Quantos segredos você consegue guardar?
Porque esta melodia que encontrei me faz pensar em você de alguma forma.
Do I Wanna Know?, Arctic Monkeys
Segredo.
Quando você tem um, se sente distante de tudo que deveria ser, mas você nunca se sente sozinho, até porque o segredo é o elo mais forte que pode existir entre duas pessoas.
A minha missão na terra era simples: matar.
Isso, qualquer um pode fazer, mas não é qualquer um que é capaz de fazer. Tem uma grande diferença aqui.
Tenho asco em assumir, porém o fato é, eu fui criado para ser c***l, obedecendo um louco sanguinário que me educou como um fantoche em suas mãos.
Sai de casa com um único intuito: me ver livre das merdas da minha família e aqui estou eu, afundado até o talo em mais problemas.
Meu pai foi preso há pouco mais de um ano. Quando ocorreu a grande investigação contra o maior narcotraficante da América Latina. O estado de São Paulo parou, Hernandes Vargas caiu, e com ele levou todo o sistema de contrabando de drogas ilícitas junto. Bem, isso foi o que a mídia passou na época para o público, que por sua vez acreditou fielmente, mas sabemos que na vida real do mundo obscuro não é bem assim.
Em uma silenciosa segunda-feira de natal, me foi concedida, automaticamente, a minha carta de alforria quando meu pai foi condenado à prisão perpétua na maior cadeia de segurança máxima do Brasil.
Até aí, tudo bem, passei a amar natais e as segundas-feiras.
Porém o fato de Hernandes ficar longe do comando, não significava que os negócios sujos da família tinham acabado.
Stefanie só tinha dezesseis anos na época, ela sempre foi uma pessoa difícil de lidar, desde de que a nossa mãe se foi há dez anos atrás. Minha irmã se tornou uma criança problemática, depois uma adolescente problemática e por fim uma adulta problemática. Agora sem meu pai, não nos restou nada mais e nada menos do que dívidas a pagar, e não falo só de dinheiro.
Eu estava pouco me fodendo para o que tinha acontecido e pra quem tinha me feito esse favor, entretanto, se eu quisesse passar mais um dia vivo, eu tinha que aceitar que o rumo da minha vida foi totalmente mudado.
No final de tudo eu entendi, que quem foi condenado não foi meu pai e sim eu, por ter que fazer o que eu sempre abominei, agora finalmente chegou a minha vez de tomar a frente do sistema, o cargo de chefia de uma das maiores distribuidoras de alucinógenos e responsável por grande parcela do narcotráfico do continente.
Mas não pretendo ficar aqui por muito tempo e antes de assumir tanta merda, eu fiz uma promessa, decretei que matar quem prendeu meu pai, seria a última coisa que eu faria como m****o da máfia.
Não por ele, mas pela segurança da Stef e depois por mim. Nós seríamos os próximos da lista e preciso ganhar tempo para poder fazer com perfeição esse trabalho. O problema é que tempo é tudo que não tenho. Não posso deixar rastros e nem suspeitas. Um empecilho para isso é a polícia anda na minha cola, estou sendo rastreado por todos os lugares onde passei e agora sou obrigado a me esconder e andar como um rato.
O outro empecilho é um par de olhos castanhos que andam tirando totalmente a minha concentração.
Lailah me olhava como se pudesse conseguir ver no meu rosto toda a minha ficha criminal, mais suja do que um próprio chiqueiro de porcos, como se estivesse praticamente comendo a minha alma viva.
Isso é mais do que brincar com o perigo, isso é como dançar com o próprio d***o.
― DERICK, abre a merda dessa porta!
Fui arrancado das nuvens dos meus pensamentos e jogado na realidade dos gritos irritantes da minha irmã me chamando do outro lado da porta do meu quarto.
Eu ainda estava assimilando o que tinha acabado de acontecer, nessa noite. Lailha tinha a aparência de uma boa garota, o rosto de formato redondo, olhos amendoados com o tom de castanho beirando o avermelhado, contornados por lápis sem muita dedicação, e como o cheiro de morango que não saia da minha mente que vinba dos seus cabelos presos em um coque m*l feito. De cara, eu já percebia que ela não se esforçava para ser tão linda assim, como um anjo, porém a sua personalidade arrogante e hostil podia ser comparada ao inferno.
Eu não fazia ideia de como eu tive a brilhante ideia de trazer a Lailah pro meu quarto e nem porque fiquei preocupado quando a vi em outra dimensão devido a quantidade de droga que ela ingeriu, minutos antes de eu chegar no banheiro.
Entorpecentes e álcool em uma mistura, é como brincar de roleta russa sem balas. Eu sei como é essa merda, você começa e nunca mais quer parar e quando se dá conta, já entrou em um estado limítrofe entre a vida e a morte.
Então, eu fiz o que a minha consciência mandou, a única pessoa conhecida que havia naquele local era o seu irmão, mas eu não entregaria ela pra ele, primeiro pelo estado em que ela se encontrava e segundo porque ele é muito filho da p**a pra cuidar de uma garota. Por isso eu seria incapaz, até certo ponto, de ver a situação que ela ficou e não fazer nada. Quando percebi, eu já tinha colocado-a pra dormir na minha cama, e ela o fez, como uma pedra enquanto eu limpava toda a p***a do vomito pelo quarto.
Se a Stef ao menos sonhasse sobre esse fato, se ela não me matasse, passaria cinco décadas dizendo que o velho Derick se perdeu no tempo e que meu coração de pedra acabou amolecendo. De fato, isso tem um quê de verdade, mas não tanto assim, só estava garantido uma porcentagem de bondade aqui na terra. Sabe Deus, quando será meu último dia por aqui.
— ABRE-O-c*****o-DESSA-PORTA! — Minha irmã gritava, gritava não, berrava do outro lado da porta, a ponto de eu ter a certeza que todas as outras pessoas dessa maldita Fraternidade já tinham acordado com o barulho.
Respirei fundo vendo a Lailah puxar seu vestido pra baixo depois de ter caído em cima daquele arbusto e logo após abrir a porta do meu Opala, adentrando no veículo. Eu ia esperar ela dar partida, mas de relance estava vendo os parafusos que seguravam a madeira ameaçarem de se soltar com os socos que aquela outra louca estava dando, me fez se apressar em abrir e em seguida proteger meu rosto com os braços, para que nada em mim fosse deformado com os murros que provavelmente eu levaria.
— Eu vou te matar antes que a polícia faça isso! — Foi o que a Stefanie disse, invadindo meu quarto igual um furacão. — Por que você não está fazendo o que eu disse exatamente pra fazer?
— Stef, as coisas..
— Cala a boca! Eu estou falando. — Lhe olhei confuso, ela tinha acabado de me fazer uma pergunta.
— Derick, qual a dificuldade que você tem em tirar um tempo dentro da sua rotina de baladas e mulheres e procurar a pessoa que você tem que procurar?
Pisquei. Pisquei outra vez. Ultimamente minha vida se resumia a isso e a brigas de ruas, para aliviar a tensão, além de fugir da polícia e por último exercer meu trabalho, entretanto, ela tem razão, não estou me empenhando em nada disso.
— EU ESTOU TE FAZENDO UMA PERGUNTA! — Ela berra outra vez e tenho vontade de lhe tapar a boca com uma fita adesiva.
— Você me disse para calar a boca. — Dei de ombros, procurando minha camisa.
Bufo impaciente e olho pela janela, meu carro já não está mais lá e o medo aflora ao lembrar que antes dela sair pela janela, a sua boca avermelhada ameaçou de eu nunca mais ver meu filho, a veracidade de psicopatia que tinha naquela sua ameaça me diziam que haviam grandes chances de eu nunca mais sentir o cheiro do couro que eu cuidei com tanto amor naquele carro.
— DERICK!
— O QUÊ? — Quando noto já estou gritando também. O f**a é que não consigo me concentrar nas merdas que a Stef fala, devido não parar de pensar no meu carro e muito menos nela. Se ela fizer algo com ele, juro que caço essa garota até o fim do mundo se for preciso, mas ela pagará por isso.
— Você já sabe quando vai fazer?
— Não, c*****o. — Esbravejo, segurando meus fios de cabelo pra trás. — preciso de tempo.
— Quanto tempo? — Ela cutuca meu ombro. — Daqui a trinta anos?
— Não seria uma má ideia. — Dou de ombros.
— Ótimo, faça isso e quem morre é você. — vejo ela dar passos firmes até a porta.— Te dou até o final desse mês.
Começo a encarar aquela figura diabólica de autoritarismo, me dando nos nervos.
— Desde de quando você dá as ordens aqui?
— Desde de quando a minha cabeça, e depois a sua, estão sob mira de investigação policial. — disse antes de cruzar a saída do quarto.
— Espera, Stef! — seguro seu braço. Ela tinha razão, apesar de que menos de um mês era impossível. — me dê mais tempo e me deixe trabalhar do meu jeito, é só isso que te peço.
— Você que lute, Derick! — ela já tinha a resposta na ponta da língua, sem se importar nadinha com a minha contestação. — Te dei tempo suficiente para fazer as coisas direito e você cagou e andou pra isso. Agora a polícia está cada vez mais na sua cola e você vai se f***r duas vezes se não matar essa pessoa antes de ser preso, entendeu?
— Porra... — Murmuro, vendo que não tenho saída.
— Derick, me faça o favor. Eu sou a pessoa inteligente daqui, você você só faz o serviço sujo. O alvo está próximo, maninho. Não é tão difícil assim. — no fundo da sua voz tinha um tom de deboche.
— Se falar isso de novo, quem vai fazer o serviço é você.
— Ok, mau humorado, faça do seu jeito, mas faça logo!
Stef é uma adolescente birrenta e mimada, sem sentimentos, quando ela nasceu já vivíamos em trono de ouro, nossa mãe já estava em seus últimos dias de vida, acabou que, ela não sabe muito sobre como é ser um ser humano bom.
— Entendido, soldado. — Bati continência e irritando a pirralha mais ainda, por mais que eu odiasse seu jeito insuportável, não conseguimos ficar um sem o outro. Ela é tudo que a vida me deixou.
— Se chamar de soldado de novo, te faço engolir a sua bolas com arroz. — automaticamente minha mente viajou na imagem da garota de olhos azuis, vestida totalmente de preto, pendurada na minha janela, desejando minha morte acompanhada da degustação do meu próprio p***o.
Era um pensamento mórbido, não entendo o porque estou sorrindo ao lembrar disso.
— Tá, tá... — Cocei a cabeça e me joguei na cama, esperando ela dar o fora do meu quarto de novo e me deixar dormir em paz.
— Quem é a garota que dormiu aqui? — Até que ela me pegou desprevenido com a pergunta.
— Quê!? — Me virei para ver a figura da garota, com o nariz franzido, como se estivesse sentindo o cheiro de algo. O olfato da Stef poderia se comparado a de um cão farejador e a sua intuição era de outro mundo. Ela sabia, mas eu obviamente iria mentir até a morte. Ela nunca poderia saber de algo desse tipo, vindo de mim, desmancharia toda a minha pose de cara que ta pouco se lixando pra tudo.
— Não se faça de desentendido, não combina com a sua carinha de homem sem vergonha.
— Desde de quando se importa com quem eu durmo? — Rebati. — Trago quem eu quiser.
— Aham... — Ela jogou a peça na minha cara. — Só espero que essa garota não atrapalhe os meus negócios, porque se atrapalhar você vai ficar fodido não só uma, nem duas, mais sim três vezes a mais, Derick.
Me levantei, cocei a testa, inspirei e expirei lentamente.
— Ok. Agora é hora de vazar, já te irritei o bastante. — ela sorriu, depois de conseguir exatamente o que queria.
Seus braços passaram em volta dos meus ombros, em um apertado abraço.
— Se cuida, Derick. — ela me soltou, apenas para me olhar firme. — Não quero perder meu melhor funcionário pra polícia, e nem ver o meu irmão chato morto, ta ok?
Não acredito muito em sinais, sou cem por cento cético, mas era lógico que a minha irmã tinha sentido algo na sua intuição. O caminho em que eu estava indo, era perigoso demais.
— Positivo. — Bati continência novamente, mas deixei pra lá a parte do general, pois sabia que ela falava sério sobre as minhas bolas.
Pobre irmanzinha, se ao menos imaginasse...
Eu nunca disse que era uma boa pessoa e mesmo que eu planeje ser uma, a vida é fodida demais para me deixar ter uma escapatória.
Me deito na cama, depois que Stef sai, e encaro o teto com os dedos entrelaçados sob o meu peito. Mil coisas rondam meus pensamentos, e dentre essas mil coisas, um milhão delas são problemas, problemas que tento guardar às setes chaves dentro de mim, mas o único que me incomoda tem nome e cabelos ondulados.
Angeline.
O QUE ESTÃO ACHANDO?
Queria pedir pra quem tiver lendo, comentar bastante, isso ajuda muito a me motivar ?