6. Quero uma alma perfeita

2891 Palavras
Eu queria ser especial, mas eu sou uma aberração. Eu sou um esquisitão. Que diabos estou fazendo aqui? Eu não pertenço a este lugar. Eu não ligo se isso machuca, eu quero ter o controle, eu quero um corpo perfeito, eu quero uma alma perfeita. Creep, Radiohead Eu estava cansada. Só cansada não, eu estava muito, muito, mais muito cansada. Meu dia daqui para frente, ia se resumir basicamente em: limpar, cozinhar e cuidar, além de estar com uma ressaca fodida. Enquanto minha mãe fingia que seu trabalho era tudo que ela tinha. Talvez para se ver liberta da prisão da sua própria casa, da realidade e da responsabilidade de ser UMA mãe. Estava tudo bem, se ela não transferisse todos esses papéis unicamente para mim. Meu pais se separaram há alguns anos atrás. Na verdade, não foi nada combinado, antes de eu fazer sete anos, logo depois que a Lia, minha irmã mais nova, nasceu, meu pai simplesmente sumiu e a levou com ele. No fundo do meu coração, algo me diz que ele precisou fazer isso, mas para minha mãe ele foi embora porque é um covarde e casar com ele e ter feito outra família foi uma das piores coisas que ela fez na vida, mesmo que Helena nunca tenha dito isso em voz alta. Já sabia que desde do momento em que eu saísse do Internato e botasse meus pés dentro de casa, estaria sujeita a tomar a frente de tudo, e não digo só dos afazeres do lar, mas também da proteção dos meus três irmãos, até mesmo do mais velho. Joshua. O garoto de ouro aos olhos da minha mãe e aos meus olhos o mais difícil de se conviver. Ele é o seu mundo e eu aprendi a conviver com isso. A mulher que me teve não fazia questão de esconder que ele é seu favorito, talvez por ser filho do seu primeiro esposo, Antônio, comandante do policia que morreu em um tiroteio policial na Zona Norte de SP. Ele foi o grande amor da vida dela, mesmo que minha mãe tenha se envolvido com o meu pai depois da morte dele e ter tido a mim e a minha irmã caçula, ainda sim, tudo remetia ao seu falecido marido e ao filho deles dois juntos. Afinal, Josh é tudo que ela sempre quis ter em um filho. O que, basicamente, é: responsabilidade, responsabilidade e responsabilidade. Resumidamente, era tudo que eu não tinha. Joshua e eu somos como a água e o vinho, lógico que eu sou o vinho. Ele foi o melhor da escola, passou em direito na USP de primeira, tentava ser o homem da casa, desde de que meu pai foi embora, cabeça no lugar, não era surtado, não bebia, não fumava, não acaba com a própria vida. Nunca vou ser um por cento tão boa quanto ele. Eu mesma já desisti de mim. A verdade nua e crua é que nunca tivemos uma boa relação, eu via um lado dele, que ninguém mais via, provavelmente por ele mostrar esse lado apenas pra mim, o lado mau, abusivo, estranho e agressivo. Joshua fazia de tudo para me irritar, do tipo de coisa que ia desde de sujar várias louças em pouco espaço de tempo até quebrar a casa inteira em surtos psicóticos. Mas nunca, em hipotese alguma na frente da minha mãe. Ele é um filha da p**a. Não que eu o odeie, mas também não sou hipócrita de dizer que eu o amo. E nada, absolutamente nada do que eu dissesse, mostrasse ou apenas cogitasse contra ele, Helena Santos sempre se revoltaria. Para ela, seu filho de ouro, não tem defeito nenhum e para ele, isso só alimenta mais ainda o seu ego de dono do mundo, o deixando mais livre para ser cada vez mais perverso. Odeio admitir isso em pensamento, mas eu sinto falta de estar trancafiada junto com as freiras, porém mais do que isso, sinto falta de alguém que se preocupe comigo, de fato, que me queira por perto por amor e não por mão de obra. Às vezes me questiono se a minha mãe pariu uma filha ou um saco de pancadas. — Maninha... — tremi, devido ao susto da sua voz rastejante, tomando conta do silêncio da cozinha. Joshua e seu veneno estavam na área. Terminei de enxugar o último prato da pilha de louça que eu tinha acabado de lavar, pendurando o pano úmido sob o ombro, evitando olhar pra ele e fingir que a sua presença ali não me incomodava. — Preciso que limpe meu quarto hoje. — disse carregado de petulância, depois que fiz questão de não respondê-lo. — Eu o quê? — disse, sem ânimo algum. — Sai fora, Josh. Não sou sua empregada. Ele ria na minha frente, me encurralando entre a bancada da pia, parecendo realmente que estragar o meu dia era o que melhorava o seu. — Acho que você é sim, pequena Lailah. — Revirei os olhos com aquele apelido tosco, ao mesmo tempo que Josh ainda ria de forma irritante, empurrei seu ombro, tentando sair de perto, mas ele segurou com força o meu braço. — Você não tem escolha, sabe disso. Suspirei fundo com aquela ameaça barata, tentando resgatar minhas energias internas e não mandá-lo ir a merda. Ele estava fazendo aquilo de propósito, mamãe pensava que vi para casa passar férias ou comemorar algum feriado santo, mas jamais imaginaria que eu fui expulsa, era demais, ela não aceitaria e me mataria com certeza e meu irmão sabia disso. — Joshua, só acho que você deveria me ajudar mais com as tarefas de casa! — Sério? — pergunta com deboche. — Eu só acho que você tem que fazer tudo sozinha, e calada! Se não... — ele começou a falar, mas não terminou. — Se não o que, c*****o? — Soltei o pano de prato na pia, começando a bufar de indignação. — Não acredito que você é tão inocente ao ponto de achar que seria expulsa da escola e fingiria que nada aconteceu e logo eu, esconderia isso de nossa mãe e seria seu cumplice nessa? Fala sério Laillah, eu nunca desperdiçaria a oportunidade de te ver fodida. É claro que ele não desperdiçaria, essa era a sua maior diversão. Senti o ódio correr solto no meu sangue. Como posso ter vindo parar nessa família tão tóxica? Sinceramente, eu tenho orgulho de ser a ovelha n***a. — Você não pode... — Eu não posso. — ele concordou, me cortando a fala. — mas você sabe que eu vou, maninha. Joshua estava do meu lado, com os quadris encostados no móvel de apoio da cozinha, seus olhos tinham um brilho de expectativa misturado com maldade, ele estava pronto para dizer o que eu tinha que fazer para que ele não fodesse com a minha vida. — Eu vou contar pra mãe toda essa sua pouca vergonha! — Engulo a seco, sentindo uma grande vontade de socar sua cara. — Você acha que eu sou o que? i****a? Por que aquele cara te defendeu? — Porque você é um babaca, qualquer cara educado faria isso. — Foi o que eu respondi, mas a verdade é que eu não sabia exatamente o porquê dele ter feito aquilo — Você quer bancar de esperta, mas é burra. Não sabe onde ta se metendo. — aquelas palavras surtiram um efeito diferente no meu cérebro, depois disso, ficaram martelando como se tivesse algo por trás. — O que você quer dizer? — Quero dizer que você vai fazer as minhas atividades da escola depois do jantar. — Se vira, c*****o. — Isso era inacreditável, Joshua um ano mais velho me pedindo para fazer sua lição. Revirei os olhos, enquanto me curvava para ver se o queijo em cima da lasanha já tinha gratinado. — Não se esqueça, eu tenho um segredo seu. Um segredo é um dos elos mais fortes que te prende a alguém, noventa e nove por cento das vezes, para não dizer cem, te prende de uma maneira r**m. É como se a sua vida fosse um punhado de areia e bastava um sopro, para que ela desfizesse no ar. Engoli a seco, sentindo meus olhos arderem em uma súplica para chorar. E quando eu estava prestes a rebater, sinto a energia pesada de outra pessoa no ambiente. — Você vai o que, meu bem? — a voz doce, se direcionou apenas ao meu irmão. Era minha mãe, ignorando o mundo ao seu redor e dando atenção para o que era importante aos seus olhos. Helena estava vestida imperiosamente com o poder, o seu distintivo estava na lapela do lado direito do seu terno, seus fios loiros caiam de forma despretensiosa sobre ele, contudo ainda era possível vê-lo e saber que ela estava em expediente. Minha mãe era a melhor investigadora da polícia Internacional, isso significava que a sua vida tinha sido dedicada para o seu trabalho, e mesmo já tendo desvendado mais de cem casos, os mais difíceis do país, sempre tinha mais um que precisava exclusivamente da sua atenção, e quando falo exclusivamente, digo que ela estava pouco se fodendo para os problemas banais relacionados a uma casa com uma familia dentro, a não ser Joshua. — Passar de ano, com a ajuda da Lailah — Meu irmão informou como se a decisão de fazer sua tarefa já tivesse sido tomada. i*****l. — Não é mais que a obrigação dela. — Como eu disse, ela estava pouco se fodendo para isso. Respiro fundo, olhando para os meus dedos e depois enxugando as mãos no avental, tudo como uma tentativa de não desabar e mostrar que aquilo me machucava e me fazia lembrar da minha insegurança por ser sempre insuficiente e nem sequer capaz de ser amada. Afinal, o que é mesmo o amor? — Dia cansativo? — puxei assunto quando a vi pegando uma taça na cristaleira da cozinha, logo em seguida um vinho na pequena adega. Ela ignorou por alguns segundos a pergunta, mas por fim decidiu responder de forma simples e sem empolgação nenhuma. — Um caso difícil de se resolver, só isso. — Aquele tal de Tomas? — Josh pergunta, enquanto termino de pôr os pratos e depois pego a comida, tudo s-o-z-i-n-h-a, enquanto eles se sentam aguardando o jantar. — Sim. — Ela massageia as têmporas, cansada. — é um caso difícil. Tem muita lavagem de dinheiro e drogas escondidas por todo lado, até mesmo fora do país. — mordi a unha, notando o seu cansaço extremo. Por muitas vezes senti falta de tê-la por perto, senti inveja da Vic por ter uma mãe que participava de todos os eventos da escola, que não se livrou dela a mandando para uma escola de freiras, que conversava sobre educação s****l e que fazia toda questão de passar pelo menos dez minutos do seu dia comigo, eu sinto falta de uma mãe para conversar, porém no fundo eu sempre entendi que o seu emprego exigia muito mais dela. — Lailah, por que faz tanto corpo mole? — Helena perguntou, notando minha pessoa parada na sua frente. — Sirva a comida! A forma como ela se dirigia a mim era sempre em tom de arrogância e autoridade. Eu precisava concentrar todas as minhas energias e acreditar que tratá-la bem era a solução, afinal, ela é minha mãe. Mas quem eu queria enganar além de mim mesma? Fazia dezoito anos que eu fazia de tudo para ser uma filha boa aos seus olhos e esse reconhecimento nunca chegou. Terminei de colocar a comida no prato deles dois, agora dessa vez, observando Helena rir de alguma piada boba que Joshua fez sobre as minhas olheiras. Me sento e por fim, me sirvo. Escutar aquilo me estressa, saber que tenho total obrigação de cuidar de tudo sozinha me estressa. Fechei os olhos e tentei pensar em coisas tranquilas, algo que me fizesse sentir em casa no meio do inferno, algo que me trouxesse paz, precisei de mais de dez segundos para, finalmente, lembrar do abraço do meu pai. Sinto a sua falta. Mais uma vez respirei fundo, antes de abrir os olhos e ter que lidar com aquele diálogo tóxico. — Como está na faculdade, meu bem? — Novamente ela se dirigiu ao seu único filho. — Sou o melhor da turma, mãe. Joshua falava como filho querido, sinto a comida travar na garganta com toda essa melação. Mas uma vez, aquilo não era ciúmes, era puramente injustiça. — É claro que é, você é o melhor — ela sorria com orgulho, fazendo importante frisar o final da sua frase: — em muita coisa. — Só não com as garotas. — Sendo a linguaruda que sou, aguentar tudo calada era demais para minha pessoa. Meu irmão me olhava com raiva, ele parecia querer me matar por pensamentos. — E você Lailah? Quando vai começar a faculdade? Afinal já tem dezoito e até agora não fez nada da vida. — Meu bem, você sabe.. A Lailah não vai fazer faculdade, ela vai continuar estudando no convento. — Helena disse por mim. Senti o pedaço da lasanha grudar na minha garganta ao ouvir aquilo, ela falava com um sorriso altamente plastificado no rosto, com tanta naturalidade... Ela nunca foi capaz de me perguntar se ao menos era isso que eu queria, apenas decidiu por mim quando quis se ver livre da minha pessoa que eu viveria como se fosse uma santa, sendo que nunca fui uma. — Então mãe... Queria conversar sobre isso com você, pois eu acho que essa história da Lailah ficar no convento não vai acontecer. Era logico que meu irmão sendo o cretino que é, não deixaria escapar a oportunidade de f***r com a minha vida, até porque isso, dentro de todas as coisas que ele é bom, é a que ele faz de melhor. Larguei o garfo na mesa, coloquei os cotovelos em cima da mesa e cruzei os dedos. — Eu amo lasanhas de carne. Vocês não? — Tentei mudar rapidamente de assunto, sem me importar em estar parecendo desesperada demais, eu só queria poupar um pouco mais o meu dia. Ele já tinha sido exaustivo o bastante. — Deixe o Joshua falar Angeline. Você sempre fala demais. — Minha mãe disse, fazendo uma feição que variava entre tédio e desgosto. — Não me diga que é lesbica? — fiz uma cara de confusa, minha boca se abriu para responder, porém ela foi mais rápida em continuar — sempre suspeitei. — Não, não é isso. Ainda... — Josh alfinetou. Além de ser feita de escrava, eu ainda recebo cobranças de como se portar como uma boa garota. Uma boa garota gosta de cores que não seja preto, uma boa garota usa vestidos, uma boa garota gosta de coisas de meninas e toda aquele blá blá que as feministas odeiam. Resquícios de vir de um Internato religioso. É um saco. — Então diga, meu querido. — Helena pediu, me fazendo temer os momentos seguintes. Travei meu maxilar, depois fechei os olhos, apenas para esperar o pior e não ter que ver pela milionésima vez a decepção estampada no rosto da minha mãe. — Ela desfigurou a cara da Jessica. — Quem diabos é Jessica? — Ela perguntou, jogando os talheres na mesa. Eu me fazia essa mesma pergunta. — Então mãe, quando souber, vai ter que tomar medidas sérias com a minha irmã. — Isso é ironia sua, não é? — Foi minha vez de jogar os talheres na mesa, com ódio, ouvindo meu irmão gargalhar, enquanto destruir a minha vida era a sua maior diversão. — Mais uma briga? Quando você vai parar com essa merda? — A voz de Helena exalava desgosto. Era palpável esse sentimento. Minha mãe estava ficando vermelha e talvez com razão, não era a primeira briga em que eu me metia. Eu sempre estava metida em alguma treta, mas essa tinha sido em nível hard. — Ela é filha do médico diretor daquela hospital famoso, acho que é Albert alguma coisa, resumidamente ele é um dos caras mais influentes do país, sem contar que a mãe dela é uma socialite mesquinha, bem conhecida que por sorte, também é cirurgiã plástica, porque a Lailah acabou com o rosto da garota e talvez nem tenha mais jeito. — Joshua jogou as palavras, simplesmente. — Então, sua querida filha que seguia os caminhos da santidade, mostrou mais uma vez que é um caso perdido e foi expulsa do Colégio Interno, faltando apenas algumas semanas pro final do ano letivo. Encarei o prato de macarrão na minha frente e esperei a enxurrada de julgamento que viria, juntamente com gritos e até mesmo um tapa, mas nada, absolutamente nada que eu imaginasse, era mais doloroso do que ouvir a minha mãe dizer em sussurro, cheio de veracidade: — Você é a minha maior decepção da minha vida, Angeline, sem dúvidas, você é a pior coisa que já me aconteceu. N/A NOTAS DA AUTORA Meio triste né? É a realidade de muitos jovens hoje dia. Para quem não entendeu, a Lailah tem uma mãe narcisista. Para começar, mães assim geralmente aproveitam o fato de ser autoridade para terem aprovação e cometem abusos psicológicos. Os ataques também ocorrem de forma verbal e emocional, de forma que a mãe sempre se auto vanglorie Fonte: https://albertodellisola.com.br/maes-narcisistas/
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