhor Lincon.
Meu chefe.
O homem que me deu esse emprego anos atrás quando eu ainda era basicamente uma adolescente desesperada procurando qualquer coisa que pagasse o suficiente para sobreviver.
Faz anos que eu trabalho aqui.
Esse foi meu primeiro emprego.
E droga...Mesmo com o cheiro constante de fritura grudado no cabelo, mesmo com crianças gritando no meu ouvido e turnos intermináveis que parecem nunca acabar... esse lugar ainda tem alguma coisa que parece... casa.
- ... por favor me perdoa, amor... eu sei, eu sei... eu fui um completo i****a e não devia ter te tratado daquela forma... - a voz de Ryan continua, ecoando na minha frente como um discurso que claramente já está no automático.
Eu pisquei algumas vezes, percebendo vagamente que ele ainda está ali.
Na minha frente.
Falando.
Gesticulando.
Provavelmente fazendo algum tipo de cena dramática que metade da lanchonete já está assistindo como se fosse entretenimento gratuito.
- ... mas por favor não termina comigo... eu posso ser melhor... eu juro que posso... - ele continua, a voz carregada daquele desespero exagerado que ele sempre usa quando percebe que realmente fez m***a. - ... você sabe que eu te amo, Hannah... por favor...
Mas a verdade?
Eu m*l estou ouvindo.
As palavras dele chegam até mim como ruído distante, como se alguém tivesse ligado um rádio velho em outra sala.
Porque minha cabeça está em outro lugar.
Eu o encaro.
E quando digo que encaro, quero dizer que realmente encaro, com toda a paciência que ainda resta dentro de mim depois de um fim de semana inteiro de silêncio, irritação e mensagens ignoradas.
Porque, sinceramente, nada disso precisava estar acontecendo. Quero dizer... uma conversa simples resolveria tudo, uma conversa normal.
Entre duas pessoas adultas, sem plateia sem drama.
Sem... isso.
E então a pergunta inevitável atravessa minha cabeça enquanto eu observo a cena patética diante de mim.
Por que diabos ele está ajoelhado na minha frente com um buquê de flores?
E pior.
Usando uma camiseta da mesma cor das flores.
Como se estivesse tentando combinar com o próprio pedido de desculpas.
Por que ele está aqui?
Este é o meu local de trabalho.
Meu trabalho.
O lugar onde eu passo horas carregando bandejas, limpando mesas e sorrindo para clientes m*l-humorados que acham que eu pessoalmente inventei o preço do combo infantil.
Eu detesto chamar atenção. Odeio.
Prefiro mil vezes desaparecer no fundo de uma sala do que ser o centro das atenções por cinco segundos.
E ele sabe disso.Sabe muito bem.
O que só torna tudo ainda pior.
Porque isso aqui... isso é baixo.
É um truque sujo.
Uma tentativa descarada de me pressionar a perdoá-lo simplesmente porque agora existe uma plateia assistindo.
- Ryan... - eu o chamo.Minha voz sai baixa, praticamente entre os dentes, enquanto ele continua com aquele discurso melodramático que parece não ter fim. - Ryan...
Nada.
Ele continua.
- Ryan, levanta daí... - repito, sentindo minha paciência evaporar lentamente. - Você vai acabar me fazendo ser demitida, seu idiota...
- NÃO, AMOR! - ele grita, alto o suficiente para provavelmente ser ouvido do outro lado da rua. - POR TUDO QUE NÓS VIVEMOS, NÃO ME MANDA EMBORA! EU TE IMPLORO!
E agora ele está chorando.
Chorando de verdade.
Lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto continua ajoelhado diante de mim como algum tipo de amante trágico saído diretamente de um filme de romance exagerado.
Puta m***a.
Eu já estou vendo.
Já consigo imaginar perfeitamente o senhor Lincon assistindo a tudo isso pelas câmeras de segurança da lanchonete com aquela cara de quem claramente não lembra de ter contratado nenhum show ao vivo para o turno da tarde.
- Ryan... - eu começo outra vez, passando a mão pelo rosto. - Se você não levantar daí eu juro que-
Eu nem termino a frase.Eu m*l tenho tempo de respirar.Mal tenho tempo de piscar.Em um segundo eu estou prestes a ameaçar meu noivo de morte.
No outro...Ryan está no chão.
Caído.
Com as duas mãos pressionadas contra suas partes íntimas enquanto solta um gemido estrangulado de dor.
Porque alguém acabou de acertá-lo bem ali embaixo.
Com um chute.
E quando meus olhos descem para identificar o agressor...
Eu preciso de alguns segundos para realmente processar o que estou vendo.
Porque entre mim e Ryan agora está parado um pequeno ser humano de cabelos dourados, grandes olhos azuis e bochechas rechonchudas.
Minúsculo.
Os braços cruzados com uma determinação quase cômica enquanto ele faz um biquinho indignado que, sinceramente, é uma das coisas mais absurdamente fofas que eu já vi na vida.
Como se ele estivesse ali.
Plantado entre nós dois.
Pronto para defender minha honra.
- Você... - o pequeno anjinho aponta um dedo acusador para Ryan, os olhos azuis estreitos de indignação. - Você deixou minha Nana triste... -Ele faz uma pausa dramática, como se estivesse reunindo toda a autoridade possível em seu corpinho minúsculo. - Ninguém deixa Nana triste.
Se antes algumas pessoas estavam olhando...Agora não existem mais algumas pessoas olhando.
Agora a lanchonete inteira parou. Funcionários, cliente, até mesmo nosso mascote parou para observar o show.
Todo mundo.
Todos absolutamente imóveis assistindo o espetáculo gratuito que, aparentemente, é a minha vida.
- Eu protejo Nana... - continua o pequeno cavaleiro de olhos azuis, virando-se para mim com um olhar cheio de expectativa.
Como se estivesse esperando aprovação. Como se tivesse acabado de realizar uma missão extremamente importante.
Eu respiro fundo, segurando o riso que ameaça escapar.
Porque, sinceramente...
Como alguém consegue ficar bravo com uma criatura tão pequena tentando resolver problemas de gente grande?
Eu me ajoelho diante dele para ficar mais ou menos na mesma altura e o observo por um momento.
- Eu agradeço por me proteger, anjinho... - digo calmamente, levando uma das mãos até seus cabelos e bagunçando de leve os cachinhos dourados.
Ele imediatamente infla as bochechas.
- O Theo protege a Nana.
O jeito que ele diz isso, tão sério, tão convicto, quase me faz apertar aquelas bochechas como se fossem feitas de massinha.
- E a Nana está muito feliz por ser protegida por alguém tão forte... - eu continuo, sorrindo enquanto acaricio sua bochecha macia. - Mas o Theo não pode chutar pessoas que não conhece... isso é errado, amor.
Ele franze a testa.
Claramente confuso.
- Mas o papai disse que eu posso.
Eu piscaria se já não estivesse completamente acostumada com as coisas absurdas que acontecem ao meu redor.
- Eu posso... - ele insiste. - É pra proteger a Nana.
Eu suspiro, rendida.
- Tudo bem, meu príncipe... - digo apertando suavemente suas bochechas. - A Nana vai mandar o moço m*l embora... e depois pegar um sorvete para você.
Os olhos dele brilham instantaneamente.
- Um sorvete, Nana?
- De chocolate... - respondo, sorrindo. - Eu sei que você gosta.
Agora ele parece praticamente explodir de felicidade.
- Agora vai lá ficar com seu papai, e eu já levo o sorvete, está bem?
Ele não responde.
Em vez disso, simplesmente se joga no meu pescoço em um abraço apertado que eu prontamente retribuo, sentindo aquele pequeno corpo quente me apertar com toda a força que ele tem.
Alguns segundos depois ele me solta.
E sai correndo pela lanchonete.
- PAPAI! EU GANHEI SORVETE! EU DEFENDI A NANA!
Eu respiro fundo enquanto me levanto, sentindo de novo todos os olhares grudados em mim.
Todos.
Sem exceção.
Então volto minha atenção para Ryan.
Que agora já está de pé novamente, depois de perceber que absolutamente ninguém ali parecia disposto a ajudá-lo a se levantar. Ele ainda segura o buquê de flores de qualquer jeito.
Os braços cruzados.
A expressão amassada.
- Chega desse circo. - minha voz sai firme, muito mais firme do que eu realmente me sinto por dentro. - Você sabe que eu detesto ser o centro das atenções... e ainda assim armou esse espetáculo inteiro no meu local de trabalho.
Eu sinto meu sangue ferver a cada palavra.
- Vai pra casa, Ryan. A gente conversa à noite.
- Mas amor, eu-
- Sem mais. - eu o corto imediatamente. - Ou você vai embora agora... ou pode dar adeus ao nosso noivado.
Silêncio.
Ele me encara por alguns segundos.
Os olhos se enchendo de lágrimas mais uma vez.
Mas dessa vez ele não insiste.
Não implora.
Apenas vira as costas e começa a caminhar lentamente em direção à saída da lanchonete, ainda segurando aquele buquê ridículo enquanto desaparece pela porta sem dizer mais nada.
Eu solto um longo suspiro.
Então olho ao redor.
Para todas as pessoas que acabaram de assistir ao espetáculo constrangedor que eu carinhosamente chamo de minha vida.
E sem dizer absolutamente nada...
Eu simplesmente dou as costas.
E caminho direto para os fundos da lanchonete, por que sinceramente, chega de ser o centro das atenções por hoje.